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Geriatria/Gerontologia/Idoso

Fratura osteoporótica de fêmur

19/02/2006

Fratura osteoporótica de fêmur: um desafio para os sistemas de saúde e a sociedade em geral

 

Arq Bras Endocrinol Metab v.49 n.6 São Paulo dez. 2005

Maria Lucia F. de Farias

Professora Adjunta da Disciplina de Endocrinologia, Faculdade de Medicina, Universidade Federal do Rio de Janeiro, RJ

 

 

A LONGEVIDADE TEM UM CUSTO, para o qual a fratura de fêmur contribui significativamente. Em 1990, as estimativas mundiais eram de 1,7 milhões de fraturas de fêmur por ano e acredita-se que essa taxa atinja a cifra de 6,3 milhões no ano 2050. Obviamente, isto acarretará um enorme encargo para o sistema de saúde, seja ele público ou privado. Como evitar que essa previsão catastrófica se torne realidade é um desafio.

A fratura de fêmur é a conseqüência mais temida da osteoporose, associando-se a elevada morbidade e mortalidade. No estudo de Jiang e cols. (1) a taxa de mortalidade durante a internação causada pela fratura foi de 6,3% em média (10,2% para os homens e 4,7% para as mulheres) enquanto a mortalidade no ano subseqüente à fratura atingiu 30,8% (37,5% homens e 28,2% mulheres). Os autores desenvolveram um escore clínico preditivo de mortalidade pós-fratura, onde as maiores influências foram idade, sexo e comorbidades (em ordem decrescente de risco: malnutrição, insuficiência renal, pneumonia, malignidade pré-existente e infarto do miocárdio prévio). Sugerem, portanto, maior atenção ao paciente com alto escore de fatores de risco, especialmente o tratamento anti-osteoporose. O médico que acompanha o paciente deve explicar a importância do tratamento para evitar novas fraturas e o paciente deve ser motivado a manter vigilância da doença.

Embora essa conduta pareça óbvia, constata-se que a maioria dos pacientes que sofreu fratura de fêmur não inicia tratamento específico, até porque apenas 6 a 10% dos pacientes são orientados para tal no momento da alta (2). Gardner e cols (3) surpreenderam-se ao constatar que 40% dos pacientes internados por fratura de fêmur não relacionavam a fratura à osteoporose. Os autores propõem mecanismo simples e eficiente: abordar o paciente ainda durante a internação para correção da fratura de fêmur e fazer explanação sobre o assunto; simultaneamente, entregar-lhe um questionário dirigido aos seus médicos visando que eles tomem a iniciativa de pedir densitometria e iniciar tratamento. Com essa abordagem, cerca de metade dos pacientes recebeu medicamentos para osteoporose e os manteve até o sexto mês, quando a pesquisa terminou, o que foi considerado um bom resultado.

Em nossa experiência, mesmo pacientes com direito a plano de saúde, que realizam densitometria óssea e freqüentam consultórios médicos precisam ser melhor instruídos sobre a necessidade de manter medicamentos por longo prazo para sua osteoporose ou não conseguiremos diminuir as taxas de fratura e, conseqüentemente, os gastos decorrentes.

Neste número dos Arquivos, Araújo e cols. (4) fazem interessante pesquisa sobre o custo da fratura osteoporótica de fêmur para o Sistema Suplementar de Saúde brasileiro. No período de um ano, foram registrados 129.611 casos de osteoporose, observando-se fratura de fêmur em 4,99% dessa população. Estimando o custo médio da hospitalização em R$ 24.000,00 por paciente, o montante assumido pelo sistema totalizou R$ 12 milhões, e as perspectivas de controle dessa despesa num futuro próximo são remotas.

Na rede pública, onde a maioria não tem acesso à densitometria nem aos medicamentos adequados, o problema é ainda mais difícil de contornar. Silva e cols. (5) estimam que o custo da fratura osteoporótica para o SUS é de apenas R$ 1.700,00 considerando a alternativa tradicional, ou seja, não intervenção terapêutica específica quanto à osteoporose; apenas gastos diretamente relacionados à correção cirúrgica da fratura, internações e fisioterapia. A autora questiona se é válido mudar a conduta, levantando questões básicas: a) quantas fraturas de fêmur (dentre outros danos) poderiam ser evitadas, ou quantos anos de vida com qualidade poderiam ser ganhos, por diferentes intervenções medicamentosas; b) a densitometria óssea (DMO) deveria ser incluída no diagnóstico? c) qual o custo de cada alternativa anti-osteoporose por fratura evitada? d) o que seria mais vantajoso para a sociedade/governo: adotar os procedimentos anti-osteoporose atuais ou apenas cuidar das fraturas osteoporóticas? Para isso, foi feita a análise do custo-efetividade de algumas intervenções visando prevenir / tratar osteoporose: DMO + terapia de reposição hormonal para menopausa (THRM), DMO + alendronato, somente TRHM ou somente cálcio + vitamina D. A autora conclui que o custo incremental de todas as alternativas para reduzir o número de fraturas, à exceção do cálcio + vitamina D, é excessivamente elevado e inaceitável como política de atendimento às grandes populações. Reconhece o valor do tratamento, pois que a prevenção das fraturas reduziria os gastos do SUS, mas o custo deve ser assumido pela paciente! Nesse contexto, as perspectivas são desanimadoras.

Cabe aos médicos interessados e comprometidos com o tratamento da osteoporose no Brasil tentar reverter esta situação. Ainda há espaço para campanhas educacionais da população e mesmo de divulgação, junto aos demais colegas, dos mecanismos de prevenção e alternativas de tratamento. Ainda há espaço para ações da sociedade junto ao Ministério da Saúde e Sistemas de Saúde para que mudem suas políticas, dando mais atenção e mais apoio ao combate desta grave doença crônico-degenerativa.

 

REFERÊNCIAS

1. Jiang HX, Majumdar SR, Dick DA, Moreau M, Raso J, Otto DD, et al. Development and initial validation of a risk score for predicting in-hospital and 1-year mortality in patients with hip fractures. J Bone Miner Res 2005;20:494-500.

2. Juby SG, De Geus-Wenceslau CM. Evaluation of osteoporosis treatment in seniors after hip fracture. Osteoporos Int 2002;13:205-10.

3. Gardner MJ, Brophy RH, Demetrakopoulos D, Koob J, Hong R, Rana A, et al. Interventions to improve osteoporosis treatment following hip fracture. J Bone Joint Surg 2005;87:3-7.

4. Araújo DV, Oliveira JHA, Bracco OL. Custo da fratura osteoporótica de fêmur no sistema suplementar de saúde brasileiro. Arq Bras Endocrinol Metab 2005;49/6:897-901.

5. Silva LK. Avaliação tecnológica em saúde: densitometria óssea e terapêuticas alternativas na osteoporose pós-menopausa. Cad Saúde Pública 2003;19:987-1003.

 

Federação Brasileira de Sociedades de Endocrinologia e Metabologia

www.scielo.com.br


 


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