Odontologia Preventiva/Dentista - Eliminando a sensibilidade pós-operatória nas cimentações adesivas
Esta página já teve 114.634.670 acessos - desde 16 maio de 2003. Média de 27.777 acessos diários
home | entre em contato
 

Odontologia Preventiva/Dentista

Eliminando a sensibilidade pós-operatória nas cimentações adesivas

12/06/2004
 
 
O fator de configuração cavitária ("fator C") é uma descoberta recente que responde, em parte, alguns fenômenos que ocorrem na estrutura dentária, tendo relação direta com a contração de polimerização dos materiais constituídos de monômeros resinosos, como as resinas compostas para restauração e cimentação.

Tais fenômenos englobam a indução de tensões nas paredes cavitárias, que podem resultar em trincas no esmalte e na dentina, fendas e falhas marginais nas restaurações, microinfiltração e sensibilidade pós-operatória. Todos esses fatores preocupam, principalmente quando restaurações diretas de resinas compostas são confeccionadas, especialmente em dentes posteriores. Para minimizar tais problemas, poderíamos pensar em adotar técnicas indiretas de confecção de resinas, como os sistemas Art-Glass (Kulzer), Skulpture (Jeneric-Pentron) ou Solidex (Shofu) por exemplo, pois toda contração de polimerização aconteceria fora da boca.

Especificamente, quando construímos restaurações indiretas grandes em resina, como as "onlays", teoricamente não teríamos nenhum dos fenômenos acima listados. Mas o dia a dia na prática clínica nos mostra que é comum haver sensibilidade pós-cimentação dessas peças, em dentes polpados.

Lembrando que tal cimentação é feita às custas de resinas compostas de baixa densidade (cimentos resinosos), e levando em conta que temos até onze paredes aderidas (e nenhuma livre) nos casos de "onlays" clássicas (MOD), o "fator C" se manifestaria em altíssimo grau (Fc=11). Isso pode responder a questão relativa à sensibilidade pós-cimentação, pois a resina de cimentação contrai-se toda de uma vez, em várias direções, impondo vetores de contração de polimerização com sentidos aleatórios. Tais vetores poderiam tensionar os "tags" que o sistema adesivo possui dentro dos canalículos, o que poderia ser o responsável pela produção de estímulos hidrodinâmicos dolorosos nos prolongamentos odontoblásticos, principalmente quando o paciente oclui.

Dois fatos são reconhecidos hoje quando falamos em restaurações adesivas: 1) toda massa resinosa recém polimerizada ainda não está dimensionalmente estável, fato que ocorre tardiamante após, em média 24 horas, coincidentemente com a hidratação da restauração; 2) o sistema adesivo empregado deveria promover um selamento adequado dos canalículos, fato que é falho em algumas situações. Tais situações incluem uma inadequada aplicação da camada de "primer"; a presença de dentina esclerosada (sítio inadequado para a aplicação de adesivos); a reação "explosiva" entre a água de hidratação e o solvente do sistema adesivo, digamos assim dos sistemas adesivos de 4ª geração monocomponentes, principalmente quando o solvente for acetona; o excesso ou a falta de água de hidratação na dentina recém condicionada e lavada, pois uma correta quantidade de água mantém as fibras colágenas em uma condição expandida, preservando os espaços interfibrilares.

Na tentativa de sanar o inconveniente da sensibilidade pós-cimentação, várias técnicas foram desenvolvidas. Algumas preconizavam a remoção da restauração, outras indicavam um corte no sentido mésio-distal, liberando a tensão de convexão sofrida pelas cúspides, enquanto outras rezavam a aplicação de generosas bases de cimentos ionoméricos. Tanto a remoção quanto o corte são procedimentos invasivos, que podem causar um desgaste emocional do paciente e prejudicar a estética e a resistência da restauração.

Observando a natureza, sabemos que a dentina esclerosada é menos reativa ao condicionamento ácido e também menos sensível, pois há deposição de íons cálcio e magnésio na embocadura dos canalículos, com o claro intuito de vedá-lo. Com tudo isso, tal dentina torna-se menos susceptível à sensibilidade pós-cimentação. Baseados nesse fato, poderíamos promover um vedamento artificial da embocadura dos canalículos, através de uma aplicação modificada dos sistemas adesivos. Essa aplicação modificada recebe aqui o nome de "esclerose dentinária artificial", ou ainda, sintética ou polimérica. Descreveremos a seguir tal técnica, discutindo quais os adesivos têm um comportamento clínico mais favorável para tal propósito.

Na sessão de preparo de uma "onlay" num dente polpado, por exemplo, após o acabamento da cavidade, procede-se a moldagem e a cimentação de uma restauração provisória. Na sessão seguinte, após anestesia, é feita uma profilaxia e a hibridização da dentina, com posterior cimentação da restauração definitiva. Esse é o processo convencional em consultório. Temos para isso empregado vários sistemas adesivos de 4ª geração, aqui denominados de sistemas de um ou de dois frascos, ou seja, monocomponentes ("primer" e resina fluida juntos) ou de componentes separados ("primer" num frasco e resina fluida em outro). Notadamente temos encontrado menor índice de sensibilidade pós-cimentação nos sistemas de dois frascos, talvez pela menor velocidade de evaporação dos solventes contidos no "primer". Nos sistemas monocomponentes, tal evaporação é rápida e veloz ("explosiva"), não dando tempo, talvez de uma maior e mais homogênea permeação dos monômeros hidrofílicos nos espaços interfibrilares do colágeno. O processo de esclerose artificial consiste no emprego de adesivos de dois frascos e num pequeno detalhe, na sessão de preparo e moldagem da restauração supracitada: após o acabamento da cavidade e antes da moldagem, fazemos o condicionamento ácido, a aplicação do "primer" por 15 a 20 segundos, esfregando-o suavemente em toda a superfície dentinária, garantindo uma aplicação mais homogênea. O número de vezes de aplicação do "primer" pode variar de 1 a 5 camadas, dependendo do sistema adesivo adotado. Após a aplicação do "primer", aplicamos a resina fluida e após sua polimerização é feita a moldagem.

Logo após a moldagem, cimenta-se a restauração provisória. Na sessão seguinte, após a anestesia e profilaxia, nova aplicação do sistema adesivo é feita, garantindo um melhor e mais estável selamento dos canalículos, após a cimentação, pois a 1ª aplicação do sistema adesivo estabilizou-se nesse período, não sofrendo de imediato o estresse da contração de polimerização que um alto "fator C" propiciaria.

Dessa maneira temos tido sucesso no pós-operatório das nossas restaurações indiretas, tanto em resina quanto em cerâmica, com a ausência ou muito pouco de sensibilidade após cimentações.

Referências bibliográficas:
- Nakabayashi, N.; Pashley, D.H. Hybridization of hard dental tissues. Tokyo, Quintessence, 1998.
- Versluis, A. ; Tantbirojn, D.; Douglas, W.H. Do dental composite resins always shrink toward to light? J. Dent. Res., 77(6): 1435-45, 1998.
- Van Meerbeek, B. The clinical performance of adhesives. J Dent., 26(1): 1-20, 1998.
- Silva e Souza Jr, M. H.; Carvalho, R.M.; Mondelli, R.F.L. Odontologia Estética, Fundamentos e Aplicações Clínicas, Editora Santos, 1ª edição, São Paulo, 2000.
- Conceição, E. N. e colaboradores. Dentística, Saúde e Estética, Editora Artmed, 1ª edição, Porto Alegre, 2000.

1 Prof. Dr. Heraldo Riehl - Professor Coordenador do Curso de Especialização em Dentística Restauradora da ABO-MT, Mestre e Doutor pela FOB-USP.
2 Profª. Nadeje Campanati Silva - Professora do Curso de Especialização em Dentística Restauradora da ABO-MT, Especialista em Dentística pela ABO-MT

www.ciapec.com.br


IMPORTANTE

  •  Procure o seu médico para diagnosticar doenças, indicar tratamentos e receitar remédios. 
  • As informações disponíveis no site da Dra. Shirley de Campos possuem apenas caráter educativo.
Publicado por: Dra. Shirley de Campos
versão para impressão

Desenvolvido por: Idelco Ltda.
© Copyright 2003 Dra. Shirley de Campos