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Clínica médica/Intensiva/Enfermagem

Leia sobre Técnicas de atendimento emergencial

11/10/2006
Grupo consolida uma década de experiência no atendimento psicológico a emergências decorrentes de desastres aéreos. Equipe coordenada por professora da PUC-SP atende parentes das vítimas do acidente com Boeing da Gol



Por Fábio de Castro

Agência FAPESP - O impacto de um desastre aéreo como o do vôo 1907 da Gol, que caiu no mês passado em Mato Grosso, matando 154 pessoas, não se limita às vítimas fatais. Parentes e pessoas próximas dos passageiros passam por uma situação de luto traumático que demanda atendimento psicológico altamente especializado.

Logo após o acidente, a empresa, que é obrigada pela legislação a fornecer tal tipo de atendimento, convocou a principal especialista do país nesse tipo de trabalho, Maria Helena Pereira Franco, professora titular do Departamento de Psicodinâmica da Faculdade de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e coordenadora de um grupo de intervenções psicológicas de emergência.

Segundo Maria Helena, estudos apontam que 75% das pessoas expostas a situações traumáticas podem apresentar distúrbios psíquicos e complicações associadas como depressão, ansiedade, fobia e abuso de drogas e álcool.

“Cada um enfrenta o trauma com os recursos de que dispõe. As pessoas podem ter reações violentas, raiva ou necessidade de achar um culpado. Há também reações típicas, como uma intensa angústia diante de situações que lembrem desastre, ansiedade, sensações físicas, sensação de pânico, diminuição do interesse em atividades rotineiras ou sensação de estranhamento diante de outras pessoas”, disse Maria Helena à Agência FAPESP.

O grupo da PUC-SP se reúne mensalmente desde sua formação, em 2001, para discutir técnicas de intervenção e aprofundar pesquisas originadas no Laboratório de Estudos e Intervenções sobre Luto (Lelu). O trabalho do laboratório começou em 1996 e seus integrantes atuaram nos casos da explosão de um shopping em Osasco (SP) e de um desastre aéreo envolvendo um avião da TAM, em São Paulo, no mesmo ano.

“Fomos a campo e logo identificamos a necessidade de que o trabalho saísse do cenário tradicional do psicólogo clínico. Muitas vezes atendíamos pessoas sentadas na calçada do Instituto Médico Legal, por exemplo. A partir dessa experiência, começamos a estudar e a sistematizar o trabalho, desenvolvendo especificidades para esse tipo de intervenção”, disse Maria Helena.


Cada caso é um caso

As técnicas de atendimento emergencial desenvolvidas nos últimos dez anos pelo grupo da PUC-SP estão descritas no artigo Atendimento psicológico para emergências em aviação: a teoria revista na prática, publicado em 2005 na revista Estudos de Psicologia - UFRN (Natal).

No artigo, assinado por Maria Helena, a autora ressalta a necessidade de uma nova postura para o psicólogo, de modo a se adaptar às particularidades de cada caso. “Não há dois desastres iguais e cada pessoa assimila o trauma de acordo com seu histórico. Por isso, há necessidade de flexibilidade na atuação”, escreveu. Segundo o estudo, a intervenção não pode tentar modificar o padrão de personalidade da pessoa em crise. É necessário perceber a configuração da situação particular, levando-se em conta as condições individuais.

“A pessoa enlutada em condições traumáticas está fragilizada e precisa de acolhimento. O que norteia nossa prática é o cuidado para não fazer com que a pessoa pare de sofrer rapidamente, pois isso seria um mecanismo de obstrução de sua reação, com conseqüências graves. Tomamos cuidado para não evitar o assunto”, escreveu Maria Helena.

Além de parentes, profissionais de companhias aéreas, jornalistas e outros envolvidos em acidentes podem precisar de atendimento. A própria equipe de psicólogos, segundo Maria Helena, atua exposta a situações de estresse e também pode apresentar reações emocionais. “Às vezes, pessoas da equipe mal conseguem dormir. Mas é também um trabalho gratificante, porque aplaca a dor dos atendidos”, disse à Agência FAPESP.

No caso do desastre com o avião da Gol, a maior parte do atendimento está sendo feita em hotéis de Brasília, onde a empresa alojou parentes das vítimas. Cerca de 300 pessoas esperam o reconhecimento dos corpos na capital federal. “Em muitos casos, os parentes não puderam viajar, inclusive por motivo de saúde. Por isso a equipe também está presente em João Pessoa (PB), Santa Maria (RS), São Carlos (SP), Belo Horizonte (MG), Vitória (ES), Cachoeiro do Itapemirim (ES) e outras cidades”, disse Maria Helena.

Para ler o artigo Atendimento psicológico para emergências em aviação: a teoria revista na prática, na biblioteca on-line SciELO (Bireme/FAPESP), clique aqui.

http://www.agencia.fapesp.br/boletim_dentro.php?id=6197


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