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Meio Ambiente/Ecologia

Frango orgânico

09/12/2004

Produção de Frango Orgânico - Desafios e Perspectivas

Luiz Carlos Demattê Filho, Gerente de Produção
Cecilia M. Ifuki Mendes, Engenheira de Alimentos
Luís Marcelo Kodawara, Zootecnista

 

Introdução
Nas últimas décadas, temos visto uma evolução significativa de modelos de produção agropecuária e de alimentos que atendem a requisitos específicos e diferenciados dos modelos convencionais, como por exemplo, a Agricultura Orgânica. No Brasil, pela definição da Instrução Normativa nº 7 do Ministério da Agricultura, de 17 de maio de 1999, todos os movimentos de agricultura alternativa, abrangendo: Natural, Biodinâmica, Ecológica, Sustentável, Regenerativa, Biológica, Agroecológica e Permacultura foram nomeados simplesmente como Agricultura Orgânica.

Esses modelos diferenciados que começaram no âmbito quase que exclusivo da produção, atualmente atingem os consumidores e apresentam uma demanda crescente. O termo "consumo consciente" torna-se cada vez mais comum e evoca um consumidor que compra produtos que julga serem produzidos sob condições que preservam o meio ambiente e que são pautadas pela responsabilidade social.

Além disso, aliam-se as preocupações com a segurança dos alimentos, geradas por uma série de acontecimentos recentes, envolvendo riscos no consumo de alimentos. Dentre todos, o fato que gerou maior impacto foi sem dúvida o Mal da Vaca Louca na Europa. Não menos preocupante é a questão da existência crescente de resíduos de substâncias químicas nos alimentos, seja por via direta - agrotóxicos, antibióticos e quimioterápicos utilizados no cultivo e produção, seja por contaminação ambiental - como dioxinas e poluentes orgânicos persistentes (POP's), etc. Cada vez mais estabelece-se uma relação entre os alimentos e a saúde dos indivíduos. A etiopatogenia de uma série de doenças neurológicas e endócrinas em seres humanos parece estar relacionada à exposição a grupos de defensivos agrícolas, principalmente os organofosforados.

Estudos têm relacionado a ocorrência de bactérias resistentes a antibióticos e quimioterápicos em animais, alimentos e seres humanos, com o uso das mesmas substâncias ou grupos semelhantes na produção animal, como promotores de crescimento antimicrobianos ou quimioterápicos (DANMAP 2001). Neste aspecto, a produção de aves e suínos sem dúvida destaca-se na grande utilização dos promotores artificiais de crescimento que, na sua maioria, nada mais são do que antibióticos, adicionados à ração desses animais, durante praticamente todo o ciclo produtivo.

Os OGM (organismos geneticamente modificados) aumentam substancialmente a preocupação com a segurança dos alimentos e, com certeza, não ocorrerá tão cedo um esclarecimento definitivo sobre essa questão.

Os avanços da avicultura industrial, obtidos na genética, nutrição e manejo, resultaram em animais para abate produzidos em períodos curtos de criação, mas em condições que trazem problemas ao bem-estar das aves. Em criações intensivas, ocorrem o aumento de reações de pânico, diminuição exagerada da locomoção e efeitos negativos em músculos, ossos e articulações de pernas e pés (Costa, 2003). Esses fatos geram críticas ao sistema intensivo de produção de frangos de corte. Existem muitos consumidores que manifestam uma demanda por sistemas de produção que assegurem a manutenção do bem-estar das aves.

O frango convencional apresenta no mercado brasileiro um baixo preço relativo, que foi fator determinante para o aumento do seu consumo nos últimos anos, substituindo outras carnes. Mas, essas aves, criadas confinadas em galpões fechados e com alta concentração por metro quadrado, estão sujeitas a diversos problemas, principalmente intestinais. Por isso, o uso contínuo de medicamentos como os promotores de crescimento antimicrobianos e os anticoccidianos são práticas rotineiras na prevenção de doenças e melhoria da produtividade, reduzindo a idade de abate (Garcia et al., 2002).

No caso da avicultura orgânica, em relação ao consumidor, o que se deseja são alimentos mais naturais e livres de produtos transgênicos, resíduos de antibióticos, dioxinas e outros, prejudiciais à sua saúde (Salles, 2003). No sistema agroecológico/orgânico de produção de aves busca-se produzir alimentos saudáveis, de elevado valor nutricional e isentos de contaminantes, preservando a biodiversidade em que se insere o sistema produtivo (Arenales, 2003).

Também é importante introduzir um novo conceito, ainda difícil de ser explicado sobre exemplos concretos, pois não atingimos o estágio de detectar aspectos tão sutis, que é a chamada energia espiritual ou força vital do alimento. Este conceito, proposto por Mokiti Okada (Japão, 1882 - 1955), filósofo e fundador da Agricultura Natural, está baseado numa doutrina espiritualista, segundo a qual, o homem é um ser dual formado por espírito e matéria. Para uma nutrição e bem-estar verdadeiros, ele necessita de alimentos puros, obtidos através de processos de produção que estejam de acordo com as leis da natureza. Portanto, esses alimentos carregam uma elevada energia vital, para suprir e manter a saúde do homem, tornando-o assim um ser capaz de construir uma sociedade sadia, justa e equilibrada (Demattê Filho e Mendes, 2001).

Diante de todas as questões citadas, os modelos de produção orgânica são uma alternativa absolutamente segura para a produção de alimentos que atendam as expectativas desse contingente crescente de consumidores.

A Regulamentação do Sistema Orgânico de Produção de Frangos
O frango orgânico é um produto produzido, processado, distribuído e comercializado respeitando as normas orgânicas e sob a verificação de um órgão independente. São muitas as certificadoras que atuam no Brasil, por exemplo: IBD, CMO, AAO, Skal Brasil, FVO, OIA Brasil, dentre outras.

No Brasil, entretanto, até o momento não ocorreu uma regulamentação oficial das normas de produção orgânica e as entidades certificadoras não são credenciadas no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, nem em outros órgãos oficiais nacionais. Não existe, portanto, uma lei que regulamente esses modelos de produção orgânica, nem uma fiscalização efetiva dos processos de produção das empresas. Isto acarreta uma série de dificuldades no reconhecimento e confiabilidade desses produtos no mercado, pois existem produtos com declaração "orgânico" no rótulo, sem o selo de qualquer certificadora orgânica. Na produção animal, isto é mais complicado, pois o DIPOA (Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Animal) do S.I.F. (Serviço de Inspeção Federal do Ministério da Agricultura), que é o orgão responsável pela aprovação dos rótulos dos produtos, não autoriza a colocação de selos de certificação orgânica, por não reconhecer oficialmente as normas de produção orgânica. A falta dessa padronização acarreta entendimentos diferentes por parte dos técnicos responsáveis pela aprovação dos rótulos nas diversas regiões do país.

Diante dessas dificuldades, duas associações foram fundadas em 2002, com o objetivo de contribuir para o desenvolvimento e a regulamentação do setor - a AVAL (Associação da Avicultura Alternativa) e a AECO (Associação do Agronegócio Certificado Orgânico). A primeira é uma entidade que tem orientado seus esforços visando a padronização de todo o processo produtivo - da fabricação da ração ao acompanhamento da produção e abate das aves. As normas da AVAL estabelecem critérios relativos à produção, abate, controle laboratorial e certificação de frangos criados sem o uso de antibióticos, anticoccidianos, promotores de crescimento e ingredientes de origem animal na ração. Entre esses critérios, há requisitos para a rotulagem do frango, restrições na preparação da ração, inspeção, rastreabilidade e outras considerações específicas. A AVAL apresentou sua norma aos técnicos do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento para análise.

A AECO vem desenvolvendo um excelente trabalho junto a diversas empresas, para regulamentar o setor orgânico em geral, com foco no momento para os itens de produtos vegetais como hortaliças e frutas.

As dificuldades apresentadas, somadas aos maiores custos de produção do frango orgânico, que à frente abordaremos com mais detalhes, devem ser consideradas por técnicos e empresários do setor ao avaliar a viabilidade dos empreendimentos.

Normas de Produção Orgânica
Abaixo transcrevemos um resumo das normas de produção de aves orgânicas da CMO - Certificadora Mokiti Okada, sediada em Rio Claro-SP e que atua sob os princípios da Agricultura Natural preconizada por Mokiti Okada. É importante frisar que estas normas fazem parte de um Manual de Certificação, portanto não devem ser interpretadas separadamente, estando aqui descritas apenas como uma referência.


Normas e Procedimentos para o Padrão de Qualidade Orgânico - Produção Animal (CMO, 2002)

Aves

1. Escolha e Aquisição dos Animais
1.1. É recomendável que os animais sejam oriundos de criações orgânicas, buscando a independência de sistemas convencionais;
1.2. No caso da impossibilidade de aquisição de animais provenientes de criações orgânicas, dar preferência a animais jovens conforme segue:
Para aves de corte: aquisição de pintos de 1 dia;
Para poedeiras: aquisição de frangos de no máximo 18 semanas;
Outras aves: aquisição de animais com idade máxima de 2 semanas.


2. Instalações e Manejo dos Animais
2.1. Oferecer à ave um ambiente higiênico e protegido, que não permita a entrada de predadores e que possa evitar extremos de temperatura e umidade. Assegurar o acesso individual das aves a ração e água. Oferecer um ambiente que permita à ave alcançar a performance ótima em termos de taxa de crescimento, uniformidade, eficiência alimentar e rendimento de carne, além de assegurar a saúde e o bem-estar da ave;
2.2. O piso do aviário poderá ser de terra batida ou cimentado;
2.3. Deverá ser garantido livre acesso das aves a água e alimentação;
2.4. É proibida a criação de aves de postura em sistema de gaiolas;
2.5. O manejo dos piquetes deverá ser feito de modo a manter a cobertura vegetal. É recomendado o uso de árvores ao redor dos galpões e nos piquetes com o intuito de promover sombreamento, melhorando o microclima local, cuidando-se para que as mesmas não impeçam a circulação de ar;
2.6. Para outras aves, as características das instalações serão em conformidade com as necessidades básicas de cada espécie;
2.7. O programa de luz é de uso restrito, podendo ser utilizado em condições especiais, e só deverá ser utilizado com aprovação prévia da Certificadora;
2.8. A prática de debicagem, o corte das asas e dedos das aves são proibidos no sistema orgânico de produção;
2.9. O material utilizado como cama dos aviários deve ser livre de substâncias tóxicas. Ex.: aparas de madeira que recebeu tratamento químico.


3. Manejo Sanitário
3.1. As vacinas obrigatórias por lei devem ser administradas;
3.2. Poderá ser adotado um programa de vacinação conforme necessidade de cada região, sob autorização da Certificadora;
3.3. É permitido o uso de terapias alternativas, como homeopatia, fitoterapia, florais, etc.;
3.4. É permitido o uso de anti-sépticos naturais (ex.: própolis);
3.5. O uso de medicamentos convencionais é de uso restrito e só será permitido para aves de postura em casos de comprometimento do lote, quando não houver possibilidade do uso de tratamentos alternativos, devendo ser comunicado e autorizado previamente por escrito pela Certificadora;
3.6. O tratamento com medicamentos de uso restrito para aves de postura só poderá ser realizado no máximo 2 (duas) vezes no mesmo ciclo de produção;
3.7. Os ovos das aves tratadas com medicamentos de uso restrito não poderão ser comercializados como produto orgânico, durante o período de carência residual do medicamento multiplicado pelo fator 2 (dois), podendo este período ser ampliado pela Certificadora;
3.8. Para frangos de corte não será permitido o uso de substâncias antimicrobianas como: antibióticos, quimioterápicos, quaternário de amônia, clorexidina, iodo povidonas, azul de metileno, sais de cobre, verde malaquita, violeta de genciana, etc., na água de bebida, na ração, na cama ou em pulverizações para fins de prevenção ou tratamento de enfermidades bacterianas, virais ou protozoárias, como por exemplo: coccidioses, aerossaculites, artrites, bronquites, etc. Em caso de comprometimento do lote, e sob autorização prévia por escrito e controle da Certificadora, poderá ser permitida a utilização de produtos de uso medicamentoso sem perda do credenciamento, porém o lote assim tratado não poderá ser comercializado como orgânico. Nestes casos é proibida a comercialização da cama de frango como produto orgânico;
3.9. O uso de ácidos orgânicos (acético, lático, fórmico, propiônico) e bicarbonato de sódio pode ser permitido sob controle e autorização prévia da Certificadora para fins profiláticos e terapêuticos.


4. Alimentação
4.1. As rações deverão ser balanceadas de acordo com as exigências nutricionais dos animais, utilizando-se ingredientes orgânicos e de boa qualidade;
4.2. Na impossibilidade de que o arraçoamento seja 100% orgânico será permitido o uso de 20% de ingredientes de origem não orgânica (esses 20% serão calculados com base na matéria seca);
4.3. A alimentação das aves deverá estar completamente livre de antibióticos, quimioterápicos, promotores de crescimento artificiais, agentes anticoccidianos, resíduos de abatedouro (farinha de sangue, farinha de penas, farinha de carne, farinha de ossos, farinha de carne e ossos, gorduras e óleos) e aminoácidos sintéticos;
4.4. Restos de verdura, legumes e frutas poderão ser fornecidos aos animais, desde que sejam oriundos de produção orgânica certificada, sendo proibido o uso de restos de restaurantes e de vegetais de produções convencionais;
4.5. O uso de premix mineral e vitamínico deverá estar sob controle da Certificadora. A formulação do premix, assim como a composição da ração deverão ser de conhecimento prévio da Certificadora;
4.6. É permitido o uso de prebióticos e probióticos e produtos de exclusão competitiva não OGM/transgênicos adicionados nas rações das aves ou fornecidos via água de bebida;
4.7. A água fornecida aos animais deverá ser de boa qualidade;
4.8. É proibido o uso de reservatórios de amianto, para a armazenagem de água;
4.9. Qualquer alteração dos ingredientes da ração deverá ser previamente comunicada à Certificadora.


5. Transporte e Abate dos Animais
5.1. A apanha, transporte e abate das aves deverão seguir condições humanitárias de modo a minimizar o stress das mesmas;
5.2. A apanha, carregamento, transporte e recepção das aves no abatedouro deverão ser realizados de forma a evitar traumas, contusões e injúrias às aves;
5.3. Durante o transporte deverão ser evitadas condições extremas de temperatura de modo a não ocasionar sofrimento aos animais;
5.4. É recomendável que a distância entre a granja e o local de abate não seja excessiva, assegurando que requisitos do processamento sejam atendidos e que sejam mantidos os padrões de bem-estar animal;
5.5. O período máximo entre a apanha e o abate das aves é de 10 horas;
5.6. O abate deve ser realizado em ambiente calmo e as aves devem ser atordoadas antes da sangria;
5.7. O abate deve seguir todas as exigências sanitárias vigentes, de acordo com o órgão de inspeção (federal, municipal ou estadual);
5.8. Durante o transporte e pré-abate dos animais deve haver uma pessoa responsável pelo bem-estar dos mesmos.


6. Da Conversão
Para plantéis de aves já instalados em sistemas convencional, o período de conversão será de 6 meses a partir da data da primeira inspeção, ou quando o manejo orgânico já estiver ocorrendo, desde o nascimento das aves.

Dentro dos princípios da Agricultura Natural, entende-se que os animais são o resultado e fruto da terra e, portanto, as ações devem ser dirigidas prioritariamente respeitando-se o solo como um organismo vivo, fazendo-o manifestar toda sua força vital, ou seja, toda sua capacidade produtiva. Entende-se portanto que um nível ótimo de sanidade dos animais depende de uma alimentação proveniente de um solo sadio, equilibrado e puro. Para tanto, as unidades de produção orgânica devem estar distantes de fontes poluidoras expressivas, sejam do ar, água ou solo, devendo-se adotar medidas para evitar a contaminação de ração, forragens, pastos e mananciais.

Devem ser dadas aos consumidores garantias de que os produtos foram produzidos em conformidade com as normas e isso deve ser feito com base na rastreabilidade dos produtos animais.

Outras certificadoras possuem normas próprias, que geralmente assemelham-se, entretanto, restrições maiores ou menores podem ocorrer. Algumas têm procurado adequar-se às normas européias, também para fins de exportação, porém as taxas de densidade e alojamento são sem dúvida um fator complicador para a viabilidade dos negócios.

O quadro 1 mostra as densidades de alojamento adotadas para aves segundo as diretrizes do IBD - Instituto Biodinâmico, baseadas nas normas da Comunidade Européia.

Quadro 1 - Confinamento de aves, Diretrizes para o padrão de qualidade orgânico IBD, 2002.
 

Área coberta 
(superfície líquida mínima disponível para os animais)

Área de pasto
(m2 de superfície disponível em rotação/cabeça)
(**)

Nº de animais por lote

Nº animais m2 cm de poleiro/animal Ninho
Galinhas poedeiras 6 animais / m2 18 cm de poleiro 8 galinhas por ninho
120 cm2/ave (em caso de ninho de uso comum)

4

2000
Aves de engorda (em alojamento fixo) 10 (com apenas um máximo de 21 kg de peso vivo/m2)
20 (apenas para pintos)
- - 4 por frango de engorda
4,5 por pato
10 por peru
15 por ganso
1000
Aves de engorda (em alojamento móvel) 16 (*), em galinheiros com um máximo de 30 kg de peso vivo/m2 - -

2,5

 
(*) Só no caso de alojamentos móveis com uma superfície não superior a 150m2 que permaneçam abertos durante a noite.
(**) O número de animais por área de pasto nunca deve depositar, em esterco, mais do que o limite de 170 kg de N/ha/ano.
 
Produção do Frango Orgânico
Um ponto a ser considerado é que os modelos de produção orgânica foram pensados e desenvolvidos inicialmente para o pequeno produtor e isso cria obviamente algumas dificuldades na concretização de projetos dessa natureza, não na produção, mas na viabilidade comercial. Esse fato é particularmente notório na avicultura, pois estamos em um país muito eficiente na produção de frangos. O Brasil é o segundo maior produtor mundial de frangos, apresentando um crescimento na produção de aproximadamente 54% nos últimos cinco anos, conforme mostrado no quadro 2.

Quadro 2 - Evolução da produção de carne de frango no Brasil de 1998 a 2002.

Evolução da produção de carne de frango 
segundo as entidades do setor avícola
1998 a 2002 - milhões de toneladas

Ano UBA APINCO

Variação Anual 

UBA APINCO
1998 4,853 4,853 8,79% 8,79%
1999 5,526 5,526 13,87% 13,87%
2000 5,977 5,980 8,16% 8,22%
2001 6,735 6,567 12,68% 9,82%
2002 7,516 7,449 11,60% 13,43%
Evolução Acumulada 54,87% 53,49%
Fontes: UBA e APINCO - Elaboração: Avisite

Nos últimos dez anos o consumo de carne de frango duplicou no Brasil, de um consumo per capita de 16,8 kg/hab/ano em 1992 para 33,81 kg/hab/ano em 2002 (Fontes: UBA, ABEF, 2002).

A indústria de aves brasileira desenvolveu nos últimos anos produtos novos, diversificando a oferta de produtos convenientes e de fácil preparo, agregando valor às matérias primas e buscando segmentos de mercados que valorizem e tenham maior poder de compra. A carne de frango é usada como ingrediente de um amplo leque de alimentos. Segundo Nunes (2002), a carne de frango possui vantagens como baixo preço, leveza de sabor e versatilidade como matéria prima, tornando-se excelente para a criação de processados em múltiplas alternativas de forma, textura e sabor.

A carne de frango é o quarto item na balança de exportação agropecuária sendo que em 2002, o Brasil exportou 1.599.923 ton, ou seja, ao redor de 20% da produção, gerando uma grande disponibilidade interna de 5.849.115 ton (Fonte: APINCO). O quadro 3 mostra a marcante competitividade do setor frente a outros países produtores.

Quadro 3 - Preços comparativos do frango exportado na semana de 06/12/2002.

Preços comparativos do frango exportado 
semana de 06/12/2002
US$ cents por libra FOB no porto de origem

Produto  USA  Brasil  Europa  China 
Peito 1,25 0,62 / 0,67 1,50 0,41
Frango Inteiro 0,48 0,27* 0,52 0,35
Coxa / sobrecoxa 0,16 0,23 0,30 0,32
Asa (80g) 0,43 0,28 0,30 0,63
Fonte: AJCI - Elaboração: Avisite
(*) carcaça tipificada

Há décadas a avicultura vem concentrando esforços em pesquisas nas áreas de genética, nutrição, sanidade e manejo. Os avanços obtidos tornaram a carne de aves uma das mais importantes fontes de proteína animal para o homem. Os altos volumes atingidos pela produção em larga escala colaboraram para a redução gradativa do preço do frango e para o acirramento da competitividade entre empresas produtoras. Pequenos e médios produtores enfrentam cada vez mais dificuldades para se manterem viáveis no modelo de produção industrial. Nesse cenário é que precisamos desenvolver e concretizar os objetivos de um frango orgânico, mas para isso temos que obrigatoriamente analisar os custos de produção.

Os avanços em genética e nutrição principalmente, produziram aves de alta performance cujas taxas de conversão alimentar são de 1,8 kg de ração para cada kg de frango vivo produzido, reduzindo seu ciclo para 40 a 45 dias em média. Sabemos que a ração responde por 65 a 70% do custo de produção do frango, consequentemente taxas de conversão piores implicam obrigatoriamente em custos maiores. Frangos de crescimento lento possuem índices de conversão ao redor de 2,7 a 3,2 ou mais, dependendo do programa nutricional, além disso, com a mesma dependência, seu ciclo alcançará de 85 a 110 dias pelo menos. A conversão alimentar impacta fortemente o custo e o ciclo longo influencia ainda mais negativamente uma questão vital para o sucesso dos empreendimentos, que é o fluxo de caixa do produtor, sabidamente um item já muito afetado na realidade agrícola do país. Outras questões ligadas a manejo, logística, escalas de transporte e abate vão aumentar ainda mais os custos.

A questão aqui é muito ampla e com grande variabilidade, o que dificulta uma análise de viabilidade mais objetiva. Reportando-nos às normas de produção de aves em sistema orgânico, temos basicamente três pontos cruciais a serem analisados:

1 - Pelo menos 80% da alimentação das aves, com base na matéria seca, tem que ser de origem orgânica certificada. A produção de grãos orgânicos ainda é destinada principalmente para a exportação, apresentando, preços que variam de 40 a 100% mais caros que os dos grãos convencionais.

2 - A proibição ao uso de aditivos alimentares sintéticos para fins de promoção de crescimento implica numa perda da eficiência alimentar de pelo menos 10 a 20%. As clostridioses e enterites inespecíficas terão que ser obrigatoriamente consideradas, porém, neste aspecto, as pesquisas têm sido intensas para o desenvolvimento de "promotores" naturais e os resultados têm sido cada vez melhores, anunciando boas soluções a curto e médio prazos.

3 - As normas não definem raças ou linhagens de aves para o sistema orgânico, entretanto, se as taxas de alojamento forem realmente aquelas anteriormente citadas, tornarão os processos viáveis apenas para linhagens rústicas de crescimento lento. Além do que já discutimos sobre isso, há que se considerar que os rendimentos de carcaça e de partes como o peito, principalmente, fará com que os abatedouros pensem muito se de fato desenvolverão um projeto dessa natureza.

É claro que todas estas questões não impedem definitivamente que frangos orgânicos existam no mercado, mas farão deles sempre uma exploração de nicho, ao invés de produtos para serem oferecidos ao consumo geral, expandindo a produção, o que seria altamente desejável pelos benefícios que trariam à sociedade e ao meio ambiente.

No quadro 4, estão comparados os custos estimados de três sistemas de criação de frangos: criação convencional (A), criação sem antibióticos, sem quimioterápicos e sem ingredientes de origem animal na ração (B) e criação orgânica (C). Os cálculos foram feitos para uma mesma linhagem de aves, com dados de janeiro/2003.

Quadro 4 - Comparativo de Custos de Produção de Frango de Corte (R$ por kg frango vivo)
Sistema de Criação Custo (R$ por kg) TOTAL (R$)
Custo ração Custo pintos 01 dia Custo integrado Outros custos
Convencional 0,551 0,188 0,108 0,069 0,917
Alternativo sem antibióticos, sem quimioterápicos e sem ingredientes de origem animal 0,954 0,201 0,127 0,113 1,395
Orgânico ( * ) 1,503 0,201 0,152 0,113 1,969
Observações :
1- Matéria-prima de origem orgânica em C deve corresponder no mínimo a 85% da formulação. O custo de ingredientes orgânicos (milho, soja, trigo, etc) é 70% superior aos dos ingredientes produzidos convencionalmente.

1.1 - Custos de formulação maiores em B e C, devido ao não uso de produtos de origem animal e conversão alimentar menos eficiente.

2 - Custos maiores devido à mortalidade mais elevada e peso médio menor em B e C.

3 - Tabela de remuneração mais flexível em B, devido a oscilações de resultados. Em C, remuneração 20% superior devido à maior exigência de mão-de-obra.

4 - Custos adicionais em B e C como vacinas, probióticos, menor volume de frangos por produtor, visitas técnicas e entregas de ração mais frequentes, etc.
( * ) Sistema orgânico de acordo com a Instrução Normativa nº 7, de 17/05/1999, do Ministério da Agricultura.

É pertinente ainda um esclarecimento devido à grande confusão que ocorre com relação aos tipos de carne de frango disponíveis, pois há que se considerar que um custo relevante será, sem dúvida, o de conscientizar e esclarecer os consumidores.

Farina e Fagá (2002), do PENSA - Programa de Estudos dos Negócios do Sistema Agroindustrial, estudaram a percepção dos consumidores de frangos alternativos, entrevistando 100 consumidores numa feira de produtos orgânicos em São Paulo. Dos entrevistados, apenas um terço respondeu corretamente que os frangos caipira e alternativo não eram orgânicos. Uma das maiores razões de consumo do frango caipira e do frango alternativo para os entrevistados foi a ausência de antibióticos e anabolizantes, considerando esses produtos mais saudáveis que o frango convencional. No entanto, os hormônios anabolizantes não são usados na produção de frango convencional. Assim, observou-se que os consumidores não tinham uma idéia muito exata do produto que estavam consumindo.

Abaixo descrevemos alguns sistemas de produção avícola encontrados no Brasil.

1. Sistema Industrial/Convencional - é o sistema utilizado em granjas de exploração comercial, de linhagens comerciais geneticamente selecionadas para alta taxa de crescimento e excelente eficiência alimentar, criados em sistemas intensivos segundo as normas sanitárias vigentes, sem restrições ao uso de antibióticos, anticoccidianos, promotores de crescimento, quimioterápicos e ingredientes de origem animal;

2. Sistema Caipira/Colonial - é o sistema de produção de aves de corte normatizado pelo ofício circular DOI/DIPOA nº 007/99 de 19/05/1999 pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, onde as aves são denominadas de frango caipira, frango colonial, frango tipo caipira, frango estilo caipira, frango tipo colonial ou frango estilo colonial. Apenas linhagens específicas de crescimento lento são permitidas. As aves devem ter acesso a área externa e não podem receber produtos quimioterápicos e ingredientes de origem animal na ração. A idade mínima de abate é de 85 dias.

3. Sistema Alternativo - é o sistema de produção de aves de corte de exploração intensiva ou não, sem restrição de linhagens, criados sem o uso de antibióticos, anticoccidianos, promotores de crescimento, quimioterápicos e ingredientes de origem animal na dieta. A isenção dessas substâncias será total; se houver necessidade de uso para fins terapêuticos o lote será comercializado como convencional, implicando em perda da qualidade própria do frango alternativo.

4. Sistema Orgânico/Agroecológico - é o sistema de produção de aves de corte normatizado pela Instrução Normativa nº 7, de maio de 1999 pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, onde se faz referência aos produtos obtidos pelo sistema orgânico, ecológico, biológico, biodinâmico, natural, sustentável, regenerativo e agroecológico.

Mercado Consumidor
As dimensões de mercado interno e externo para o frango orgânico são difíceis de se estimar. Encontramos pouca literatura a respeito. Mas, é um mercado que vem crescendo, tanto que nas grandes cidades do Brasil, aumentou o número de consumidores de produtos "orgânicos", "naturais" ou "saudáveis", certificados por alguma entidade independente ou não, neste caso simplesmente com a declaração de qualidade orgânica pelo produtor. O mercado de orgânicos é interessante e a médio prazo, são esperadas taxas de crescimento do mercado mundial entre 5% a 40%, dependendo do produto em questão (UNCTAD, 1999).

Sobre o consumo da carne de frango, houve um aumento, em nível mundial, devido a alterações nos hábitos alimentares, com a substituição das carnes vermelhas pelas carnes brancas, em virtude do seu baixo teor de gordura e pelo seu preço reduzido. A carne de frango atinge as expectativas e desejos de uma grande parcela da população mundial que está cada vez mais preocupada em consumir alimentos saudáveis e seguros (Bolis, 2002).

Bolis (2002) realizou pesquisa em 7 cidades brasileiras, através de entrevistas aplicadas por uma equipe a 1.000 consumidores, em dois a três supermercados escolhidos aleatoriamente em cada uma das cidades: Florianópolis (SC), Campo Grande (MS), Recife (PE), Curitiba (PR), Maringá (PR), São Paulo (SP) e Campinas (SP). O questionário continha 17 questões, relativas ao tipo de carne mais consumida, critérios de escolha de produtos cárneos, tipos de produtos orgânicos consumidos, nível de conhecimento quanto ao frango orgânico, opinião dos entrevistados sobre se pagariam mais caro pelo frango orgânico, situação econômica, grau de escolaridade e outros itens.
Para esses entrevistados, a carne de frango foi a segunda mais consumida (38,3% das pessoas), contra 47% que afirmaram consumir mais a carne bovina, 7,35% para a carne de peixe, 5,12% para a carne suína, 1,02% para a carne de peru, 0,34% para a de ovelha, enquanto 0,87% não consumiam carnes. Em Recife, a carne de frango foi a mais consumida por 71% das pessoas. Esses dados confirmam a importância do frango como alimento em nosso país. A maioria das pessoas (59%) consumia produtos orgânicos, distribuídos entre os tipos de produtos: verduras (40,63%), legumes (21,52%), frutas (19,29%), carnes (10,57%), açúcar (4,08%) e todas as categorias (3,89%).

Na mesma pesquisa, o fator preço mostrou-se o principal critério de escolha de produtos cárneos, participando em 49,9% das respostas, isolado (22%) ou associado a marca, qualidade, embalagem ou composição do produto. 55% dos entrevistados pagariam mais caro por um frango orgânico e desses, 32,24% pagariam 10% mais caro, 30,94% pagariam até 5% mais caro, 21,83% pagariam 20% mais caro, 12,37% pagariam 50% mais caro e apenas 2,62% pagariam mais de 50% acima do preço do frango convencional. Como o preço final do frango orgânico será mais elevado, essa informação deve ser levada em consideração para que esse produto seja economicamente viável.

A maioria dos entrevistados pertencia ao sexo feminino (60%), 69,98% tinham mais de 31 anos de idade, 41,37% possuíam 2o grau completo e 24,74% possuíam 3o grau completo. Quanto à situação econômica, 27,67% recebiam entre um e três salários mínimos, 26,78% recebiam entre 4 e 6 salários mínimos e 20,71% recebiam de 7 a 10 salários mínimos; apenas 13,56% disseram receber mais de 10 salários mínimos. Portanto, a decisão de pagar mais caro era devida não somente à maior disponibilidade de dinheiro, mas à consciência de adquirir um produto de maior qualidade, que atenda às expectativas.

Quanto ao grau de informação sobre o frango orgânico, 38% disseram que não saberiam conceituá-lo. Sobre os sistemas de produção, 66% sabiam que o frango convencional recebe antibióticos, mas apenas 19% responderam corretamente que o frango não recebe hormônios. Pelo desconhecimento das pessoas em relação ao frango orgânico, é necessário promover uma ampla conscientização dos consumidores quanto aos sistemas de produção.

Farina e Fagá (2002), no estudo citado, entrevistaram consumidores de frangos alternativos, sendo que a população em questão estava inserida na elite da sociedade, em termos de renda e escolaridade. 91% tinham renda mensal familiar acima de 10 salários mínimos (salário mínimo de R$180,00 na época) e 57% recebiam acima de 15 salários mínimos. 81% tinham grau superior completo, sendo que 21% eram pós-graduados. A frequência de consumo era significativa, porque 51% consumiam exclusivamente frango alternativo, 42% consumiam de vez em quando e apenas 7% consumiam raramente. 85% das pessoas consumiam frango alternativo há mais de dois anos e 60% consumiam tanto o caipira quanto o alternativo sem antibióticos.

Pelos resultados dessa pesquisa, constatou-se que os entrevistados valorizavam mais a marca e a presença de algum selo de qualidade, preocupando-se menos com preço. Estavam dispostos a pagar um prêmio de preço por um produto que acreditavam ser mais saudável. Não tinham fortes preferências entre o frango caipira e o frango alternativo sem antibióticos, o que desejavam era carne de frangos isenta de antibióticos e promotores de crescimento. Respeito ao meio ambiente e bem-estar animal eram menos importantes como razões de consumo.

No momento, nas grandes cidades do Brasil, não há nenhuma marca de frango orgânico à venda, por isso os estudos de mercado levam em consideração os frangos criados em sistemas alternativos ao sistema convencional.

Após vários anos de experiência, como empresa produtora e comercializadora de produtos hortifrutigranjeiros naturais, aprendemos que os consumidores dos nossos produtos não são motivados por "modismos", nem pertencentes apenas a classes abastadas, porque pessoas interessadas em melhorar sua saúde ou a de sua família encontram-se em todas as faixas de renda. Mas, devido aos preços de venda mais elevados, os frangos orgânicos certamente encontrarão seu mercado principalmente entre os consumidores de maior conscientização, nível educacional mais elevado e de maior renda. Este fator de preço mais elevado é um limitante à expansão do mercado do frango orgânico.

Garcia et al (2002) estudaram as perspectivas de mercado do frango alternativo em cidades do interior do Estado de S. Paulo e concluíram que há fortes indicações apontando para desinformação dos potenciais consumidores sobre o produto como o fator limitante mais importante à expansão do mercado, pois existe uma parcela de consumidores dispostos a pagar um preço mais elevado por um produto diferenciado. Em setembro de 2002, em três lojas de Limeira/SP, os preços do frango inteiro sem antibióticos era de 150% a 280% em relação ao preço do frango convencional, enquanto os preços encontrados para frango caipira eram de 145% a 280% comparados ao preço do frango convencional. Segundo os autores, o fator preço passará a ser o principal limitante depois que estiver sendo atendida a parcela de consumidores com poder aquisitivo para a compra.

Uma pesquisa realizada no Distrito Federal, citada por Valle (2003), mostrou que o mercado de frangos diferenciados (orgânico, caipira/alternativo) é de aproximadamente 3% em relação ao do frango convencional e os consumidores estão dispostos a pagar um prêmio pelo produto diferenciado, pois o preço variava de R$5,00 a R$7,00/kg. Segundo esse autor, existem problemas na comercialização, pois o mercado ainda não é organizado e o consumidor não sabe direito o que é produto orgânico. Também, o custo de produção é alto e o produto final torna-se muito caro. Outro problema citado é que não existem insumos orgânicos suficientes para a produção do frango orgânico.

As empresas produtoras de carne de frangos de sistemas alternativo e orgânico terão maior possibilidade de viabilizar seu trabalho e conquista de mercado à medida que conheçam melhor a atitude e expectativas do consumidor em relação aos produtos e a importância dos atributos da qualidade oferecidos e comunicados ao consumidor.

O Mercado de Frangos Diferenciados na França
A segmentação do mercado de aves que ocorreu na França mostra o que pode ocorrer no mercado brasileiro nos próximos anos.

As características do mercado de aves mudaram consideravelmente desde os anos 60, quando a maioria da produção era composta de frango "standard", vendido ao preço mais baixo possível. A evolução da demanda dos consumidores, associada ao surgimento de diferenciais oficiais de qualidade (produtos certificados, produtos biológicos, qualidade superior-label, origem regional controlada) permitiu uma segmentação em torno de três eixos principais (Bastianelli, 2001):
- percentagem crescente de produto "de qualidade", mais de 20% do mercado atualmente;
- diversificação das espécies criadas, somente 50% das aves são Gallus e o restante divide-se entre perus, patos, galinhas d'Angola, gansos, codornas e outros;
- diversificação da apresentação, ampliando o mercado de recortes e pratos prontos.

O quadro 5 mostra a evolução do mercado francês, com a redução da demanda por frango inteiro e o aumento da procura por cortes e produtos elaborados. O frango de qualidade (label, certificado e biológico), principalmente como frango inteiro, tem sua demanda aumentada.

Quadro 5 - Evolução do mercado francês do frango (ITAVI, 1999, citado por Bastianelli, 2001)
(% dos volumes) 1985 1999 2005 (*)
Frango inteiro 90% 52% 38%
Standard 89 40 21
Certificado 3 8 21
Label 8 50 45
Biológico ~0 2 13
 
Corte 10% 33% 37%
Standard - 85 67
Certificado - 9 17
Label - 6 11
Biológico - ~0 5
 
Produtos elaborados ~0 15% 25%
(*) previsão

Geralmente os preços seguem uma hierarquia (standard < certificado < label < biológico), mas existe grande variabilidade em função de marca, normas de produção, label e região, por exemplo.

 

Conclusão
O sistema de produção orgânica introduz benefícios óbvios, entretanto é preciso ter como objetivo um equilíbrio que dê viabilidade ao negócio de produção de frangos orgânicos, no sentido de cuidar para não caminhar em sentido oposto àquele existente atualmente e que torna viável e altamente eficiente toda uma cadeia agroalimentar da avicultura. O que precisamos é aproveitar as vantagens tecnológicas desenvolvidas e agregar os valores de uma produção de alimentos saudáveis e ecológicos, valores aqui entendidos em sentido amplo, ou seja, nos aspectos: ambiental, social, segurança dos alimentos, bem-estar animal, transparência do processo produtivo, rastreabilidade, etc.

Além disso, há uma questão fundamental a ser considerada. Países da Europa, principalmente, vêm sistematicamente abolindo o uso de antibióticos e quimioterápicos como promotores de crescimento nas criações animais, de forma que uma das maiores motivações para o consumo de alimentos orgânicos, que é a ausência de resíduos de substâncias químicas, em alguns anos será uma realidade também na avicultura industrial do Brasil. No futuro, os produtos com esse apelo de ausência de resíduos não serão mais produtos diferenciados.

Restará ainda o apelo da preservação ambiental, mais presente na mente das pessoas do que as questões sociais, porém a avicultura não é uma atividade que impacta o meio ambiente de forma direta, a não ser pela emissão de gases como a amônia nos aviários, área em que as pesquisas com microrganismos benéficos na compostagem de matéria orgânica mostram-se promissoras para solucionar esse problema. A avicultura consome uma quantidade enorme de grãos para alimentação das aves, de forma que, mantendo-se a tendência atual de usar ingredientes de origem orgânica certificada (talvez inicialmente menos que 80% para viabilizar a produção das aves orgânicas), será ampliada a demanda de milho, soja, trigo e outros ingredientes cultivados de forma ecológica, incentivando os produtores a realizar essa produção de grãos também para consumo interno.

A produção de frangos orgânicos é uma possibilidade que deve ser ao mesmo tempo lucrativa para os produtores e comercializadores, e vantajosa para os consumidores. Segundo Mokiti Okada, a Agricultura Natural deve beneficiar tanto os produtores, com prosperidade e cumprimento das leis da natureza, como os consumidores, com saúde e vitalidade. Os diversos modelos de produção alternativa e orgânica devem ser experimentados e incentivados, com certificação da qualidade, mas sem restrições desnecessárias, para que as adaptações geográficas, sociais, econômicas e tecnológicas possam ser praticadas e valorizadas por uma sociedade mais equilibrada, mais justa e mais sadia. Nosso objetivo é o de contribuir para a discussão e a prática de tecnologias mais apropriadas de produção animal.

Literatura Citada
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BASTIANELLI, 2001

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