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Tóxicos/Intoxicações

Intoxicação por chumbo inorgânico

19/04/2005

INTOXICAÇÃO POR CHUMBO INORGÂNICO:

 

UM ESTUDO EM TRABALHADORES DE MARINGÁ (PR)

 

 

TOLEDO, Elissa Peron

1

; ALMEIDA, Daniele

1

; OLIVEIRA, Magda Lúcia Félix

2

; SILVA,

Adaelson Alves

3

.

1

Curso de graduação em Enfermagem e Centro de Controle de Intoxicações, Universidade

Estadual de Maringá.

2

Departamento de Enfermagem e Centro de Controle de Intoxicações do Hospital Universitário

Regional de Maringá. Universidade Estadual de Maringá.

3

Centro de Controle de Intoxicações, Hospital Universitário Regional de Maringá. Universidade

Estadual de Maringá.

RESUMO: Este trabalho propõe-se à descrever o perfil dos trabalhadores do Ambulatório de

Saúde do Trabalhador (AST) do Centro de Controle de Intoxicações do Hospital Universitário

Regional de Maringá, intoxicados ocupacionalmente por chumbo inorgânico, com plumbemia

acima de 50 ug/dl. As informações foram coletadas do prontuário de 10 trabalhadores. O perfil

destes trabalhadores ficou assim definido: 100% de indivíduos do sexo masculino, na faixa

economicamente ativa, com predominância de baixa escolaridade e atividade profissional

relacionada à montagem e processamento de baterias. Os sinais ou sintomas de saturnismo não

de saturnismo não foram associados às diferentes categorias de plumbemia.

 

PALAVRAS-CHAVE: saúde do trabalhador, intoxicação por chumbo, plumbemia.

 

INTRODUÇÃO

Um conjunto relevante de doenças, lesões e mortes se origina no ambiente e das

condições de trabalho. A tendência das taxas de mortalidade por acidentes de trabalho registra

apenas parte da gravidade do problema que afeta os trabalhadores brasileiros (SAMPAIO et al.,

2001).

As doenças profissionais são consideradas uma das formas de violência às quais é

submetido o trabalhador brasileiro. Entre os agentes ambientais de agravo no trabalho

encontram-se as substancias químicas, que, quando entram em contato com o organismo,

provocam desequilíbrio orgânico (SILVA et al, 1999).

Considerando o acelerado crescimento do uso de produtos químicos (domésticos, aditivos alimentares, solventes, diluentes, inseticidas etc.), nenhum tipo de ocupação está

inteiramente livre da exposição sobre os sistemas biológicos (SILVA, et al 1999).

Analisando especificamente o chumbo, o seu uso industrial é vasto porém a

produção de baterias (acumuladores) representa o segmento industrial responsável pelo maior

consumo destas substâncias nos países em desenvolvimento. Em razão de suas propriedades

tóxicas e das condições de trabalho existentes em diversas indústrias, os trabalhadores deste setor

encontram-se freqüentemente expostos e elevadas concentrações do chumbo, e,

conseqüentemente, à intoxicação. (JACOB et al., 2002).

A absorção do chumbo pelo homem ocorre, principalmente pela via respiratória

(30% a 50%) e pelas vias digestiva e cutânea (10%). Após ser absorvido, o metal e distribuído

pelo organismo a outros órgãos de forma lenta e cumulativa, sendo que a fração não difusível

associa-se aos eritrócitos (CRUZ et al., 2001). Essa absorção depende de vários fatores como a

forma física e química em que se encontra o metal, da concentração, assim como da idade, do

estado geral e da atividade metabólica do indivíduo.

A intoxicação produzida pelo, chumbo, referenciada desde a idade antiga (Papiro

de Ebers, 1.500 AC), é hoje estabelecida e conhecida pela denominação de “saturnismo”. Tal

patologia inclui uma série de sinais e sintomas característicos, com destaque para os

gastrintestinais (anorexia, cólicas abdominais), renais (tríade de Fanconi: aminoacidúria,

hiperfosfatúria, glicosúria e nefropatia crônica), neuromusculares (fraqueza, fadiga, paralisias),

hemapoiéticos (anemia normocítica e hipocrômica) e no sistema nervoso central (encefalopatia

hipertensiva) (LAES&HAES, 1999).

Níveis mais altos de contaminação por chumbo são encontrados em populações

residentes em regiões industrializadas, ao contrário dos níveis de plumbemia que são observados

na região de pouca industrialização sendo os trabalhadores de indústrias que manipulam chumbo

as pessoas mais expostas (SAMPAIO et al., 2001).

Diante dessas considerações, o objetivo do presente estudo foi caracterizar os

trabalhadores com taxas de plumbemia acima de 50 ug/dl, atendidos em um ambulatório de

saúde do trabalhador, no ano de 2003.

 

 

 

 

 

 

 

MATERIAL E MÉTODO

 

 

 

 

O estudo foi realizado no Ambulatório de Saúde do Trabalhador do Centro de

Controle de Intoxicações de Maringá, que atende trabalhadores expostos ocupacionalmente a

agentes tóxicos. A população em estudo foi constituída de dez trabalhadores, expostos

ocupacionalmente ao chumbo inorgânico, com níveis de chumbo detectados no sangue acima de

50ug/dl.

O Ambulatório de Saúde do Trabalhador (AST) foi criado em 1993, no Hospital

Universitário Regional de Maringá (HUM). Oferece avaliação clínico–laboratorial à

trabalhadores que tenham a história de exposição (aguda ou crônica) a agentes tóxicos. As

avaliações são realizadas em dias úteis, no período da manhã, segundo calendário prévio de

atendimento. Os agendamentos podem ser realizados pessoalmente ou por via telefônica, pelo

próprio trabalhador ou pela empresa em que este atua, com estagiários do Centro Controle de

Intoxicações (CCI). A partir da primeira consulta do trabalhador é feito o reagendamento

periódico para realização de exames laboratoriais padronizados e acompanhamento clinico,

segundo normas do Ministério da Saúde.

As fontes de dados foram os prontuários de cada trabalhador e formulário para

coleta de dados elaborado pela equipe de pesquisa. No prontuário consta a história clinica social

e ocupacional do trabalhador desde o primeiro atendimento, com as seguintes dados: (1)

identificação; (2) história ocupacional (situação atual, antecedentes profissionais, fatores

relacionados ao trabalho, segurança no trabalho); e (3) anamnese médica (queixa principal,

história da moléstia atual, história das moléstias progressas, história familiar, costumes, hábitos e

vícios, revisão de diversos aparelhos). Nos comparecimentos posteriores ao AST é preenchida

uma ficha de evolução clínica individual, anexada ao prontuário. Cópias de resultados de exames

laboratoriais realizados são, da mesma forma, anexadas ao prontuário.

Foi elaborado um formulário de coleta de dados dos prontuários para compilação

das seguintes variáveis: sexo, idade, escolaridade, procedência, data do cadastro no AST,

empresa atual e função, situação atual, queixas e o resultado do último exame de chumbo. Em

um segundo formulário, de características mais qualitativas, coletou-se os dados dos

trabalhadores com diagnóstico de saturnismo: data dos comparecimentos no AST, com os

respectivos resultados de dosagem de chumbo, queixas, condutas médicas e situação

ocupacional.

 

 

RESULTADOS

No ano de 2003 foram cadastrados 82 trabalhadores no AST, sendo que destes, 32

se expunham ocupacionalmente ao chumbo inorgânico (38,5%). Dos 32 trabalhadores, 10

representavam níveis de plumbemia acima de 50 ug/dl (31,2%).

Dentre os exames laboratorias para o diagnóstico de saturnismo foi solicitado a

avaliação de plumbemia (Pb-s). As amostras sanguíneas para a realização da avaliação

toxicológica foram feitas estando o trabalhador em jejum, sem contato prévio com o local de

trabalho por aproximadamente 10 horas, nos horários entre 7h30 minutos e 8h30 minutos.

(SAMPAIO et al., 2001)

A determinação do Pbs, foi feita por espectrofotometria de absorção atômica por

intermédio da técnica descrita por Hessel (1968), utilizando-se espectrofotômetro de absorção

atômica IORUS Varian, com leitura em comprimento de onda de 283,3 mm (SAMPAIO et al.

2001).

A concentração sanguínea de chumbo (Pbs ou plumbemia) é o indicador biológico

mais importante na avaliação da intoxicação profissional pelo chumbo. No Brasil, para guiar e

uniformizar as condutas no serviço de saúde, o Ministério do Trabalhado regulamentou os

limites de tolerância biológica para plumbemia, através do anexo da Norma Regulamentadora

n.7, que foi complementada pela portaria n.24 da Segretaria de Segurança e Saúde do Trabalho –

SSST, de 29 de dezembro de 1994, em seu artigo 74. Estes documentos estabeleceram valores de

referência de normalidade (VR) em 40 ug/dl e o índice biológico máximo permitido (IBMP) em

60 ug/dl (SILVA, et al., 1999).

Nos 10 prontuários analisados, identificou-se que todos os trabalhadores eram do

sexo masculino, com idade compreendida entre 23 à 48 anos, com média de 36,4 anos e

predominância da faixa etária de 40 e 50 anos (4 trabalhadores). Resultados similares foram

encontrados por Cruz et al. (2001).

Quanto a escolaridade, 8 trabalhadores estudaram até a 8ª série do ensino

fundamental; destes, 6 possuíam o ensino fundamental incompleto e 2 o ensino fundamental

completo. Os dados encontrados são superiores ao estudo realizado por SAMPAIO et al que

estudou 120 prontuários de trabalhadores atendidos no AST, sem diferenciação do nível de

Plumbemia. Pode se então inferir que trabalhadores que se expõe à um risco maior de

intoxicação possuem menor nível de escolaridade.

A maioria dos trabalhadores trabalhavam em empresas localizadas na cidade de

Maringá (7 trabalhadores), provavelmente pela facilidade de acesso ao AST ou pelo maior

número de empresas de processamento de baterias no município de Maringá.

Em relação as atividades profissionais identificou-se que 6 dos trabalhadores

possuíam a função de montador de baterias, 2 de eletricista e um trabalhava com assistência

técnica. A montagem de baterias requer uma manipulação direta de peças e substâncias químicas

ricas em metais pesados, aumentando, assim, o risco de intoxicação por chumbo nestes

trabalhadores.

Quanto a situação ocupacional atual a maioria encontrava-se em atividade (7

trabalhadores). Dois trabalhadores estavam afastados do trabalho, com benefício do INSS

Quanto às queixas clínicas, 7 trabalhadores não apresentaram nenhum sintoma e

apenas 3 deles apresentavam sintomas como: falta de ar, cansaço, algias em membros inferiores

e abdominal, cefaléia, entre outros.

Uma peculariedade da intoxicação por chumbo é que, apesar de ocasionar

seqüelas graves, principalmente renais e neurológicas, seu inicio e assintomático, podendo

evoluir dessa forma por vários anos (BUMBIERIS et al., 2003).

Chamou a atenção, no entanto, que os sintomas não estavam associados com os

diferentes níveis de plumbemia, pois 2 trabalhadores com Pbs acima de 80 ug/dl não

apresentavam queixas clínicas e os trabalhadores afastados temporariamente do trabalho não

deixavam, necessariamente, de apresentar sinais e sintomas após o afastamento do trabalho.

Dos 10 trabalhadores, 9 apresentavam valor de Pbs acima da normalidade na

primeira avaliação clinica. Para a maioria, foi dada a conduta de afastamento temporário do

atividade, porém, no momento da coleta de dados, 7 trabalhadores ainda trabalhavam

diretamente com a manipulação de baterias.

 

CONCLUSÃO

A análise dos dados permite concluir um perfil preliminar dos trabalhadores com

diagnóstico de saturnismo atendidos no AST de Maringá: 100% do sexo masculino,

predominância da faixa etária de 40 a 50 anos (40%), com escolaridade média até a oitava série

do ensino fundamental. Em relação às queixas clínicas, 70% não apresentavam nenhuma,

embora o Pbs já estivesse elevado na primeira avaliação laboratorial.

Embora os dados apresentados possam não representar o universo dos trabalhadores,

pela modalidade de agendamento, considera-se que possam ser extrapolados para grupos

similares de trabalhadores.

 

REFERÊNCIAS

SAMPAIO, E. :DONADIO, P. R.; OLIVEIRA, M. L. F. Perfil dos pacientes expostos a

intoxicação ocupacional por chumbo avaliados pelo Ambulatório de Saúde do Trabalhador de

Maringá-PR Revista de Ciências da Saúde, (1)1, p 57-66, 2001

SILVA, A A; ALEIXO; ALEIXO, E.C.S. Condutas básicas de atendimento à indivíduos

suspeitos de intoxicação/intoxicados por chumbo inorgânico (rotina do Ambulatório de Saúde do

Trabalhador. Maringá: HUM/CCI, 1999.

JACOB, L.C.B.; ALVARENGA, K.F.; MORATA, T.C. Os efeitos da exposição ocupacional ao

chumbo sobre o sistema auditivo: uma revisão da literatura. Revista Brasileira de

Otorrinoralingologia, (68)4, jul/ago. 2002

CRUZ, M.G.J.; FERREIRA, M.R.; SILVA, A . A .; OLIVEIRA M.L.F. Controle clnico

laboratorial periódico de trabalhadores: abandono do atendimento e risco ocupacional. Maringá:

CCI/HUM, 2001.

LAES, P.& HAES, M.; Exposição ocupacional ao chumbo. Micwel Editores Incorporados

LTDA, p. 40-45, 1999.

BUMBIERIS, I.E.; TOLEDO, E.P.; OLIVEIRA, M.L.F. Repercussão de intoxicação por

chumbo inorgânico em família de um trabalhador, Maringá-PR, 2003. Revista Ciência e Saúde,

(2) Supl,: 145-147, 2003.

 

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