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Álcool

Jogo vicia mais que álcool

26/04/2004


 

Quando bate aquele desejo incontrolável de encher o copo ou gastar todo o dinheiro numa aposta, quem tem mais dificuldade de ficar longe de seu vício, o alcoólatra ou o jogador patológico? O psiquiatra Hermano Tavares, coordenador do Ambulatório do Jogo Patológico (Amjo), do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo, concluiu que a fissura experimentada pelo apostador compulsivo é de uma magnitude 50% maior do que a vivenciada pelo alcoólatra. Fissura é aquela vontade doentia que leva os dependentes a reincidir em seu vício, a despeito de conhecerem seus efeitos negativos.


As correntes que prendem o apostador ao jogos de azar são tão fortes que o médico compara essa dependência à vivida pelos viciados em drogas químicas. "Em vez de se parecer com o alcoólatra, o jogador patológico se comporta de uma forma mais próxima à do cocainômano", afirma o médico, que, com o auxílio de testes e questionários, comparou a personalidade de 40 dependentes de bebida com a de 40 viciados em bingos eletrônicos, metade de cada sexo. O estudo foi feito com pacientes do serviço de psiquiatria da Universidade de Calgary, no Canadá, onde o médico terminou seu pós-doutoramento no fim de 2002. "Mas as conclusões são válidas para jogadores patológicos de qualquer país", diz Tavares.


Uma diferença marcante entre o alcoólatra e o viciado na jogatina: enquanto o primeiro não encontra emoções positivas em nada - a não ser nas cartas, roletas e cartelas de bingo -, o segundo ameniza suas sensações negativas com o auxílio da bebida. O jogador patológico faz suas apostas para tentar ser feliz. "Nada o diverte tanto como o jogo", assegura o psiquiatra. O alcoólatra bebe para esquecer as tristezas. "Ele é um tipo mais vulnerável à depressão", comenta Tavares. Outro contraste diz respeito ao ritmo com que cada um desses dependentes alimenta o seu vício. O alcoólatra costuma beber com constância regular, como se estivesse seguindo um ritual ou pondo em prática um hábito quase corriqueiro. Não raro, toma a mesma dose de álcool todo dia, no horário de sempre. "O jogador patológico, como o viciado em cocaína, age por impulso", compara Tavares. Quando tem à mão recursos para jogar, aposta todo o seu dinheiro num único dia. Só pára quando quebra financeiramente, o queoleva a um esgotamento físico e mental. "O mesmo ocorre com o dependente de cocaína ", afirma o médico.


A pós-quebradeira do jogador patológico também é semelhante ao período de recuperação do viciado em cocaína. Ambos passam dias amaldiçoando sua dependência, prometendo a si mesmos que não repetirão o erro. Até que bate de novo a vontade irresistível de jogar, no caso de um, ou de cheirar, no caso de outro. Nessas horas, se não tiver mais dinheiro, o jogador patológico (ou o dependente de cocaína) faz qualquer negócio para financiar seu vício: rouba, vende objetos de casa ou de terceiros. O apostador desenfreado mente para os outros (e para si mesmo) e diz que vai jogar só mais uma vez. E que, desta vez, vai recuperar todo o dinheiro que perdeu em outras ocasiões. "Ele perde de novo e se exaure física e mentalmente mais uma vez", diz Tavares. O ciclo da dependência, então, se reinicia.


Revista Pesquisa Fapesp Online


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Publicado por: Dra. Shirley de Campos
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