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Gravidez/Parto/Obstetrícia

Fatores de risco para macrossomia fetal em gestantes diabéticas

04/03/2006

Rev. Bras. Ginecol. Obstet. v.27 n.10 Rio de Janeiro out. 2005

 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Fatores de risco para macrossomia fetal em gestações complicadas por diabete ou por hiperglicemia diária

 

Fetal macrosomia risk factors in pregnancies complicated by diabetes or daily hyperglycemia

 

 

Luciane Teresa Rodrigues Lima KercheI; Joelcio Francisco AbbadeII; Roberto Antonio Araújo CostaII; Marilza Vieira Cunha RudgeIII; Iracema de Mattos Paranhos CalderonIV

Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina de Botucatu – Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" – UNESP – São Paulo (SP) – Brasil
IProfessora Substituta do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia Faculdade de Medicina de Botucatu – Universidade Estadual Paulista – "Júlio de Mesquita Filho" – UNESP – São Paulo (SP) – Brasil
IIProfessor Doutor do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia – Faculdade de Medicina de Botucatu – Universidade Estadual Paulista – "Júlio de Mesquita Filho" – UNESP – São Paulo (SP) – Brasil
IIIProfessora Titular do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia – Faculdade de Medicina de Botucatu – Pró-reitora de Pós-Graduação da Universidade Estadual Paulista – "Júlio de Mesquita Filho" – UNESP – São Paulo (SP) – Brasil
IVProfessora Livre-Docente do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia – Faculdade de Medicina de Botucatu – Universidade Estadual Paulista – "Júlio de Mesquita Filho" – UNESP – São Paulo (SP) – Brasil. Orientadora deste projeto de pesquisa

Correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: identificar fatores de risco para a macrossomia fetal na população de gestantes portadoras de diabete ou hiperglicemia diária.
MÉTODOS: estudo retrospectivo, tipo caso-controle, incluindo 803 pares de mães e recém-nascidos desta população específica, distribuídos em dois grupos: macrossômicos (casos, n=242) e não macrossômicos (controles, n=561). Foram comparadas variáveis relativas à idade, paridade, peso e índice de massa corporal (IMC), ganho de peso (GP), antecedentes de diabete, hipertensão arterial e tabagismo, tipo e classificação do diabete e indicadores do controle glicêmico no terceiro trimestre. As médias foram avaliadas pelo teste F e as variáveis categorizadas foram submetidas à análise univariada, utilizando-se o teste do c². Os resultados significativos foram incluídos no modelo de regressão múltipla, para identificação do risco independente de macrossomia, considerando-se OR, IC 95% e valor de p. Para todas as análises foi estabelecido o limite de significância estatística de 5% (p<0,05).
RESULTADOS:
observou-se associação significativa entre macrossomia e GP maior que 16 kg, IMC >25 kg/m2, antecedentes pessoais, obstétricos e, especificamente, o de macrossomia, classificação nos grupos de Rudge (IB e IIA + IIB), média glicêmica (MG) >120 mg/dL e média de glicemia pós-prandial >130 mg/dL no terceiro trimestre. Na análise de regressão múltipla, o GP >16 kg (OR=1,79; IC 95%: 1,23-1,60), o IMC >25 kg/m² (OR=1,83; IC 95%: 1,27-2,64), o antecedente pessoal de diabete (OR=1,56; IC 95%: 1,05-2,31) e de macrossomia (OR=2,37; IC 95%: 1,60-3,50) e a MG >120 mg/dL no terceiro trimestre (OR=1,78; IC 95%: 1,13-2,80) confirmaram risco independente para macrossomia nestas gestações de risco.
CONCLUSÃO:
o GP superior a 16 kg, o IMC maior ou igual a 25 kg/m2, a MG superior a 120 mg/dL no terceiro trimestre e a presença de antecedentes pessoais de diabete ou de macrossomia foram identificados como fatores de risco para macrossomia fetal em gestantes portadoras de diabete ou de hiperglicemia diária.

Palavras-chave: Complicações na gravidez; Hiperglicemia; Fatores de risco; Macrossomia fetal


ABSTRACT

PURPOSE: to identify risk factors for fetal macrosomia in pregnant women with diabetes or daily hyperglycemia.
METHODS:
retrospective study, control-case, including 803 pairs of mothers and newborns belonging to this specific population, divided into two groups - macrosomic (cases, n=242) and non-macrosomic (controls, n=561). Variables regarding age, parity, weight and body mass index (BMI), weight gain (WG), diabetes history, high blood pressure and tabagism, diabetes type and classification, and glycemic control indicators in the third trimester were compared. The means were evaluated by the F test and the categorized variables were submitted to univariate analysis using the c² test. The significative results were included in the multiple regression model for the identification of macrosomia independent risk considering OR, 95% CI and p value. The statistical significance limit of 5% was established for all analyses.
RESULTS:
there was a significative association between macrosomia and WG >16 kg, BMI >25 kg/m², personal, obstetric and macrosomic history, classification in the Rudge groups (IB and IIA + IIB), glycemic mean (GM) >120 mg/dL and postprandial glycemic mean >130 mg/dL in the third trimester. In the multiple regression analysis, WG >16 kg (OR=1,79; 95% CI: 1,23-1.60), BMI >25 kg/m² (OR=1.83; 95% CI: 1.27-2.64), personal history of diabetes (OR=1.56; 95% CI: 1.05-2.31) and of macrosomia (OR=2.37; 95% CI: 1.60-3.50) and GM >120 mg/dL in the third trimester (OR=1.78; 95% CI: 1.13-2.80) confirmed to be independent risk factors for macrosomia in these pregnancies.
CONCLUSION: WG >16 kg, BMI >25 kg/m², GM >120 mg/dL in the third trimester and personal history of macrosomia and diabetes were identified as risk factors for fetal macrosomia in pregnant women with diabetes or daily hyperglycemia.

Keywords: Pregnancy complications; Hyperglycemia; Risk factors; Fetal macrosomia


 

 

Introdução

A macrossomia fetal é definida por peso ao nascimento igual ou superior a 4.000 g. De forma alternativa, considera-se o peso fetal relacionado à idade gestacional, classificando os recém-nascidos em pequenos (PIG), com peso inferior ao 10º percentil; adequados (AIG), peso entre o 10º e o 90º percentil, e grandes para a idade gestacional (GIG), os de peso superior ao 90º percentil. Nesta última categoria estão caracterizados os macrossômicos1.

A macrossomia fetal tem interesse clínico, por representar risco elevado de morbimortalidade materna e perinatal. A mortalidade se associa em 0,5% e a morbidade pode atingir cifras de 11,4%, decorrentes de morte intra-útero, asfixia perinatal, polidrâmnio, rotura prematura de membranas, trabalho de parto prematuro e parto distócico, com distócia de ombro e traumas esqueléticos, como a fratura de clavícula e/ou a paralisia de Erb2,3.

No período neonatal, os macrossômicos têm freqüência aumentada de hipoglicemia, hiperbilirrubinemia, hipocalcemia, síndrome do desconforto respiratório e cardiomiopatia hipertrófica que, associadas à prematuridade, favorecem a morte perinatal4. Os efeitos tardios da macrossomia e da alteração metabólica do meio intra-uterino incluem obesidade, dislipidemia, hipertensão arterial sistêmica e diabete melito tipo 2 na vida adulta5,6. Os filhos de mães com diabete gestacional têm, desde a infância, elevado índice de sobrepeso e risco de desenvolver diabete melito tipo 1, antes dos 10 anos7,8. A hipertensão gestacional, o aumento nos índices de cesárea, eletiva ou de emergência, os traumas e infecções no canal de parto, as hemorragias e as retenções placentárias, decorrentes da atonia uterina, são complicações maternas, comumente associadas à macrossomia fetal9.

A prevalência da macrossomia depende do critério utilizado e da população estudada. Os recém-nascidos com peso igual ou superior a 4.000 g correspondem a 10% e aqueles com 4.500 g ou mais, a 1% da população geral. A macrossomia é a característica mais comum entre mulheres multíparas, com idade mínima de 30 anos, maior estatura e índice elevado de massa corporal (IMC), além da presença de antecedentes familiares de diabete e obstétricos de macrossomia fetal, de intolerância à glicose ou diabete, no pós-datismo e nos fetos do sexo masculino2. Em estudos populacionais, a prevalência de macrossomia foi confirmada em 5,3% da população geral, em 15,4% das gestações pós-termo e em 10% dos casos de obesidade mórbida10. Especificamente associadas ao diabete, as cifras variam de 28,511 até 48,8%10. Em nosso meio, a presença de diabete ou de alterações no perfil glicêmico contribuíram, de modo significativo, para a macrossomia fetal12. Neste contexto, ensaio clínico randomizado, incluindo 1000 gestantes com intolerância à glicose, evidenciou que o não-tratamento de qualquer grau de hiperglicemia materna representa risco de peso fetal aumentado, além de outros resultados perinatais adversos13.

A hiperglicemia materna resulta em hiperglicemia fetal, com conseqüente aumento na produção de insulina, determinando hipertrofia e hiperplasia das células b-pancreáticas. O estado de hiperinsulinismo e excesso de glicose no meio intra-uterino, comum nas gestações complicadas pelo diabete, favorecem a organomegalia e a macrossomia fetal14. Além disso, o aporte excessivo de glicose, aminoácidos e lipídios do compartimento materno é repassado integralmente ao feto, estimulando o aumento de peso do recém-nascido15. Apesar das evidências de que a hiperglicemia materna é fator determinante do crescimento fetal, os elementos adicionais, como triglicérides, aminoácidos, ácidos graxos livres e cetonas, a própria insulina, alguns hormônios, os fatores de crescimento insulin-like (IGFs) e a leptina, também foram reconhecidos como agentes causais do desenvolvimento fetal exagerado15.

A literatura é controversa e ainda não definiu o verdadeiro papel dos vários fatores envolvidos na gênese desta complicação. O antecedente de macrossomia, a multiparidade, a altura materna elevada, o ganho de peso excessivo durante a gestação, a origem étnica, o pós-datismo e o trabalho de parto prolongado foram associados ao risco de macrossomia fetal2,6,13. Estudo recente, avaliando gestantes brasileiras, relacionou o IMC superior a 25 kg/m2 ao risco aumentado de macrossomia fetal16. Vários estudos sugerem que, a despeito da normoglicemia, a macrossomia é mais comum em gestações complicadas pelo diabete. Outros reforçam a validade do controle rigoroso da hiperglicemia materna, para prevenir o excesso de peso nos recém-nascidos de mães diabéticas4,10,17. Também não está definido o período da gravidez em que a hiperglicemia materna teria maior impacto sobre os resultados perinatais. Na opinião de alguns, o adequado controle glicêmico no início da gestação, ou mesmo na pré-concepção, seria capaz de diminuir a incidência de macrossomia11,18. Apesar destes achados e do risco cinco vezes maior nos casos de hiperglicemia no primeiro trimestre da gestação19, outros autores observaram relação direta entre controle glicêmico inadequado no terceiro trimestre e macrossomia fetal4,20.

Apesar da origem multifatorial, a macrossomia ainda é a complicação mais comum dos filhos de mães diabéticas, o que justifica sua característica de marcador indireto da qualidade do controle glicêmico materno nestas gestações de risco4,20. Assim, foi objetivo deste trabalho identificar fatores de risco para a macrossomia fetal na população de gestantes portadoras de diabete ou de hiperglicemia diária.

 

Métodos

Este estudo retrospectivo, do tipo caso-controle, foi realizado a partir de informações obtidas do banco de dados do Serviço de Diabete e Gravidez do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Botucatu-Unesp e da revisão dos prontuários médicos e registradas em protocolo desenvolvido especificamente para o estudo.

Para o cálculo do tamanho da amostra, considerou-se a freqüência de 37,8% de macrossomia entre gestantes portadoras de diabete (gestacional ou clínico) ou hiperglicemia diária20, o risco relativo (OR) de 1,61 para macrossomia em gestantes com IMC maior que 25 kg/m2 16, o poder estatístico de 80% e o limite de significância de 5%. Estas definições foram registradas no software Epi-Info que, na proporção de um caso para dois controles (1:2), determinou o tamanho amostral mínimo de 232 casos e 464 controles.

Foram considerados os recém-nascidos vivos de gestantes atendidas nesse serviço, no período de 1º de janeiro de 1995 a 31 de dezembro de 2003. Selecionou-se, de modo consecutivo e retrospectivo, um caso para dois controles, até o número necessário para o tamanho amostral, considerando-se 10% de eventual perda de dados. Foram excluídos os casos de gemelaridade, malformações e idade gestacional inferior a 28 semanas. Ao final deste processo, foram constituídos dois grupos experimentais: macrossômicos (casos) – 242 recém-nascidos de peso corporal superior ao percentil 90, e não macrossômicos (controles) – 561 recém-nascidos de peso corporal entre os percentis 10 e 90.

As variáveis estudadas foram: a idade materna, em anos completos, categorizada em menor ou igual e maior que 25 anos5; a paridade, relacionada ao número de partos anteriores, classificada em zero, de um a dois e maior ou igual a três; o ganho de peso (GP) gestacional, calculado em kilogramas (kg), pela diferença dos pesos corporais prévio e do final da gestação. A diferença foi classificada em menor que 8 kg, de 8 a 16 kg e maior que 16 kg16; o IMC pré-gravídico, calculado pela relação peso/altura2, foi classificada em menor que 18,5 kg/m2, de 18 a 25 kg/m2 e maior ou igual a 25 kg/m2 16. Foram obtidos os antecedentes de diabete - considerados os familiares, pessoais e obstétricos, isolados ou em associação20, – os antecedentes de macrossomia – confirmação (sim) ou negativa (não) de recém-nascido com peso superior a 4.000 g na anamnese de admissão do pré-natal, – o tipo de diabete – relacionado ao momento do diagnóstico, prévio (diabete clínico) ou durante a gestação (diabete gestacional)5. Os casos foram classificados de acordo com os grupos de Rudge - considerada a classificação nos grupos IB (hiperglicemia diária - TTG 100 g normal e perfil glicêmico alterado); IIA (TTG 100 g alterado e PG normal) e IIB (TTG 100 g e PG alterados)20,21. A média glicêmica (MG) em mg/dL, calculada pela média aritmética das glicemias plasmáticas avaliadas em todos os perfis glicêmicos realizados no terceiro trimestre da gestação, foi classificada como adequada (MG <120 mg/dL) ou inadequada (MG >120 mg/dL)20, e as médias glicêmicas de jejum e pós-prandial em mg/dL, foram calculadas pela média aritmética das glicemias plasmáticas de jejum e pós-prandiais, respectivamente. Estas dosagens são incluídas em todos os perfis glicêmicos realizados no terceiro trimestre da gestação, sendo classificadas como normais (MG <90 mg/dL) ou alteradas (MG >90 mg/dL)20 para o jejum, e para as pós-prandiais, classificadas como normais (MG <130 mg/dL) e alteradas (MG >130 mg/dL)20. O uso de insulina – presença (sim) ou ausência (não) de terapêutica insulínica, independentemente da dose administrada –, a presença (sim) ou ausência (não) de qualquer tipo de hipertensão arterial associada à gestação em estudo e o tabagismo – confirmação (sim) ou negativa (não) do hábito de fumar, considerando-se o mínimo de cinco cigarros por dia foram registrados.

Para a análise estatística utilizou-se o pacote estatístico SPSS for Windowsâ. A comparação das variáveis maternas quantitativas entre os grupos foi feita por análise de variância, empregando-se o teste F. Os fatores de risco foram identificados por análise univariada, que comparou as variáveis categorizadas pelo teste do c2. Os resultados significativos desta análise foram incluídos no modelo de regressão múltipla, onde os valores de OR, intervalo de confiança (IC) a 95% e respectivo p confirmaram o risco independente de algumas variáveis no desfecho de macrossomia nessa população específica de gestantes. Para todos os valores observados adotou-se 5% como limite de significância estatística (p<0,05). O projeto original foi aprovado em 1º de setembro de 2003 pelo Comitê de Ética em Pesquisa da FMB-Unesp.

 

Resultados

Os resultados apresentados a seguir referem-se à avaliação de 803 pares de mães e recém-nascidos, distribuídos em dois grupos, de acordo com a classificação de peso ao nascimento: macrossômicos (casos, n=242) e não macrossômicos (controles, n=561).

A idade materna média de 29 anos não foi diferente entre os grupos. As médias de paridade (1,7 vs 1,5), de peso corporal (74,3 vs 70,3) e IMC (29,2 vs 28,2) pré-gravídicos, de peso final (87,5 vs 81,2) e de GP gestacional (13,4 vs 11,9) maternos foram significativamente mais elevadas nos casos, diferenciando-os dos controles (Tabela 1).

 

 

Não se comprovou diferença na avaliação das faixas etárias iguais ou superiores a 25 anos, da paridade mínima de três filhos, da presença de síndromes hipertensivas ou do hábito de fumar entre as mães dos grupos avaliados. Comparadas aos controles, maior proporção de mães de recém-nascidos macrossômicos (casos) tinha IMC pré-gravídico mínimo de 25 kg/m² (77,8 vs 66,3%) e apresentou GP maior que 16 kg (31,0 vs 21,7%). Além disso, o percentual de mães com antecedentes pessoais e obstétricos foi significativamente maior no grupo dos recém-nascidos macrossômicos, respectivamente 28,5 e 51,6%. Avaliada de forma isolada, a macrossomia fetal em gestações anteriores também foi mais freqüente no grupo de casos (30,2%) que nos controles (15,2%) (Tabela 2).

 

 

O tipo do diabete materno não interferiu na ocorrência de recém-nascidos macrossômicos. Entretanto, a classificação nos grupos de Rudge diferenciou a população de mães de macrossômicos e não macrossômicos – a proporção de gestantes classificadas como IB (hiperglicemia diária) foi menor no grupo de recém-nascidos macrossômicos (39,3 vs 47,4%) e, de modo contrário, o percentual de mães classificadas como IIA e IIB foi maior no grupo dos casos (60,7 vs 52,6%). A média glicêmica de jejum, no limite de 90 mg/dL, e o uso de insulina não diferenciaram os grupos de recém-nascidos macrossômicos e não macrossômicos. A porcentagem de gestantes com MG inadequada, igual ou maior que 120 mg/dL, representou 22,4% dos casos e 11,1% dos controles. Além disso, maior proporção de mães com média de glicemia pós-grandial no limite mínimo de 130 mg/dL foi confirmada no grupo de recém-nascidos macrossômicos (27,4 vs 19,8%). Estas diferenças foram significantes (Tabela 3).

 

 

Entre as variáveis que diferenciaram estatisticamente os casos dos controles, cinco delas confirmaram ser risco independente para macrossomia fetal nas gestações complicadas por diabete ou hiperglicemia diária: GP materno superior a 16 kg (OR=1,79 e IC 95%: 1,23-1,60), IMC pré-gravídico maior que 25 kg/m² (OR=1,83 e IC 95%: 1,27-2,64), antecedente pessoal de diabete (OR=1,56 e IC 95%: 1,05-2,31) ou de macrossomia (OR=2,37 e IC 95%: 1,60-3,50) e MG no terceiro trimestre igual ou superior a 120 mg/dL (OR=1,78 e IC 95%: 1,13-2,80) (Figura 1).

 

 

Discussão

Os resultados deste trabalho confirmaram o GP e o IMC maternos, a presença de antecedente pessoal de diabete ou de macrossomia e a MG mantida no terceiro trimestre como fatores de risco para a macrossomia fetal em gestantes portadoras de diabete ou hiperglicemia diária. O GP >16 kg, o IMC pré-gravídico >25 kg/m2 e a MG >120 mg/dL no terceiro trimestre representaram risco de quase duas vezes; ter antecedente pessoal de diabete significou risco equivalente a uma vez e meia e ter um filho macrossômico correspondeu a risco de quase duas vezes e meia para a ocorrência de macrossomia nesta população de gestantes.

Neste trabalho, as mães de recém-nascidos macrossômicos (casos) apresentaram características diferentes daquelas com neonatos de peso adequado (controles). Ainda que de idade equivalente, as gestantes do grupo dos casos tinham mais filhos e maior peso inicial, o IMC pré-gravídico foi mais elevado e o GP durante a gestação foi mais acentuado. Estes resultados já foram amplamente demonstrados em estudos prévios, relacionando macrossomia fetal com características de gestantes de baixo risco ou portadoras de diabete12,16,22,23.

Independentemente dos níveis de glicose, a obesidade materna se associa à redução na sensibilidade à ação periférica da insulina e conseqüente hiperinsulinemia que, incrementadas por níveis elevados de lipídios e triglicérides, favorecem a macrossomia fetal24. Em decorrência, estabeleceu-se a relação direta entre obesidade materna, crescimento fetal exagerado e sobrepeso nos primeiros anos de vida7,25. Estudo específico com gestantes brasileiras evidenciou que aproximadamente um quarto delas apresentava peso acima do ideal na época da concepção e relacionou o sobrepeso e a obesidade com macrossomia fetal, diabete gestacional e distúrbios hipertensivos maternos16.

A macrossomia é o resultado adverso mais comumente observado nas gestações complicadas por diabete ou hiperglicemia diária4,12,20. Tal condição é geralmente associada a controle glicêmico inadequado, mas algumas características maternas, tais como idade, multiparidade, obesidade, antecedentes de diabete e de recém-nascidos grandes para a idade gestacional também podem contribuir para este desvio do crescimento fetal. No presente trabalho, a macrossomia fetal foi diretamente relacionada ao fenótipo materno, à qualidade do controle glicêmico no terceiro trimestre e a antecedentes pessoais de diabete e de recém-nascidos macrossômicos. Por outro lado, não dependeu da idade e da paridade maternas, dos antecedentes familiares e do tipo do diabete, além de não se relacionar a valores específicos de glicemias de jejum e pós-prandial no terceiro trimestre, e ao uso de insulina durante a gestação. Também, não se confirmou influência da hipertensão arterial, em suas mais variadas formas, e do hábito de fumar sobre a ocorrência de macrossomia fetal.

A hipertensão gestacional e o aumento nos índices de cesárea, eletiva ou de emergência, são complicações maternas, comumente associadas à macrossomia fetal9,10. Em contrapartida, a presença de síndrome hipertensiva, associada a alterações vasculares maternas e placentárias, induz à restrição do crescimento intra-uterino e, de certa forma, seria fator protetor para o crescimento fetal exagerado. Este mesmo raciocínio é válido para as alterações vasculares decorrentes do hábito de fumar10.

As análises uni e multivariadas, desenvolvidas neste estudo, também não evidenciaram relação entre antecedente familiar de diabete e macrossomia fetal. A American Diabetes Association (ADA)5 orienta que a presença de diabete em parentes de primeiro grau, pai, mãe e irmãos, representaria risco para o diabete gestacional. No protocolo do Serviço são considerados, além destes, avós, primos e tios diretos (irmãos dos pais)4. A inclusão dos parentes de segundo grau deve ter influenciado na comparação dessa variável. Ainda, as dificuldades das gestantes em fornecer corretamente as informações, como nos casos de adoção ou quando referem familiares sem parentesco genético, sub ou superestimam os antecedentes familiares, interferindo nos resultados.

Os antecedentes obstétricos e pessoais de diabete foram relacionados à macrossomia fetal na análise univariada. Apesar disso, quando associados a outras variáveis na análise multivariada, somente a macrossomia prévia (OR=2,4) e a referência de diabete ou hiperglicemia diária em gestações anteriores (OR=1,6) confirmaram-se como fatores indicadores para este desfecho. Merece destaque o risco aumentado para a recorrência de macrossomia aqui observado. Em outras palavras, a mãe de um filho macrossômico tem duas vezes e meia mais chance de ter outro filho com esta complicação.

Alguns fatores devem ser considerados na explicação desse resultado. A influência do genótipo fetal, presente em gestações subseqüentes de um mesmo casal, é característica responsável por aproximadamente 15% das variações no peso ao nascimento, com papel predominante no início da gestação14. Neste período desenvolvem-se os tecidos não dependentes de insulina, em especial os ossos longos, determinando variações nos padrões do crescimento fetal25. Além disso, o critério de inclusão no estudo, gestantes portadoras de diabete ou hiperglicemia diária4,20, facilita a persistência de alterações metabólicas no meio intra-uterino em gestações sucessivas, contribuindo para a recorrência do crescimento fetal exagerado.

A literatura tem reforçado a idéia de que a hiperglicemia de intensidade variada, a despeito da confirmação do diabete gestacional, está envolvida na determinação do peso ao nascimento4,20. A hiperglicemia diária, identificada por alterações no perfil glicêmico, foi confirmada em 62,4% e o diabete gestacional, diagnosticado por alterações no TTG 100 g, correspondeu a apenas 15,5% do total de mães de 315 recém-nascidos macrossômicos avaliados em nosso Serviço12. O estudo populacional HAPO (hyperglycemia and adverse pregancy outcome), ainda em desenvolvimento, alerta para a interação da hiperglicemia de graus variados com o prognóstico perinatal adverso, incluindo aumento das taxas de cesárea, macrossomia fetal, hipoglicemia neonatal e hiperinsulinismo fetal, a despeito da presença do diabete gestacional26.

Determinados aspectos continuam sem definição, entre eles, o grau de influência e o momento em que a glicemia materna exerce seu efeito mais importante no crescimento fetal4,10,11,19,20. Os resultados deste trabalho demonstraram que o controle glicêmico adequado no terceiro trimestre da gestação se relacionou à menor ocorrência de macrossomia, confirmado pelo risco aumentado, em quase duas vezes, quando a MG foi mantida em limites mínimos de 130 mg/dL16,20.

A influência dos níveis de glicemia no jejum ou no pós-prandial sobre o crescimento fetal exagerado continua sem definição. De acordo com alguns autores, a glicemia materna de jejum deve ser considerada para sinalizar a aceleração do crescimento fetal no terceiro trimestre25. Outros autores consideram que os níveis pós-prandiais são os melhores indicadores de macrossomia fetal2,7,11. Os resultados deste trabalho demonstraram que maior proporção de mães de recém-nascidos macrossômicos tinha média glicêmica pós-prandial no terceiro trimestre superior a 130 mg/dL, mas a análise de regressão multivariada não confirmou o risco independente desta variável. A média glicêmica de jejum, avaliada no terceiro trimestre, não foi significativa em qualquer tipo de análise estatística e, portanto, não representou risco para a ocorrência de macrossomia fetal.

Ser portadora de diabete é risco para macrossomia fetal4,5,12,20 e, por várias décadas, a hipótese de Pedersen, relacionando hiperglicemia materna e hiperinsulismo fetal, tem explicado a fisiopatologia da macrossomia nessas gestações específicas. Neste trabalho, a presença de diabete, gestacional ou clínico, não diferenciou a população de mães de recém-nascidos macrossômicos e não macrossômicos. Por outro lado, maior proporção de mães de recém-nascidos macrossômicos foi classificada nos grupos IIA e IIB de Rudge, correspondentes às classes de diabete gestacional e clínico de P. White, e menor proporção delas, no grupo IB, caracterizado por perfil glicêmico alterado e TTG 100 g normal. Apesar disto, a análise multivariada não confirmou risco independente para macrossomia, relativo ao tipo de diabete ou ao diagnóstico de hiperglicemia diária.

O tratamento instituído no Serviço, indiferenciado para qualquer tipo de diabete ou mesmo para hiperglicemia diária, tem como meta a normoglicemia materna associada a ganho de peso e crescimento uterino adequados4,20. Tal conduta deve ter influenciado positivamente, modulando o crescimento fetal. A manutenção da glicemia materna em níveis inferiores a 120 mg/dL, ainda que só confirmada no terceiro trimestre da gestação, corrigiu a hiperglicemia do meio intra-uterino e preveniu a macrossomia. Reforça este raciocínio a constatação de que a MG >120 mg/dL no terceiro trimestre definiu risco aumentado, em quase duas vezes, para a ocorrência de tal complicação. Este resultado atesta a qualidade do controle glicêmico materno do Serviço e a validade da manutenção da normoglicemia intra-uterina para prevenção de efeitos perinatais adversos.

Este estudo, exclusivo da população de gestantes portadoras de diabete, gestacional ou clínico, ou de hiperglicemia diária, confirmou que o GP materno superior a 16 kg, o IMC pré-gravídico mínimo de 25 kg/m2, a MG do terceiro trimestre mantida no limite de 120 mg/dL, o antecedente pessoal de diabete e a macrossomia prévia representaram risco para a ocorrência de macrossomia fetal. O IMC pré-gravídico e os antecedentes de diabete ou de macrossomia fetal não dependeram diretamente do protocolo terapêutico do Serviço. O GP materno e a MG do terceiro trimestre foram fatores de risco diretamente relacionados à terapêutica instituída e, portanto, passíveis de controle.

Tais resultados validaram os limites de GP (<16 kg) e da MG do terceiro trimestre (<120 mg/dL), e reforçaram o benefício do IMC menor que 25 kg/m2 no período pré-concepcional. Estas orientações devem ser apresentadas à população de gestantes portadoras de diabete clínico ou com risco potencial de diabete gestacional ou hiperglicemia diária, para prevenir não só a macrossomia fetal, mas todas as complicações dela decorrentes.

 

Referências

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Correspondência:
Luciane Teresa Rodrigues Lima Kerche
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Recebido em: 3/10/2005
Aceito com modificações em: 17/11/2005

 

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