Urologia/Andrologia/Homem - Dor testicular aguda - Parte I
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Urologia/Andrologia/Homem

Dor testicular aguda - Parte I

11/07/2004


Sociedade Brasileira de Informações de Patologias Médicas (SBIPM)


Introdução

Sem dúvida este quadro tira a tranqüilidade de muitos urologistas e médicos pronto-socorristas, pois é um quadro em que o profissional tem no máximo 6 horas para dar um diagnóstico correto e uma conduta adequada, nos caso de torção de testículo.

A Sociedade Brasileira de Informações de Patologias Médicas (SBIPM) procurou resumir e organizar um padrão de conduta quanto ao exame físico e propedêutica armada para ajudar no diagnóstico mais correto possível e em menor espaço de tempo e por causa da importância do tema esse levantamento foi dividido em duas partes.

A torção testicular deve ser considerada em qualquer paciente que se queixe de dor escrotal aguda e de tumefação. A torção do testículo é uma emergência cirúrgica, visto que a probabilidade de salvar o testículo diminui à medida que a duração da torção se estende. As condições que podem simular a torção testicular, como torção de um dos apêndices testiculares, epididimite, trauma, hérnia, hidrocele, varicocele e púrpura Henoch-Schönlein, geralmente não necessitam de intervenção cirúrgica imediata. A causa de um escroto agudo pode, geralmente, ser estabelecida a partir de levantamento criterioso do histórico do paciente, de exame físico completo e exames diagnósticos apropriados. O início, a natureza e gravidade dos sintomas devem ser determinados. O exame físico deve incluir inspeção e apalpação de abdômen, testículos, epidídimo, escroto e região inguinal. Exame de urina deve ser sempre realizado, mas testes de diagnóstico por imagem do escroto também serão necessários se restarem dúvidas quanto ao diagnóstico. Uma vez estabelecido o diagnóstico correto, o tratamento será fácil de determinar.

Dor ou tumefação testiculares, freqüentemente atribuídas à presença de escroto agudo, podem ter várias causas. A torção testicular representa emergência cirúrgica, pois a probabilidade de salvar o testículo diminui com a duração da torção. Por essa razão, o urologista deve agir rapidamente a fim de identificar ou excluir a possibilidade dessa condição em qualquer paciente que apresente escroto agudo. Este artigo faz revisão de uma abordagem para diagnóstico e tratamento do escroto agudo.


Dados clínicos a serem considerados

O histórico e o exame físico podem reduzir significativamente o leque de possibilidades para o diagnóstico diferencial de escroto agudo, quando não estabelecer a causa exata dessa condição. Nenhuma das condições responsáveis pela dor escrotal ou tumefação agudas tem um único sinal patognomônico, mas os antecedentes do paciente junto com os achados do exame físico sugerem freqüentemente o diagnóstico correto.

A idade do paciente é importante. A torção testicular é mais comum em recém-nascidos e meninos na pós-puberdade, embora essa condição possa ocorrer em homens de qualquer idade. A púrpura Henoch-Schönlein e a torção do apêndice testicular ocorre tipicamente em meninos pré-púberes, enquanto a epididimite desenvolve-se mais freqüentemente em meninos na pós-puberdade.

O início e a duração da dor devem ser cuidadosamente determinados. A torção testicular começa geralmente de forma súbita, como o acender de uma lâmpada. A dor é forte e o paciente com freqüência parece sentir muito desconforto. Dor moderada que demora alguns dias para se desenvolver gradualmente é mais indicativa de epididimite ou torção apendicular. Nessas duas condições, o paciente pode sentir-se aparentemente bem, exceto quando examinado.

O urologista precisa estar ciente de que uma criança constrangida pode afirmar que está sentindo dor inguinal ou abdominal inferior ao invés de escrotal. Uma criança também pode minimizar seus sintomas por medo. Portanto, o histórico deve ser confirmado pelas observações dos pais sobre o comportamento da criança.

Histórico de trauma não exclui o diagnóstico de torção testicular. O trauma escrotal ocorrido durante atividades esportivas ou jogos rudes e violentos freqüentemente causam dores severas de curta duração. A dor que persiste por mais de uma hora após o trauma escrotal não é normal e merece investigação para verificar se não houve ruptura testicular ou torção aguda. As dores que passam rapidamente após o trauma escrotal, mas que voltam gradualmente poucos dias depois, sugerem epididimite traumática.

Devem sempre obter-se informações sobre ocorrências prévias de dor. Quando indagados, muitos pacientes com torção descrevem episódios anteriores de dor similar que duraram pouco tempo apenas e passaram espontaneamente. Dor aguda que vai e volta sugere torção intermitente com destorção espontânea.

Finalmente, um histórico urológico e cirúrgico geral deve ser levantado. Problemas neurológicos, anomalias geniturinárias congênitas e instrumentação uretral podem predispor o paciente a infecções do trato urinário e até à epididimite.


Exame físico

Exame físico

O médico pode, freqüentemente, avaliar a intensidade da dor observando o paciente antes de iniciar o exame físico. O paciente está se contorcendo de dor ou está deitado confortavelmente? Ele conversa com amigos ou com alguém da família? É capaz de andar sem desconforto?

Um exame abdominal geral deve ser realizado, com especial atenção à sensibilidade do flanco e à distensão vesical. Em seguida, a região inguinal deve ser examinada para se verificar se há hérnias evidentes e algum tipo de tumefação ou eritema. O cordão espermático na virilha pode estar dolorido em pacientes com epididimite, mas essa dor não é típica em pacientes com torção testicular.

O exame genital começa com uma inspeção do escroto. Os dois lados devem ser avaliados de modo a determinar se há discrepâncias de tamanho, grau de tumefação, presença ou ausência e localização de eritema, engrossamento da pele e posição dos testículos. A tumefação unilateral sem alterações na pele sugere a presença de hérnia ou hidrocele.

A duração dos sintomas também é relevante. Um testículo em posição alta e com inclinação anormal (transversal) pode sugerir torção, mas esse diagnóstico será improvável se houver dor com mais de 12 horas de duração e o escroto apresentar aparência normal. Tanto na epididimite quanto na torção testicular, o hemiscroto afetado exibe tipicamente eritema e tumefação significativos após 24 horas.

O reflexo cremastérico deve sempre ser avaliado. Esse reflexo é induzido dando golpes ou beliscões suaves na pele da parte interna superior da coxa e observado no escroto enquanto isso. A resposta normal é a contração dos músculos cremastéricos ipsolaterais com elevação unilateral do testículo. Um estudo constatou reflexo cremastérico intacto em 100% dos meninos de 30 meses a 12 anos de idade. Porém, esse reflexo não foi consistentemente normal em bebês e adolescentes. Reflexo cremastérico intacto é raro em pacientes com torção testicular, mas geralmente pode ser observado em pacientes com torção do apêndice testicular.

Para se realizar um exame testicular completo, é necessário ter conhecimentos sobre os pontos anatômicos de referência dos testículos. A melhor maneira de se examinar um testículo é segurando-o com o polegar e os dois primeiros dedos. Ao ser apalpado, o epidídimo deve dar a sensação de ser uma leve e macia saliência póstero-lateral no testículo. Os testículos são normalmente do mesmo tamanho.

No início da torção, o testículo inteiro encontra-se tumefacto e dolorido e apresenta-se maior que o testículo não-afetado. Sensibilidade restrita ao pólo superior sugere torção de apêndice testicular, principalmente quando um duro e dolorido nódulo pode ser apalpado nessa região. Uma pequena descoloração azulada, conhecida como "ponto azul" pode ser vista através da pele sobre o pólo superior. Esse sinal é praticamente patognomônico de torção apendicular quando há também presença de sensibilidade.

No início da epididimite, o epidídimo exibe sensibilidade e endurecimento, mas o testículo em si não está dolorido. Grau de tumefação ao ponto de impedir a apalpação do epidídimo pode ser indicativo de torção, isto se a duração dos sintomas for de apenas algumas horas. Na torção apendicular e na epididimite a impossibilidade de localizar os pontos anatômicos de referência dos testículos ocorre posteriormente no curso clínico da condição.

O testículo pode ser levantado para induzir o sinal de Prehn. A falta de alívio da dor (sinal negativo) pode contribuir para o diagnóstico de torção testicular.

Se há suspeita de torção, a destorção manual pode ser tentada, girando o testículo em direção contrária à linha média. A resolução efetiva da dor como resultado dessa manobra confirma o diagnóstico de torção e elimina a necessidade de exploração cirúrgica urgente. Entretanto, o paciente deverá ainda ser encaminhado para orquidopexia eletiva.


Propedêutica Armada

O exame de urina deve ser realizado a fim de excluir a possibilidade de infecção do trato urinário em qualquer paciente com escroto agudo. Piúria com ou sem bactéria sugere infecção e é compatível com epididimite. Baseados em nossa experiência, a contagem de leucócitos não é útil e não tem por que ser adotada como procedimento de rotina.

Até recentemente, nenhum estudo de diagnóstico por imagem era útil para confirmar a causa de escroto agudo. A exploração cirúrgica imediata era, portanto, a abordagem-padrão quando havia suspeita de torção. Entretanto, estudos conduzidos poucos anos atrás demonstraram que apenas 16% a 42% dos meninos com escroto agudo apresentavam torção testicular.

Em um esforço para melhorar a precisão do diagnóstico e evitar cirurgias desnecessárias, imagens da medicina nuclear e sonografia têm sido efetuadas em pacientes com escroto agudo. Os estudos nucleares de fluxo testicular podem ser úteis; entretanto, freqüentemente demoram muito tempo e, por isso, têm caído em descrédito.

A ultra-sonografia colorida de Doppler está sendo cada vez mais usada na avaliação de casos em que há suspeita de torção testicular.

A ultra-sonografia colorida de Doppler não é invasiva e tem precisão diagnóstica pelo menos igual aquela da cintilografia nuclear. Ela pode caracterizar semiquantitativamente o fluxo sangüíneo e distinguir o fluxo intratesticular do fluxo da parede escrotal. Pode também ser usada para avaliar as condições patológicas que envolvem o escroto.

O uso da técnica apropriada é essencial. Quando o procedimento sonográfico de Doppler não é realizado corretamente, os estudos podem acusar resultado falso-negativo ou falso-positivo. O equipamento sonográfico colorido de Doppler deve ser calibrado para mostrar primeiro o fluxo sangüíneo no testículo normal. Somente depois o testículo anormal deve ser examinado sem alteração nenhuma na configuração operacional do equipamento. Para mensurar os fluxos, o cursor Doppler deve estar posicionado no testículo. No caso de fluxo sangüíneo normal ou aumentado, o diagnóstico de torção é excluído.

Nós recomendamos a exploração cirúrgica quando um ultra-sonograma colorido de Doppler tecnicamente adequado não pode ser obtido ou quando o fluxo sangüíneo que irriga o testículo se encontra diminuído ou interrompido. Pode não ser possível gerar um sinal Doppler nos pequenos testículos. Nesse caso, a decisão sobre a necessidade da exploração cirúrgica é necessária somente poderá se basear nos achados clínicos disponíveis.

Recentemente, foi revisada uma série de 243 meninos que se apresentaram com escroto agudo. Exploração cirúrgica imediata foi realizada em 14 pacientes e exames ultra-sonográficos de triagem foram efetuados em 229 pacientes. A incidência total de torção testicular foi de 19%. Por meio de exame colorido de Doppler, ausência de fluxo sangüíneo foi constatada em 45 pacientes. A exploração cirúrgica confirmou torção testicular em todos esses pacientes. Um em cada dois pacientes com fluxo sangüíneo reduzido apresentou torção testicular; o outro teve torção do apêndice testicular. O ultra-som colorido de Doppler mostrou fluxo sangüíneo normal ou elevado em 182 pacientes. Nenhum deles desenvolveu atrofia testicular posteriormente, o que teria indicado torção mal-diagnosticada. A ultra-sonografia colorida de Doppler também diagnosticou corretamente hérnias encarceradas, varicoceles, hematomas e rupturas testiculares.


Conduta

1- Torção do cordão espermático

A deformidade "badalo de sino" é uma causa subjacente de torção testicular em crianças mais velhas. Nessa deformidade, o testículo carece de fixação normal com a túnica vaginal e, portanto, pende solto.

Conseqüentemente, o cordão espermático pode retorcer-se dentro da túnica vaginal (torção intravaginal).

Quando o histórico e o exame físico sugerem fortemente presença de torção testicular e a duração da dor é inferior a 12 horas, a intervenção cirúrgica urgente é indicada. Estudos de diagnóstico por imagem não são exigidos, já que podem retardar o tratamento e, conseqüentemente, comprometer a sobrevivência testicular. Quando a dor dura mais de 12 horas ou o diagnóstico não é evidente, o exame por ultra-som colorido de Doppler pode fornecer subsídios à tomada de decisões clínicas. É importante lembrar que a maior parte dos pacientes com escroto agudo apresenta torção testicular.

A cirurgia é realizada para corrigir a torção no testículo afetado e para fixar o outro testículo (orquiopexia), com o intuito de prevenir sua torção no futuro, que ocorre na grande maioria dos pacientes com torção contralateral não submetidos a esse procedimento. A exploração cirúrgica pode, geralmente, ser efetuada através de uma única incisão pequena na linha média do rafe escrotal. Testículos claramente necróticos devem ser removidos. Os testículos viáveis devem ser fixados com suturas não-absorvíveis.

Torção testicular pode também ocorrer perinatalmente, se todo o complexo testicular ainda não estiver fundido ao escroto. Nesse tipo de torção, o testículo, o cordão espermático e a túnica vaginal se retorcem em bloco (torção extravaginal). Clinicamente, a torção extravaginal manifesta-se como tumefação assintomática do escroto. Eritema ou a descoloração azulada do escroto também são freqüentemente observados.

O tratamento da torção perinatal ainda alimenta controvérsias. Alguns cirurgiões advogam a abordagem não-operatória devido às poucas possibilidades de recuperação testicular. Outros argumentam que deixar o testículo neonatal fora de lugar pode acabar afetando adversamente o testículo contralateral, e apontam para o fato de que casos de torção neonatal bilateral têm sido relatados. Entretanto, a cirurgia urgente unicamente é efetuada no recém-nascido quando apresenta clara documentação de exame normal ao nascimento e posteriormente sofre torção testicular.

2- Torção do apêndice testicular

O testículo apendicular, um fragmento remanescente do ducto mülleriano, localizado no pólo superior do testículo, é o apêndice mais comum a sofrer torção. O apêndice epididimário, localizado na cabeça do epidídimo, é um fragmento remanescente de ducto wolffiano que também é passível de torção. A torção do apêndice produz dor similar à experimentada na torção testicular, mas o início dessa dor é mais gradual. A ultra-sonografia colorida de Doppler mostra fluxo sangüíneo aumentado.

A torção de um apêndice testicular pode ser erroneamente interpretada como epididimite. Entretanto, se o exame de urina é normal, terapia antibiótica não é requerida. O tratamento requer vários dias de repouso e elevação escrotal na tentativa de minimizar a inflamação ou o edema. Atividade física normal pode piorar e prolongar os sintomas. Drogas antiinflamatórias não-esteróides (AINEs) e analgésicos, geralmente, não são úteis e, portanto, não devem ser administrados rotineiramente. A inflamação normalmente é resolvida em uma semana, embora o exame testicular possa não apresentar resultados completamente normais por várias semanas.

3- Epididimite e/ou orquite

A epididimite em adolescentes e jovens adultos está freqüentemente relacionada à atividade sexual e não apresenta infecção do trato urinário. Em meninos na pré-puberdade, entretanto, a epididimite está quase sempre relacionada com anomalias do trato urinário. Qualquer episódio de epididimite e infecção do trato urinário deve ser investigado com ultra-som vesical/renal e uretrocistografia miccional para descartar a possibilidade de problemas estruturais.

O tratamento inclui terapia antibiótica empírica até conhecer-se os resultados da cultura urinária. Se a cultura for negativa, o mais provável é que os sintomas se devam à epididimite não-bacteriana causada por refluxo urinário. Repouso e elevação escrotal são freqüentemente úteis. Os AINEs e os analgésicos podem ser usados para aliviar os sintomas. Do mesmo modo que na torção apendicular a dor e a tumefação, geralmente, se resolvem em uma semana. A resolução do endurecimento epididimário pode levar diversas semanas.

4- Trauma escrotal

A lesão testicular grave é incomum e, geralmente, resulta de golpe direto no escroto ou de lesão tipo cavaleiro. O dano ocorre quando o testículo é comprimido com força contra os ossos pubianos. Um espectro de lesões diferentes pode ocorrer.

A epididimite traumática é uma condição inflamatória não-infecciosa que, geralmente, ocorre poucos dias depois de um golpe no testículo. O tratamento é similar ao tratamento de epididimite não-traumática.

O trauma escrotal pode, também, causar hematoma intratesticular, hematocele ou laceração da túnica albugínea (ruptura testicular). A ultra-sonografia colorida de Doppler é a técnica de diagnóstico por imagem de escolha. O paciente terá de ser encaminhado a tratamento cirúrgico porque a ruptura testicular precisa de drenagem imediata e reparo. Hematomas e hematoceles são tratados de acordo com as condições individuais de cada caso.

5- Outras causas

O edema escrotal idiopático agudo é outra causa possível de escroto agudo. Essa condição é caracterizada por rápido aparecimento de edema significativo sem sensibilidade. Pode haver presença de eritema. O paciente, geralmente, não tem febre e todos os exames de diagnóstico são negativos. A etiologia dessa afecção continua desconhecida.

O tratamento consiste em repouso e elevação escrotal. Medicação analgésica é raramente necessária.

A púrpura de Henoch-Schönlein, uma síndrome vasculítica sistêmica de etiologia incerta é caracterizada por púrpura não-trombocitopênica, artralgia, doença renal, dor abdominal, sangramento gastrintestinal e eventualmente dor escrotal. O início pode ser agudo ou insidioso. Pode haver presença de hematúria. A síndrome não tem tratamento específico.

Deve-se suspeitar de hérnia inguinal em crianças que têm histórico de tumefação intermitente da virilha. Se o diagnóstico não for evidente, o exame de ultra-som pode ser útil. Uma hérnia encarcerada ou estrangulada requer intervenção cirúrgica urgente, enquanto uma hérnia redutível deve ser submetida à reparação eletiva.

Hidrocele ocorre devido a patente processo vaginal. A hidrocele pode fechar-se, retendo líquido peritoneal em volta do testículo, ou pode persistir e dilatar-se, causando possivelmente herniação intestinal. A maior parte das hidroceles resolve-se espontaneamente. Portanto, um bebê com hidrocele, sem evidência de hérnia, geralmente, é apenas observado nos primeiros um ou dois anos de vida. Se a hidrocele persistir por mais tempo, reparo cirúrgico do problema pela virilha é recomendado.

Ocasionalmente, a varicocele causa desconforto escrotal de brando a moderado. Não ocorre nenhuma alteração na pele escrotal, mas o hemiscroto afetado pode aparecer inchado. No exame físico, uma variz pode ser apalpada, parecendo ao toque um "saco de minhoca" acima de testículo e epidídimo palpavelmente normais. Encaminhamento do paciente a um urologista é prudente porque as varicoceles podem afetar o crescimento testicular e a fertilidade.

6- Massas testiculares

O médico deve com freqüência examinar pacientes com dor ou massas testiculares. O achado acidental de uma massa escrotal também pode requerer avaliação. Os pacientes podem procurar a avaliação de uma massa como achado incidental. Um histórico minucioso, combinado com um exame completo da genitália externa masculina, deve ajudar a indicar um diagnóstico preliminar e o tratamento adequado. O médico deve ter em mente os diagnósticos de emergência - ou seja, os que "não devem passar despercebidos" - associados a massas testiculares, como torção testicular, epididimite, orquite aguda, hérnia estrangulada e câncer testicular. O paciente deve ser imediatamente encaminhado a um urologista se houver suspeita de um desses diagnósticos. As causas benignas de massa escrotal, como hidrocele, varicocele e espermatocele, podem ser diagnosticadas e facilmente tratadas no consultório de atendimento primário.

Pacientes com massa testicular podem apresentar protuberância indolor ou dor escrotal, que pode variar de dor grave a dor surda que piora com o exercício. A dor pode ser localizada ou pode irradiar-se por todo o cordão espermático no abdome inferior. O exame pode revelar uma massa nos testículos ou em estruturas adjacentes. É importante que o médico conheça a fundo os vários processos benignos e patológicos possíveis para que possa proporcionar tratamento rápido e eficaz. Para tanto, é imperativo entender a estrutura da genitália masculina normal e o conteúdo escrotal.


Exame da genitália masculina

a) Pênis

O pênis deve ser examinado para procura de úlceras, e palpado para verificar a presença ou a ausência de placas ou endurecimento. O exame de cultura para gonorréia e Clamídia deve ser realizado a fim de avaliar qualquer corrimento uretral.

b) Testículos

Os testículos devem ser apalpados para verificar se há presença de massas, se são do mesmo tamanho e se apresentam sensibilidade ou criptorquia. Um testículo com menos de 3,5 cm de comprimento é considerado pequeno. Todas as massas e tumefações devem ser submetidas a exame de transiluminação. A luz não passa por um tumor sólido, enquanto a hidrocele apresenta leve cor avermelhada. As lesões testiculares crônicas, como orquite e torção testicular, podem causar atrofia testicular unilateral ou bilateral. Se um testículo não pode ser apalpado pelo escroto, os canais inguinais e o baixo abdômen devem ser examinados. Um testículo que não pode ser tocado na apalpação pode estar fisiologicamente retraído de forma transitória ou realmente ser criptorque. O reflexo cremastérico deve ser verificado em ambos os lados. Isso pode ser feito batendo levemente a coxa medial para induzir um reflexo normal que consiste em uma breve retração do testículo ipsolateral em direção à cabeça testicular.

c) Epidídimo, cordão espermático e vasos deferentes

Essas regiões devem ser apalpadas para avaliar a presença ou a ausência de endurecimento e para localizar a dor no testículo ou em estruturas adjacentes. O epidídimo é posterior ao testículo. O paciente deve realizar a manobra de Valsalva enquanto está em pé, para poder ser verificado se há massas de veias testiculares dilatadas no cordão espermático, formando varicocele acima e atrás do testículo.

d) Canais inguinais

Os canais inguinais devem ser explorados para a detecção de hérnias ou sensibilidades no cordão espermático. A funiculite, uma inflamação das estruturas do cordão espermático, pode causar dor escrotal e inguinal, mas o testículo apresenta-se normal. Avaliação para a detecção de lipomas ou hidroceles no cordão espermático também deve ser realizada.


Fisiopatologia da Torção Testicular

Mecanismo. Nos casos de torção testicular, existe uma deformidade anatômica que permite a torção do cordão espermático, ocasionando a oclusão do fluxo sangüíneo testicular. Essa anomalia é conhecida como deformidade "badalo de sino" na qual a túnica vaginal rodeia completamente o testículo. A deformidade conduz a uma fixação posterior inadequada do testículo ao epidídimo e à parede escrotal. Numa série de autópsias, constatou-se que a incidência de deformidade "badalo de sino" foi de 12% nos homens assintomáticos. É mais provável que o testículo solto apresente torção do cordão e estrangulamento da irrigação sangüínea por torção intravaginal. Os fatores capazes de iniciar uma torção são trauma ou exercícios violentos, mas esses sintomas também podem ocorrer durante o sono. Muitos pacientes lembram-se de histórias de dores similares menores que se resolveram espontaneamente. Esse tipo de histórico favorece o diagnóstico de torção.

A torção extravaginal, que é de longe menos comum que a torção intravaginal, ocorre exclusivamente em recém-nascidos. Nesse distúrbio, a fixação incompleta do gubernáculo e da túnica vaginal aos dartos fáscia causa o retorcimento do cordão acima do nível do testículo e da túnica vaginal. Esse retorcimento também corta o suprimento sangüíneo ao testículo. Geralmente, não há presença de defeito anatômico associado no lado contralateral.

Quadro clínico. A torção testicular intravaginal ocorre mais freqüentemente em homens jovens, mas também pode afetar homens de meia-idade. Os pacientes com torção testicular apresentam freqüentemente dor escrotal unilateral súbita grave que, muitas vezes, está associada a náuseas e vômitos. Edema e eritema escrotais constituem presença típica, podendo também ocorrer dor abdominal. O exame físico revela testículo afetado duro e dolorido que pode parecer retraído para cima, como resultado do torcimento do cordão espermático.

O testículo torcido é freqüentemente tumefato e edematoso, além de ser difícil distinguir nele a anatomia normal. A posição normal do epidídimo não descarta a possibilidade de torção, pois o testículo pode ter girado de 360 a 720 graus. Entretanto, um testículo que torceu de 360 a 720 graus, geralmente, encontra-se mais alto no escroto que seu par. Não há, geralmente, reflexo cremastérico na torção testicular e, portanto, a presença de reflexo cremastérico é indicativa de epididimite mais que de torção. A elevação do escroto sem alívio da dor (sinal de Prehn) é também considerado um achado indicativo de torção, mas não de forma confiável. O exame de urina é normal em 90% dos pacientes com torção testicular, enquanto pacientes com epididimite provavelmente apresentarão piúria.

Tratamento. Se o histórico e o exame físico confirmarem o diagnóstico de torção, é indispensável que o paciente seja encaminhado imediatamente a um urologista. O destorcimento rápido e a exploração escrotal não devem ser adiadas. O lado não-envolvido também deve ser submetido a procedimento de fixação para corrigir o defeito anatômico. Quando o diagnóstico é incerto, deve-se supor que os pacientes têm torção testicular até provas em contrário. Nesses pacientes, o fluxo sangüíneo deve ser avaliado com cintilografia radionuclídea ou ultra-som de Doppler para ajudar a confirmar o diagnóstico. Quando torção é diagnosticada, orquiopexia bilateral deve ser realizada, pois a deformidade de "balada de sino" ocorre freqüentemente de forma bilateral.

Prognóstico. Se o fluxo sangüíneo for restaurado nas primeiras seis horas posteriores à torção, 80% a 100% do testículo poderá ser salvo. Em áreas onde os serviços cirúrgicos são limitados, o destorcimento pode ser tentado levando o escroto ou girando o testículo sobre o eixo de seu pedúnculo. Se o procedimento for bem-sucedido, o paciente sentirá alívio imediato. Porém, a necessidade de exploração cirúrgica e orquidopexia continua. A taxa de salvamento diminuirá para 20% se a cirurgia para destorcimento for realizada após 24 horas de dor escrotal. A espermatogênese pode ser prejudicada após torção unilateral, mas isso pode ser o resultado de defeito congênito bilateral preexistente. Em um estudo de biópsias obtidas durante a orquidopexia, 55% foram anormais.

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