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Biotecnologia/Tecnologia/Ciências

Medicina tradicional ainda tem pouco espaço nas políticas de saúde indígena

18/06/2005

 


Os conhecimentos médicos que os povos indígenas possuem têm despertado interesses no mundo inteiro. Nunca se pesquisou tanto sobre os usos que esses povos fazem da biodiversidade em suas práticas médicas. Recentemente, a Fundação Nacional de Saúde (Funasa) anunciou que parte dos U$50 milhões para os próximos 4 anos da verba do Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento (Bird) será voltada ao financiamento de projetos em medicina tradicional indígena. Embora já existam algumas iniciativas, de criar projetos e destinar recursos, os conhecimentos tradicionais ainda têm pouco espaço nas políticas de saúde voltadas às próprias comunidades indígenas.

Renato Athias, antropólogo da Universidade Federal de Pernambuco participa de reuniões com profissionais de saúde e representantes das comunidades indígenas no Alto Rio Negro e constatou que "o diálogo entre a medicina ocidental e a medicina tradicional ainda é raro. O saber médico ocidental ainda se apresenta como um saber técnico, superior às outras formas de saber e que, geralmente, não está instrumentalizado para perceber as diferenças em relação a outros saberes".

Há um esforço concentrado de alguns pesquisadores brasileiros em mostrar que as relações entre os dados biomédicos e as representações de doenças feitas pelas comunidades indígenas não é arbitrária, mas funda-se na observação exaustiva dos traços distintivos das doenças. Xamãs, curandeiras, pajés e benzedeiras elaboram um conhecimento classificatório e distinguem as enfermidades a partir de todo seu universo e entendimento. Dessa forma, os povos indígenas criam suas formas próprias de identificar, classificar e curar as doenças, ou seja, fazem uma verdadeira análise etiológica das doenças. Para Athias "o profissional médico precisa estar aberto a entender essas outras formas classificatórias da doença, outras etiologias, outros sistemas médicos. Mas isso passa pela valorização dos saberes que envolvem essas práticas e o reconhecimento, entre outros aspectos, de que não há uma medicina indígena, mas medicinas indígenas".

O antropólogo acredita que as possibilidades de diálogo entre o saber médico ocidental e o indígena passam pela valorização e reconhecimento da legitimidade e diferença dos conhecimentos dos povos indígenas. "O saber médico geralmente está voltado para o funcionamento do corpo biológico, já o saber tradicional indígena leva em consideração questões relacionadas ao corpo e fora do corpo, como o espírito", exemplifica. Os Tukano (denominação que engloba diferentes etnias como os Desana, Arapaso, Barasana e Bará) no Alto Rio Negro associam a Leishmaniose, por exemplo, a um grupo de doenças que são causadas pelo descumprimento de procedimentos que a pessoa deveria ter feito e não fez. A comunidade acredita que a doença não foi introduzida, mas sempre esteve presente na região e sempre existiu tratamento, que às vezes dá certo e outras vezes não. As práticas de cura da Leishmaniose estão associadas a interdições sexuais. Já a tuberculose é uma doença que não tem cura, que está fora das ações de um pajé, de um xamã. Trata-se de uma doença associada a um malefício de fora, enviado por alguém. "Conversando com os profissionais médicos percebe-se que os índios dificilmente se curam dessa enfermidade. Os tratamentos não são levados a sério por eles porque há, antes da morte biológica, uma morte social. Eles acham que já estão mortos", relata o pesquisador.

André Fernando, Baniwa e atual vice-presidente da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), comenta que, atualmente o reconhecimento e a valorização dos saberes indígenas passa não apenas pelos médicos e gestores na área de saúde, mas pelas próprios povos indígenas. "Entre nós hoje existem muitos que valorizam muito mais os produtos industrializados em vidrinhos. Isso se deve ao processo de colonização dos nossos povos, mas também as práticas dos profissionais de saúde, cuja formação acadêmica ignora a origem vegetal, animal e mineral desses remédios, e acaba por reforçar a discriminação contra os conhecimentos tradicionais", acredita.

Embora a Funasa tenha iniciativas que valorizam o conhecimento tradicional indígena, Fernando lamenta que não exista nenhuma iniciativa dessa natureza no Baixo, Médio e Alto Rio Negro. Critica também, a alta rotatividade dos profissionais de saúde da Funasa, que dificulta o estabelecimento de um diálogo efetivo entre medicina ocidental e tradicional. "O repasse irregular de recursos gera uma instabilidade no emprego de médicos e agentes de saúde. Quando avançamos no processo de diálogo, eles vão embora e chega um novo, ainda 'cru'. Precisamos lembrar que a relação entre saberes pressupõe uma relação entre pessoas, cuja formação e experiência de vida são muito distintas. Isso leva tempo", conclui.

Leia mais:
- Há luz no fim do túnel? Conhecimento tradicional e perspectivas de mudanças na política indigenista brasileira.

- Saúde indígena enfrenta entraves políticos

- Contas de vidro, enfeites de branco e "potes de malária": epidemiologia e representações de doenças infecciosas entre os Desana. Artigo de Dominique Buchillet publicado no site da Universidade de Brasília.

- ATHIAS, Renato. Doença e cura: sistema médico e representação entre os hupdë-maku da região do rio negro, amazonas. Horizontes antropológicos: corpo, doença e saúde. LEAL, Ondina Fachel (org.). Porto Alegre : UFRGS, v. 4, n. 9, 1998.

 
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