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Fadiga crônica em países em desenvolvimento

11/07/2005

Fadiga crônica em países em desenvolvimento: estudo baseado na população de mulheres na Índia

Vikram Patel, reader in international mental health1, Betty R Kirkwood, professor of epidemiology and international health1, Helen Weiss, senior lecturer in epidemiology and statistics1, Sulochana Pednekar, research coordinator2, Janice Fernandes, researcher2, Bernadette Pereira, researcher2, Medha Upadhye, researcher2, David Mabey, professor of communicable diseases1

1 London School of Hygiene and Tropical Medicine, London WC1E 7HT, 2 Sangath, 831/1 Porvorim, Goa, India

INTRODUÇÃO

A epidemiologia da fadiga crônica foi descrita principalmente em países desenvolvidos. Neste artigo, uma proporção significativa de pessoas com fadiga crônica não apresentam uma alteração física aparente e geralmente parecem ter outra alteração somática inexplicada ou alterações mentais como depressão e ansiedade. A fadiga é um sintoma comum entre mulheres em países desenvolvidos. Em uma pesquisa na Índia, cerca de um quarto das mulheres se queixam de fraqueza ou cansaço, sentindo mais da metade delas estes problemas por mais de seis meses.

Fadiga em mulheres é geralmente atribuída a deficiências nutricionais e anemia.

Clínicos tendem a prescrever vitaminas, ferro e suplementos nutricionais para tratar estes sintomas. Estas preparações são responsáveis pela maioria das drogas consumidas no sul da Ásia.

Poucos estudos são realizados em paises em desenvolvimento relacionando à associação de fadiga com fatores psicológicos, talvez devido à alta prevalência de anemia e má nutrição. Levanta o autor a hipótese de que a associação principal de fadiga é feita com fatores de risco psicossocial, um padrão semelhante ao encontrado em países desenvolvidos, e com fatores que refletem cargas sociais relacionadas ao sexo feminino, que são importantes determinantes da saúde da mulher.

Das 3.000 mulheres randomicamente selecionadas, 2.494 (83,1%) consentiram em participar do estudo. A razão mais comum de recusa foi a alegação de falta de tempo para participar (265, 52,4%) e a negativa de permissão por algum membro da família (95, 18,8%).

A fadiga foi relatada por 423 (17%) das participantes, das quais 301 (12,1%) vivenciava a queixa por pelo menos seis meses. As participantes que sofriam de fadiga crônica apresentavam um índice maior de incapacidades, relatavam uma perda na capacidade de cumprir suas atividades diárias em média por três dias no mês anterior, média comparada com 0,5 dias para as participantes que não referiam fadiga crônica.

Associação com fatores de risco sócioeconômicos

Participantes mais velhas, as que moravam em casa com mais de três filhos menores de 18 anos e aquelas que passavam dificuldades sociais e econômicas (menor educação, casa em piores condições e dificuldades financeiras) tinham uma tendência significativamente maior de sofrer de fadiga crônica. Participantes solteiras mostraram um risco menor, ao passo que divorciadas e viúvas apresentavam o maior risco. Em análise de multivariância, os seguintes fatores foram significativamente associados com fadiga crônica: baixa educação, famílias com dívidas, fome nos últimos três meses e idade mais avançada.

Participantes que viviam um casamento não satisfatório, como indicado pela violência e consentimento acerca da conduta do marido, relacionamento extramarital e uso de álcool ou outras drogas, foram significativamente associados com a fadiga crônica. As participantes cuja vida foi marcada por restrições na liberdade individual e incapacidade de tomar decisões e aquelas que tinham menor suporte de suas famílias tinham maior tendência a apresentar fadiga crônica. A associação com fatores de risco associado com doença mental foi forte.

Associação com fatores de risco físico

A única associação significativa com sinais físicos foi o risco reduzido relacionado com alta massa corpórea e uma gravidez no último ano. Não foi encontrada associação entre a concentração de hemoglobina e a fadiga crônica. A concentração de hemoglobina não foi associada com fadiga crônica com participantes sem sintomas de doença mental ou alterações somáticas. Não se encontrou interação entre anemia e alterações mentais comuns.

Discussão

Este artigo relata a prevalência da associação da fadiga crônica em uma comunidade de mulheres na Índia. Sua principal conclusão é que mais do que 1 em 10 mulheres relatam fadiga crônica e que alterações mentais comuns e sintomas associados com somatização são os fatores de risco mais fortes. Abuso sexual por maridos e um índice de massa corpórea pequena também são associados independentemente com a fadiga crônica, embora a concentração de hemoglobina não esteja associada com o problema. Mulheres com fadiga crônica apresentam um aumento significativo da incidência de incapacidades e têm maior chance de relatar outros sintomas físicos.

Fatores positivos deste estudo são o fato de incluir uma amostra da população, o uso de medidas de risco e medidas de acompanhamento bem estabelecidos e avaliação de fatores de risco físicos e psicológicos. Uma limitação é a possibilidade de seleção de certos participantes se forem considerados os motivos de recusa em participar do estudo.

Um estudo multinacional da Organização Mundial de Saúde relata que a prevalência de fadiga sem explicação com um mês de duração varia muito significativamente, com prevalência de 2,3% a 15,1%. Trabalhos em países desenvolvidos relatam com maior freqüência fadiga crônica apesar do relato de fadiga crônica persistindo por mais de 6 meses, relatada no trabalho, ser semelhante ou maior ao encontrado em países desenvolvidos. Por exemplo no Reino Unido, em estudo de população usando critérios semelhantes ao do trabalho, a incidência de fadiga crônica foi de 9%, sendo a incidência maior em mulheres. Os fatores de risco sócioeconômicos associados independentemente à fadiga crônica foram: idade mais avançada, indicadores de privação sócioeconômica. Comparadas com mulheres casadas, permanecer solteira representa um fator de proteção, ao passo que a separação ou a viuvez aumentaram o risco. Apesar de estudos em países desenvolvidos terem mostrado algumas destas associações (por exemplo com a idade avançada), a associação com dificuldades econômicas é menos consistente.

Desvantagens relacionadas ao sexo representam o maior determinante social de saúde em países em desenvolvimento. O estudo mostra uma forte associação entre desvantagem associada ao sexo e à fadiga crônica, em particular, restrições e opressão para a vida das mulheres, ausência de relacionamentos satisfatórios e violência. A fadiga crônica pode ser o resultado de fatores psicológicos pesados vivenciados por mulheres nestas circunstâncias. Trabalho físico excessivo e desvantagens relacionadas ao sexo em acesso à alimentação sejam talvez as maiores explicações para a associação de fadiga crônica com o índice de massa corpórea. De forma irônica, a gravidez nos últimos 12 meses é associada com diminuição do risco, talvez devido à tendência das mulheres de receber ajuda nos trabalhos domésticos após o nascimento de um filho.

Fatores relacionados à saúde mental, principalmente a associação com outros problemas físicos e psicológicos de depressão e ansiedade, apresentam a associação mais forte com a fadiga crônica. Alterações mentais comuns e sintomas inexplicados estão entre as maiores causas mais comuns de morbidade em países em desenvolvimento. Muitas pessoas com estas alterações mentais procuram cuidados médicos, porém menos de um terço destas alterações são diagnosticadas. O estudo indica que a fadiga pode ser um problema chave nestes casos. Apesar dos sintomas psicológicos e problemas do dia a dia poderem ser elucidados, muitos médicos não investigam estes sintomas e tendem a prescrever medicamentos para tratar sintomas.

Concluindo, a associação mais forte com fadiga crônica em países em desenvolvimento se relaciona com as doenças mentais. A fadiga crônica é com freqüência uma patologia associada com outros sintomas clínicos inexplicados, sugerindo que este sintoma é parte de uma síndrome somática inexplicada. Médicos de países em desenvolvimento devem investigar os determinantes psicológicos e somáticos da fadiga crônica antes de assumir que é resultado de anemia ou deficiências nutricionais. As crescentes evidências indicando o tratamento efetivo das alterações mentais comuns e dos sintomas físicos sem explicação devem fornecer a base para o tratamento destes sintomas em serviços de saúde.

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Fonte: doi:10.1136/bmj.38442.636181.E0 (published 3 May 2005)

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