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Álcool

Grau de Conscientização do Usuário de Álcool e Tabaco quanto ao Risco de Desenvolvimento de Câncer

19/03/2007

Sergio Altino Franzi, Ali Amar, Marcos Brasilino de Carvalho, Carlos Neutzling Lehn, Abrão Rapoport

Resumo: Com o objetivo de avaliar o grau de conscientização de usuários de álcool e tabaco quanto ao risco de desenvolvimento de câncer de vias aerodigestivas superiores, 27 membros do Grupo de Apoio dos Alcoólicos Anônimos de São Paulo, foram submetidos a um questionário específico. Foram avaliadas as escolaridades, idade de início do hábito, presença de hábito na família, relação entre o hábito e local afetado. A idade de início do consumo para tabaco e álcool foi aos 10 e 12 anos, respectivamente. Setenta e oito por cento dos pais fumavam e 63% das mães não fumavam. O pulmão (81,4%) e a boca (56%) foram indicados como locais afetados pelo tabaco e o fígado (30%) e estômago (22%) pelo álcool. A precocidade do início do uso de álcool e tabaco, assim como a influência familiar, reforça a idéia de campanhas de prevenção dirigidas ao público adolescente.

Abstract: the assessment of the degree of awareness of users of alcohol and tobacco for the risk of development of cancer of the upper aero digestive tract for 27 members of the Group of Support and Motivation of the Association of anonimous Alcoholic of São Paulo, were submitted to a specific questionnaire. They were appraised on the education, the beginning age of the habit, presence of the habit in the family, relationship between the habit and affected sites. The ages of consumption beginning for tobacco and alcohol were 10 and 12 years, respectively; 78% of the fathers were tobacco users and 63% of the mothers were not. The lung (81,4%) and the mouth (56%) were indicated as affected places by the tobacco and the liver (30%) and the stomach (22%) by the alcohol. The precocity of the beginning of alcohol and tobacco use and the family influence reinforces the need of prevention campaigns addressed to the adolescent public.

Palavras-chave: câncer, alcoolismo, tabagismo, câncer das vias aerodigestivas superiores Key words: cancer, alcohol addiction, tobacco addiction, cancer of the upper aero digestive tract

Introdução

Há quinze anos o Serviço de Cirurgia de Cabeça e Pescoço do Hospital Heliópolis, realiza anualmente campanha de diagnóstico precoce do câncer de vias aerodigestivas superiores, em usuários de álcool e ou tabaco, através das Sociedades de Apoio e Motivação nos participantes de Grupos de Alcoólicos Anônimos de São Paulo. Estes pacientes apresentam alto risco de desenvolverem câncer de vias aerodigestivas superiores e, segundo Ostroff e cols., aqueles que continuam a utilizar o tabaco e ou álcool, tratados ou não, em ambos os casos, apresentam maior probabilidade de desenvolverem tumor primário, recorrência deste tumor primário ou mesmo um segundo tumor, em relação àqueles que deixaram definitivamente essas substâncias1. Portanto, o tratamento de pacientes portadores de câncer de cabeça e pescoço está intimamente relacionado com aspectos biopsicosociais e comportamentais. Portanto, o ponto fundamental é a conscientização através da informação, levando os pacientes a uma melhor colaboração e aderência junto à equipe multidisciplinar, com intuito de obtermos melhores resultados no seguimento desses pacientes 2.

O trabalho de conscientização para a promoção de combate ao uso de tabaco e álcool na prevenção primária da saúde representa uma importante tarefa tanto para os profissionais da saúde quanto para os leigos, levando a um significante impacto na saúde pública, ajudando no combate do uso dessas substâncias 3. Dentre os carcinógenos potenciais relacionados com neoplasias da cabeça e pescoço, o álcool e/ou tabaco atuam como agentes promotores e efetores, na gênese do carcinoma epidermóide nessa região anatômica. O objetivo deste estudo foi avaliar o quanto esses usuários de álcool e ou tabaco estão orientados ou conscientes do risco de desenvolverem câncer.

Oferecemos a oportunidade dessas pessoas responderem a algumas questões em forma de perguntas simples e objetivas e de livre consentimento pós-informado (com finalidade de avaliar o grau de conscientização nesse grupo de risco), pois segundo Perine & Schare em 1999, a educação e informação aos usuários de tabaco a respeito dos riscos e efeitos maléficos ao organismo, foram efetivos no sentido de mudança de pensamento e de comportamento frente a este problema 4.

Embora a maioria dos usuários de tabaco e álcool deseje parar de fumar e beber, as taxas de prevalência quanto ao uso dessas substâncias apresentaram-se relativamente as mesmas durante a década de 90, mesmo frente a uma redução de 50% na prevalência observada nestas últimas três décadas. Além disso, embora a maioria dos fumantes deseje parar de fumar, uma média de 25,5 % destes continuam tabagistas 5. Portanto, a necessidade de maiores informações sobre o grau de conscientização do usuário de álcool e ou tabaco quanto ao risco de câncer nos levou à realização deste estudo. Esses grupos de usuários aceitaram participar desta pesquisa e em nenhum deles foram diagnosticadas lesões pré-malignas do tipo leucoplasia e ou eritroplasia ou mesmo lesões malignas

Casuística e Método

Estudo prospectivo de 27 usuários de álcool e ou tabaco, oriundos do Grupo de Apoio e Motivação dos Alcoólicos Anônimos de São Paulo – Capital, convidados a participar da Prevenção do Câncer de Vias Aerodigestivas Superiores, realizada pelo Serviço de Cirurgia de Cabeça e Pescoço do Hospital Heliópolis – São Paulo, no dia 22 de Setembro de 2001, no período das 9:00 às 13:00 horas.

Inicialmente os usuários foram orientados a respeito da pesquisa assim como a demonstração do questionário contendo 10 perguntas, sendo ressaltada a não obrigatoriedade das respostas. Houve consentimento informado de todos os participantes. Após as entrevistas, foi realizada aula expositiva sobre o tema câncer de boca e orofaringe, abordando as causas, evolução da doença, diagnóstico diferencial, tratamento e complicações. Os participantes foram então encaminhados à sala de exame locorregional no ambulatório, onde tivemos como objetivo a avaliação de rinoscopia anterior, oroscopia e laringoscopia indireta.

Resultados

A idade variou de 31 a 81 anos com média de 55,4 anos. Do total de 27 usuários, 26 ( 93,4 %) eram homens e 1 (3,7%) mulher. Encontramos 14 (51,8 %) usuários que freqüentaram o 1º grau (fundamental), seguido de 8 (29,6 %) que tinham o 2º grau (médio) completo ou incompleto, 2 (7,4 %) usuários referiram ter completado o 3º grau (superior) e 3 (11,1%) usuários não souberam responder. Em relação à idade em que iniciou o uso de álcool e ou tabaco, observamos que os mais jovens foram os que utilizaram tabaco em média aos 10 anos de idade em relação aos usuários de álcool que tiveram início em torno dos 12 anos de idade (Tabela 1).

A influência da família no uso de álcool e ou tabaco foi abordada através do referencial pai, mãe e irmão(s), sendo que o uso de tabaco foi mais freqüente nos pais (78%) e irmão(s) (63%); as mães não fumavam em 63% dos casos. Em relação ao uso de álcool, observamos a mesma porcentagem de mães que não bebiam (63%) e menor porcentagem de pais que bebiam (41%) em relação aos fumantes e também menor porcentagem (52%) do(s) irmão(s) que bebiam em relação aos que fumavam (Tabela 2).

Observamos que 26 (96,3%) desses usuários de bebida alcoólica e ou tabaco, relataram que essas substâncias fazem mal à saúde deles e também podem favorecer o aparecimento de câncer.

Em relação ao sítio anatômico do organismo que pode levar ao aparecimento do câncer pelo uso do álcool, observamos que 33,4% não souberam relatar alegando desconhecimento, porém, 25,9% apontaram o fígado e o estômago como os sítios mais freqüentes de aparecimento. Em relação aos usuários de tabaco, as questões respondidas, 55,6% causavam câncer de boca e 81,4% no pulmão (Tabelas 3 e 4). Quanto à questão referente à cura do câncer, observamos que 16 (59,2%) desses usuários acreditam nessa possibilidade de cura, 9 (33,4%) não acreditam e 2 (7,4%) não souberam responder.

Discussão

Neste estudo observamos que a idade média dos pacientes que procuram ajuda e apoio especializado no tratamento do alcoolismo, está em torno de 55,4 anos, indicando que nas faixas etárias mais jovens não foram adequadamente orientados ou principalmente, melhor informados em relação à prevenção e causas de câncer.

Um segundo ponto a ser discutido é a presença maciça de usuários do gênero masculino em relação ao feminino, o que pode predizer que há ainda uma inibição das próprias mulheres quanto à necessidade de participação em grupos de apoio e motivação para o combate ao uso do álcool e ou tabaco, constituindo-se numa grande preocupação, pois a incidência de usuárias de álcool e tabaco está em crescimento acentuado nessas últimas três décadas (o que pode ser um agravante psicossocial, pois ainda essas usuárias sofrem a falta de apoio especializado e vivem às custas de sua própria ajuda ou dos entes mais próximos, para mantê-las em sua atividade profissional ou social). Aliado a esses dois grandes problemas, a idade média elevada e a falta da participação feminina, observamos também que a grande maioria (51,8%) dos usuários freqüentou somente o 1º grau (fundamental) e somente 7,4% referiram ter completado o 3º grau (superior), o que nos leva a pensar que a maioria dos usuários que cursaram o ensino fundamental não foram orientados adequadamente ou mesmo informados a respeito da prevenção e causas de câncer e principalmente fatores promotores e efetores que causam essa doença, tais como álcool e tabaco. Dos usuários que freqüentaram o 2º grau (ensino médio), 29,6% referem que o ensino sobre o câncer foi discreto e com pouca ênfase sobre a prevenção e cuidados com o álcool e tabaco. Apesar da pequena amostra em relação aos usuários que completaram o 3º grau (superior) e a conseqüente pouca adesão ao grupo de ajuda e apoio, é para nós motivo de grande preocupação, pois segundo esses usuários a informação a respeito do álcool e tabaco desencadeando o câncer foi pouco informada. Assim, o menor grau de escolaridade mostrou que o uso do tabaco foi mais precoce em relação ao uso do álcool, talvez em razão da facilidade de aquisição do tabaco ou relacionado à influência da família, que nesse caso tivemos nos pais e irmãos tabagistas a maior porcentagem dos pacientes (média de 70%). Encontramos em média cerca de 46% dos participantes que referiram que o uso de bebida alcoólica teve influência da família, principalmente quando relacionado ao pai e ou irmão. Nesse ambiente, onde cerca de 63% das mães não fumavam e nem bebiam, observamos que não houve orientação a respeito das causas de câncer e conseqüências do uso do álcool e tabaco. O grau de conscientização em relação aos malefícios do uso do tabaco e álcool é referido pela grande maioria dos usuários e principalmente a possibilidade de aparecimento de câncer, o que reflete maior informação desse grupo de risco. É interessante saber que apesar de 96,3% desses usuários afirmarem que tabaco e o álcool podem causar o câncer, 33,4% não sabiam quais órgãos poderiam ser comprometidos pelo câncer através do uso do álcool e tabaco e 25,9% citaram o fígado e estômago como principais localizações. A maioria dos usuários deste estudo acredita que o uso do tabaco pode levar ao câncer de pulmão e 56% citaram a boca como segundo sítio anatômico mais freqüente de aparecimento. Segundo, Wald & Hackshaw (1996), o tabaco pode causar câncer em vias aerodigestivas superiores, vesícula biliar, pâncreas, esôfago, estômago, rim, respondendo por cerca de 20 % de todas as mortes nos países desenvolvidos 6. Entretanto, cerca de 52 % dos usuários de álcool apontaram o fígado e o estômago como os sítios anatômicos mais freqüentes de aparecimento de câncer. Diferentemente de nossos achados, Adewole (2002), relata que o consumo de álcool está relacionado com a etiologia do câncer oral, principalmente em soalho de boca, língua e mucosa oral, em relação ao uso do tabaco, relacionando estes achados a uma especificidade de sítios na etiologia deste tipo de câncer 7.

Cinqüenta e nove porcento dos usuários acreditam que o câncer tem cura, principalmente quando diagnosticado precocemente e tratado adequadamente. Porém, quando somamos os usuários que não acreditam na cura do câncer aos que não souberam decidir, observamos um total de 40,8% desses usuários, o que significou para um grupo de risco (27 participantes) que são acompanhados freqüentemente pelos grupos de apoio e da prevenção (anualmente) um baixo grau de conscientização e principalmente de informação.

Conclusões

A faixa etária dos entrevistados corresponde à faixa de maior incidência de neoplasias malignas de vias aerodigestivas superiores, assim como a predominância do gênero masculino. O grau de escolaridade do grupo pode explicar a falta de conhecimento a respeito dos locais mais prováveis de aparecimento de neoplasias malignas relacionadas ao uso de álcool e tabaco. A precocidade do início do uso de álcool e ou tabaco, aliado à forte presença destes hábitos no ambiente familiar, reforça a idéia de que as campanhas de prevenção devam ser direcionadas aos adolescentes, muito mais do que aos adultos, quando os hábitos já se tornaram mais arraigados e associado ao baixo grau de conscientização.

Bibliografia Recomendada

1 Ostroff JS, Jacobsen PB, Moadel AB, Spiro RH, Shah JP, Strong EW, Kraus DHSchantz SP. Prevalence and predictors of continued tobacco use after treatment ofpatients with head and neck cancer. Cancer 1995; 15; 75(2): 569-76.

2 Mant J, Winner S, Carter J, Wade DT. Informed consent. Patients’ knowledge that they are participating in trial may not bias results.BMJ 1997, 26;315(7102):252-3. Comment on: BMJ 1997; Apr 12;314(7087):1071-6; discussion 1076-7.

3 Pine D, Sullivan S, Conn SA, David C. Promoting tobacco cessation in primary care practice. PRIM CARE 1999; 26(3): 591-610.

4 Perine JL, Schare ML Effect of counselor and client education in nicotine addiction on smoking in substance abusers. Addict Behav 1999; 24(3): 443-7.

5 Cinciripini PM, Wetter DW, McClure JB. Scheduled reduced smoking: effects on smoking abstinence and potential mechanisms of action. ADDICT BEHAV 1997; 22(6): 759-67.

6 Wald NJ, Hackshaw AK. Cigarette smoking: an epidemiological overview. BR MED BULL 1996; 52(1) 3-11.

7 Adewole RA. Alcohol, smoking and oral cancer. A 10-year retrospective study at Base Hospital, Yaba. WEST AFR J MED 2002;21(2): 142-5.

Autores:

Abrão Rapoport – Coordenador do Curso de Pós-Graduação
em Ciências da Saúde do Hospital Heliópolis
Marcos Brasilino de Carvalho – Diretor das Clínicas
Cirúrgicas do Hospital Heliópolis
Carlos Neutzling Lehn – Chefe do Serviço de Cirurgia de
Cabeça e Pescoço do Hospital Heliópolis
Ali Amar – Assistente do Serviço de Cirurgia de Cabeça e
Pescoço do Hospital Heliópolis
Sergio Altino Franzi – Cancerologista (TSBC / SBCCP)
Correspondência:
Rua Cônego Xavier, nº 276 – 10º andar
Curso de Pós-Graduação em Ciências da Saúde
Hospital Heliópolis Bairro Sacomã – São Paulo SP
CEP: 04231-030 – Tel. 274-7600 ramal 157 ou 121
e-mail: cpgcp.hosphel@attglobal.net.

 http://www.rsbcancer.com.br/rsbc/23_Pag_grau.asp?nrev=Nº 23&Pag=


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