gastronomia - Vinho, ambiente e paladar
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gastronomia

Vinho, ambiente e paladar

26/11/2005
 
     Vinho não se combina apenas com alimentos ou com música, como já dissertei neste espaço, mas com um contexto ou um ambiente. As circunstâncias influem decisivamente em nossa apreciação de uma garrafa. O estado de espírito, a companhia, a temperatura do ambiente, a música, a iluminação, a decoração, a vista, a estação do ano, o que foi bebido antes e o que esperamos consumir depois. A situação completará o significado da experiência sensorial. Podemos delinear uma classificação dos vinhos neste sentido.

      Alguns, assim como algumas peças musicais, têm uma função. Os prelúdios, ou as aberturas, preparam nossos ouvidos para o que virá a seguir. Podemos, então, chamar de vinhos de introdução aqueles cuja função é aguçar o paladar e "fazer a boca". Os de conversação são para a confraternização dos companheiros, como nos poemas de Neruda: gregários, bebidos ao sabor de histórias e risadas. Os vinhos de pretexto dispensam a reputação, são mera distração, também conhecidos como de entretenimento, como a pipoca do cinéfilo.

      Os vinhos de visita contêm certa formalidade, o rótulo escolhido varia conforme o grau de cerimônia e apreço atribuídos ao visitante. O vinho refrescante é aquele que, assim como as narinas se abrem ante seu frescor, e o paladar, ante sua acidez, faz o coração se abrir para a vida.

      Os vinhos de pessoa jurídica, com muitos dígitos no preço, são adequados para fechar grandes negócios. Um contraparente seu é o vinho de ostentação, para quem o "ter" é mais importante do que o "ser". Do mesmo clã, temos os vinhos de sonho, aqueles cujo preço e raridade os afastam de nossa realidade e os aproximam de nossas fantasias.

      Os vinhos importantes, próprios para pessoas importantes; e vinhos ainda mais importantes, para pessoas simples para as quais qualquer um deles é uma verdadeira dádiva.

      O vinho dos técnicos - agrônomos, enólogos e agricultores - para quem mais que fermentado de uva, é suor, labor diário, dedicação e sustento. Oposto do vinho apolíneo dos degustadores profissionais, das fichas, notas, classificações, rankings e guias; parente do vinho dos práticos e objetivos que querem o "melhor" por seu dinheiro, e buscam este "melhor" nos guias. Existe ainda o vinho poético, embora a poesia não esteja nele e sim em quem o bebe e faz a sua apologia. Não esqueçamos do útil vinho de batalha, quando a quantidade impossibilita a qualidade, muito comum em vernissages, casamentos e noites de autógrafos.

      O vinho de boas-vindas é irmão do vinho de despedida, do qual se pode guardar uma garrafa e transformá-la no vinho do reencontro. O vinho curinga é o que serve para todas as ocasiões, como o champanhe, ótimo para o café da manhã, começando o dia ou encerrando a noite.

      A família dos vinhos de assunto é grande. Temos de reminiscências que nos fazem lembrar histórias ou até inventá-las. Há os que soltam nossas línguas e os que as enrolam. Sem falar nos de conversa fiada e naqueles que são o assunto da conversa. Destes o antepassado mais ilustre é o vinho de meditação, que pede silêncio e concentração. Obras de arte líquida, uma epifania quase religiosa, para se beber de joelhos. Nesta categoria se encaixa a maioria dos vinhos de sobremesa, que nos chegam no final de uma refeição quando estamos em paz com nosso estômago e com nós mesmos, com uma sensação de completude e plenitude.

      O vinho pretensioso é o da paixão, pois toda paixão é pretensiosa, é revolucionária, muda nossa maneira de ver o mundo e faz com que o mudemos. Uma variante é o vinho da sedução, que hipnotiza os amantes, temperando o encanto e aquecendo os espíritos.

      Fascinante é o vinho da harmonização, combinado a cada prato da refeição. Os verdadeiros enófilos sabem, no entanto, que vinho se combina com o ar que respiramos. Tintos harmonizam com carne, a de que somos feitos. Brancos são para acompanhar os frutos do mar, com a brisa e o som das ondas, e, sobretudo, as sereias.

      Os únicos vinhos que não conheço são o da tristeza e o da solidão, pois azedam rapidamente e são conhecidos, então, como vinagres. Acima de todos está o vinho alegre, pois sem alegria nem a vida nem o vinho valem a pena.


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Publicado por: Dra. Shirley de Campos
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