-
Esta página já teve 132.449.424 acessos - desde 16 maio de 2003. Média de 24.706 acessos diários
home | entre em contato
 

Biotecnologia/Tecnologia/Ciências

Brasil quer fornecer álcool combustível ao mundo

17/06/2005

 

Petróleo caro e carro flexível tornam país Arábia Saudita do etanol

Dan Chapman escreve de Ribeirão Preto, Brasil, para "Cox Newspapers":

O "ouro verde", ou café, construiu esta cidade no século 19. O "ouro negro", ou petróleo, promete grandes riquezas no século 21 embora não haja um só poço petrolífero em um raio de centenas de quilômetros.

Mas há milhões de hectares de cana-de-açúcar, que podem ser transformados em álcool (etanol), fonte de energia barata, abundante e cada vez mais popular, especialmente no momento em que o preço do barril de petróleo chega aos US$ 53, tendo tudo para aumentar ainda mais.

O Brasil, o maior produtor mundial de açúcar, adotou o álcool como a energia do futuro. O preço desse combustível alternativo é aproximadamente a metade do preço da gasolina.

O governo brasileiro exige que a gasolina seja misturada com pelo menos 25% de álcool. E os chamados veículos flex-fuel carros movidos a gasolina, álcool ou ambos os combustíveis respondem por quase 30% dos carros fabricados no país neste ano.

Japoneses, chineses, alemães e australianos lotam os hotéis, as cervejarias e as usinas de cana-de-açúcar de Ribeirão Preto para aprenderem mais sobre o elixir dourado.

Dependentes do petróleo do Oriente Médio, e ansiosos para despoluir o seu ar, eles prometem investir US$ 3 bilhões para expandir a produção brasileira de etanol.

O Brasil se gaba de ser a Arábia Saudita do etanol. "Eu não quero vender litros de etanol", diz o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues. "O que quero é vender rios de etanol".

Somente uma pequena fração do álcool brasileiro flui para os EUA. Barreiras comerciais, carência de infraestrutura relativa a esse combustível, a oposição por parte da indústria petrolífera norte-americana e uma preferência por veículos esportivos utilitários bebedores de gasolina fazem com que o consumo de álcool nos EUA permaneça em níveis ínfimos.

A gasolina misturada com álcool não está disponível no Estado da Geórgia [sul dos EUA] para o uso popular, apesar da insistência do governo federal no outono passado em que a área metropolitana de Atlanta [capital estadual] reduzisse a poluição atmosférica.

Mesmo assim a produção de álcool norte-americano, derivada em sua maioria no milho cultivado no coração do país, deve atingir níveis recordes neste ano.

O poder político do meio-oeste e os preços do petróleo do Oriente Médio foram fatores que, conjugados, pressionaram Washington para que o país incrementasse a produção de álcool.

Monte Shaw, um defensor do etanol, vê com uma certa inveja a emergência do Brasil como o rei desse combustível.

"Eles nitidamente assumiram um grande compromisso em relação ao álcool", afirma Shaw, porta-voz da Associação de Combustíveis Renováveis, em Washington.

"A exigência governamental de que cada litro de gasolina contenha 25% de etanol consiste em um motivador muito grande para o mercado. E agora eles possuem automóveis flex-fuel, algo que faz bastante sentido. Não vejo como alguém vá querer comprar outro tipo de carro".

A história, a geografia e a globalização conspiraram para fazer de Ribeirão Preto a Riad do Brasil.

No século 19, imigrantes europeus, em sua maioria italianos, que moravam no litoral sul, descobriram que o clima ensolarado e o solo fértil do interior eram perfeitos para o cultivo de café.

A cafeicultura acompanhou a chegada da Companhia Mogiana de Estradas de Ferro, em 1883.

O preço do café desabou na década de 30. Os fazendeiros trocaram o café pela cana-de-açúcar, embora o suco de laranja, o algodão, a pecuária e a soja suplementem o próspero setor de agronegócios da região.

A crise do petróleo da década de 70 fez com que Ribeirão Preto se destacasse no mapa.

Sem disposição e financeiramente incapazes de importar petróleo pelos altos preços estabelecidos pelo cartel da Opep, os dirigentes militares do Brasil ofereceram subsídios e isenção de impostos aos usineiros para que estes transformassem a cana em etanol.

Eles financiaram estradas, destilarias e postos de combustíveis compatíveis com o etanol. E ordenaram aos fabricantes de veículos que fizessem carros movidos a etanol.

Em meados dos anos 80, três entre cada quatro carros vendidos eram movidos exclusivamente a álcool.

No entanto, no final daquela década, o preço do petróleo caiu, o do açúcar aumentou (a exportação deste produto passou a ser mais lucrativa do que a produção de etanol) e o governo reduziu os subsídios.

Motoristas furiosos, incapazes de encontrar álcool nos postos, voltaram a usar os carros movidos a gasolina.

"O programa de álcool passou a enfrentar um problema de imagem perante o consumidor", diz William Burnquist, cientista do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) que trabalha no Centro de Pesquisa de Tecnologia de Cana-de-Açúcar, próximo a Ribeirão Preto.

"Mas a tecnologia que mais mudou tal imagem foi a do carro flex-fuel", afirma Burnquist. "Ele funciona sem problemas com álcool e gasolina. Ninguém jamais vai ficar fora da estrada como ocorreu na década de 80".

Dois anos atrás, a Volkswagen, a General Motors e a Fiat começaram a oferecer carros movidos a gasolina ou a álcool, ou a uma mistura dos dois combustíveis. Os brasileiros compraram 330 mil carros flex-fuel no ano passado.

Segundo as montadoras de veículos, no ano que vem os carros híbridos responderão por 60% das vendas.

"Eu compraria um carro híbrido porque o preço do álcool é a metade do da gasolina", afirma Vinícius Simões Mariano, um motorista de táxi de SP. "Toda montadora de veículos está lançando um carro híbrido. Os brasileiros estão realmente animados com relação a esses carros".

Brasileiros no Estado de SP, juntamente com fazendeiros em Goiás e no Mato Grosso, cultivam seis milhões de hectares de cana-de-açúcar.

Mais dois milhões de hectares serão necessários até 2010, afirma Burnquist, a fim de satisfazer a demanda doméstica e internacional por açúcar e álcool.

Gigantes estrangeiros dos agronegócios, como a Cargill, com sede em Minnesota, devem injetar mais bilhões de dólares na indústria açucareira do Brasil e ajudar a construir pelo menos 45 novas usinas, segundo a Federação de Cana-de-Açúcar de SP.

Os usineiros domésticos também estão investindo alto para aumentar a produção e modernizar destilarias, terminais e portos.

Em 1974, o petróleo importado representava 80% do consumo brasileiro de energia. Após o aumento da produção doméstica de petróleo e álcool, o Brasil espera ser auto-suficiente em combustíveis até o final de 2006, segundo a companhia estatal Petrobras.

Segundo Rodrigues e outras autoridades governamentais, este é o momento do Brasil fornecer combustível ao mundo.

Investidores franceses e japoneses do setor açucareiro se sentem em casa em Ribeirão Preto (com uma população de 550 mil habitantes), uma das cidades brasileiras mais ricas. Apelidada de "a Califórnia brasileira" devido a uma mistura de clima, indústria e riqueza, a cidade possui 72 prédios altos e o excelente Teatro Pedro 2º.

Estimuladas pelos preços ascendentes do petróleo e pelo Protocolo de Kyoto (que exige que a maioria dos países reduza a emissão de gases causadores do efeito estufa), nações européias, asiáticas e latino-americanas diversificam as suas fontes de energia.

Vários países, inclusive os EUA, adotaram combustíveis renováveis e misturam álcool à gasolina.

As exportações brasileiras de álcool quadruplicaram no ano passado, chegando a um recorde de US$ 500 milhões, tendo os EUA e o Japão como os principais mercados.

As autoridades brasileiras também visualizam um grande mercado exportador para os veículos flex-fuel e recentemente examinaram carros que consomem combustível de forma eficiente na China, na Índia, na Tailândia e na Austrália.

Mas o Japão e outros países continuam cautelosos quanto à dependência excessiva em um único fornecedor de álcool. Burnquist, portanto, encoraja os EUA, um concorrente, a incrementar a sua produção de álcool.

Mesmo assim, a cana-de-açúcar é tão barata e abundante que o Brasil é capaz de exportar etanol para os EUA, apesar da tarifa sobre as importações de US$ 0,14 por litro, e obter lucro.

Os EUA produzirão 15,14 bilhões de litros de etanol neste ano o dobro do que produziram em 2000, e quase tanto quanto o Brasil , segundo a Associação de Combustíveis Renováveis.

Desde 2000 foram investidos US$ 3 bilhões em infraestrutura, especialmente no meio-oeste.

No entanto, o etanol continua sendo uma fonte de energia relativamente pouco importante nos EUA. Segundo a lei, um galão de gasolina pode conter até 10% de álcool.

Alguns Estados, como Minnesota, atingem esse limite. Porém, de forma geral, o etanol responde por apenas 3% do combustível vendido no país.

Na Geórgia, a gasolina não contém etanol, ainda que a Agência de Proteção Ambiental dos EUA tenha ordenado uma mistura de 10% no ano passado para reduzir a poluição atmosférica na área metropolitana de Atlanta.

O Estado processou a agência, alegando que a chamada gasolina reformulada usada em doze Estados que enfrentam problemas de poluição atmosférica pioraria a qualidade do ar de Atlanta e faria com que os motoristas pagassem um centavo de dólar a mais por litro.

O 11º Tribunal Federal de Apelações está avaliando o processo.

(Cox Newspapers, Uol.com/Mídia Global, 11/6)

Jornal da Ciência- SBPC


IMPORTANTE

  •  Procure o seu médico para diagnosticar doenças, indicar tratamentos e receitar remédios. 
  • As informações disponíveis no site da Dra. Shirley de Campos possuem apenas caráter educativo.
Publicado por: Dra. Shirley de Campos
versão para impressão

Desenvolvido por: Idelco Ltda.
© Copyright 2003 Dra. Shirley de Campos