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Tóxicos/Intoxicações

Atenção integral à pessoa intoxicada: a experiência do centro de controle de intoxicações de Maringá - Pr

20/03/2008

ATENÇÃO INTEGRAL À PESSOA INTOXICADA: A EXPERIÊNCIA DO CENTRO DE CONTROLE DE INTOXICAÇÕES DE MARINGÁ - PR

Adaelson Alves Silva[1],

Ana Carolina Mama Bellasalma1,

Ana Maria Itinose[2],

Ellen Cristina Santana Aleixo1,

Magda Lúcia Félix de Oliveira[3],

Miguel Machinski Junior[4],

Paula Nishiyama4.

 

 

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RESUMO

Este trabalho foi desenvolvido com o objetivo de relatar a experiência do Centro de Controle de Intoxicações de Maringá - Paraná, referente as múltiplas faces de abordagem do fenômeno da intoxicação: diagnóstico, tratamento e acompanhamento das pessoas com suspeita e/ou intoxicados pelas diversas substâncias químicas presentes no cotidiano da população; toxicovigilância; educação para a saúde e produção de conhecimento. Pretende-se, com esta divulgação, demonstrar formas de atuação interdisciplinar, a fim de possibilitar atendimento integral à pessoa através do enfoque biopsicossocial, respeitando a sua individualidade e contextualização.

 

Unitermos: Intoxicação, Equipe multiprofissional, Controle de intoxicações, Assistência toxicológica.

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ABSTRACT

This work was developed with the objective of telling the experience of the Poison Control Center of Maringá, referring to the multiple faces of approach of the poisoning phenomenon: diagnosis, treatment and follow up of the people with suspicion and/or intoxicated by several chemical substances present in the daily of the population; toxicovigilance; education for the health and knowledge production. It is intended to demonstrate interdisciplinary performance forms, in order to make possible integral attendance to the person through the bio-psycho-social approach, respecting its individuality and context.

 

Key words: Poisoning, Multiprofessional team, Control of poisonings, Toxicological assistance.


1. As Intoxicações no Contexto da Saúde Pública

 

            Em decorrência do progresso tecnológico que se iniciou na Segunda Guerra Mundial houve, nos últimos anos, o surgimento de uma diversidade de novas substâncias químicas. Atualmente são conhecidas mais de dez milhões de substâncias químicas diferentes e estima-se que aproximadamente cem mil novos compostos químicos sejam sintetizados por ano (RIBEIRO & LACAZ, 1984). Estes produtos são colocados no mercado, sendo utilizados cotidianamente por toda a população, sem que a mesma seja informada dos riscos e formas corretas de manuseio e armazenamento (ZAMBRONE, 1992).

            Este constante incremento do volume e diversidade dos produtos químicos cria uma probabilidade crescente e significativa de acidentes químicos, ocasionando reflexos importantes na saúde pública e ambiental, tornando as intoxicações um agravo de importância médico-epidemiológico e social (FORGET, 1989).

            O Ministério da Saúde implantou em 1980 o Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas - SINITOX, vinculado à Fundação Oswaldo Cruz, como um sistema de informação de abrangência nacional. Entre as finalidades deste Serviço destacam-se a assessoria no fornecimento de informações, divulgação e notificação dos casos de exposição e/ou intoxicação pelos vários agentes tóxicos presentes em nosso meio ambiental e a consolidação dos dados de ocorrência de intoxicações em nível nacional.

            O SINITOX é composto por vários Centros de Assistência Toxicológica, que tem a função de assessorar os serviços de saúde na identificação e no tratamento dos casos de intoxicações, através de orientações para diagnósticos e tratamentos precisos e suporte laboratorial adequado, denominada de Rede SINITOX.

            Em 1996, o país contava com uma rede de 30 Centros em atividade, localizados em 16 estados, que integravam a rede nacional. Na Região Sudeste, estão concentrados a maioria dos Centros (46,7%), devido à alta concentração populacional e às atividades econômicas desenvolvidas nos setores industrial, comercial e agropecuário nesta Região.

            No Estado do Paraná, o Centro de Controle de Intoxicações de Maringá (CCI-Maringá) iniciou suas atividades em abril de 1990, sendo o terceiro Centro implantado no Estado. Esta implantação foi justificada pelo fato da cidade de Maringá ser um ponto de convergência do atendimento médico-hospitalar da Região Noroeste do Estado do Paraná, pela inexistência de um sistema que integralizasse de forma adequada as notificações das intoxicações e pela inexistência de um Centro de Controle de Intoxicações (CCI) neste Estado que objetivasse não apenas fornecer informações sobre a toxicidade dos agentes tóxicos, mas que priorizasse o atendimento da pessoa intoxicada na sua totalidade.

 

2. Caracterizando o Centro de Controle de Intoxicações de Maringá

 

            Localizado nas dependências do Hospital Universitário Regional de Maringá, o CCI-Maringá atende em regime de plantão permanente, servindo como fonte de informações aos profissionais dos serviços de saúde da Maringá e região, atuando como órgão de assessoria e consultoria na área de urgência e emergência toxicológica.

            No decorrer dos 9 anos de existência, o CCI-Maringá ampliou seus serviços, cumprindo metas anuais estabelecidas pela equipe, sempre com a preocupação de oferecer uma atendimento integral e qualificado às pessoas intoxicadas, seus familiares e aos profissionais de saúde que buscam o serviço como referência para as informações toxicológicas.

            Considerando que as intoxicações representam um fenômeno complexo, o que exige uma ação interdisciplinar e intersetorial a partir dos serviços de saúde, a constituição de uma equipe interdisciplinar do CCI-Maringá teve por objetivo visualizar a pessoa não apenas a partir do quadro sintomático, dicotomizado, mas reconhecê-la e tratá-la como ser integral através do enfoque biopsicossocial e ampliar o espaço de intervenção na sociedade (SHERER & CAMPOS, 1997).

            O trabalho em equipe interdisciplinar é caracterizado pela atuação de profissionais, cada qual possuidor de seus próprios conhecimentos, atuando num sistema integrado e coordenado, no qual estabelecem-se discussões para uma intervenção estruturada, avaliada e planejada, pressupõe a existência de troca, socialização e crescimento da equipe, resultando em uma assistência integralizada à pessoa e sua família.

            A equipe interdisiciplinar do CCI-Maringá é composta atualmente por dois médicos, duas enfermeiras, quatro farmacêuticos-bioquímicos, um psicólogo, dois biólogos e vinte e dois acadêmicos dos cursos de graduação de Enfermagem, Farmácia, Medicina, Psicologia e Direito.

            A constituição desta equipe possibilitou o desenvolvimento das seguintes atividades: fornecimento de informações toxicológicas; constituição de um sistema de Toxicovigilância; realização de análises toxicológicas; manutenção do banco de soros e antídotos; implantação de serviços ambulatoriais: Ambulatório de Saúde do Trabalhador, Ambulatório de Toxicologia, Ambulatório de Psicologia, Ambulatório de Toxicologia Infantil; identificação de plantas tóxicas e animais peçonhentos; visitas domiciliares aos pacientes egressos de intoxicações; investigação das suspeitas de reações adversas a medicamentos e acompanhamento de pacientes internados.

            Além disso, a integração entre os profissionais proporcionou um incremento de atividades de divulgação e ação educativa, atividades científicas, de assessoria e consultoria multidisciplinares, tornando o CCI-Maringá uma referência regional. A produção técnico científica cresceu paralelamente à titulação da equipe técnica, hoje composta por três doutores, dois doutorandos, três mestres, um mestrando, um especialista e um graduado. O banco de dados do CCI-Maringá já serviu de referência para dissertações de mestrado, monografias de especialização e monografias de cursos de graduação.

            Desde 1990, os dados de atendimento são coletados, tabulados e armazenados para estudo e avaliação. Os dados de atendimento representam uma fonte importante para a avaliação da realidade dos acidentes tóxicos na Região Noroeste do Paraná, da qual a maioria dos casos são originários.

            No período de 1991-1998, o CCI-Maringá atendeu 16.586 casos, com aumento significativo de atendimentos no ano de 1998:  20% em relação ao ano anterior. Tal fato pode ser decorrente do aumento do número de profissionais com dedicação exclusiva ao Centro, melhorando a captação e notificação de casos dos serviços de saúde (OLIVEIRA & ITINOSE, 1998)

 

3. O Processo de Atendimento

 

            O fornecimento de informações toxicológicas constitui a porta de entrada de pessoas intoxicadas no CCI-Maringá, quando são registradas no Serviço e atendidas, através da informação ao profissional que as assiste diretamente, em seu episódio de intoxicação.

            O atendimento compreende a orientação sobre o agente causal da intoxicação – sinais e sintomas da exposição aguda ou crônica e tratamento – complementado com a sugestão de antídotos ou soros anti-peçonhentos, se necessário; para casos indicados é garantido a análise toxicológica de urgência, que é realizado de forma precisa, confiável e em curto intervalo de tempo.

            Além das análises de urgência, o Laboratório de Análises Toxicológicas oferece à comunidade, análises de monitorização terapêutica para alguns medicamentos; monitorização biológica de chumbo, agrotóxicos, tintas e solventes; análises de drogas de abuso, contribuindo de forma significativa, na qualificação do diagnóstico e monitoramento dos casos de intoxicação.

            Animais peçonhentos e plantas, quando trazidos ao Serviço, são encaminhados para confirmação da identificação, a partir das seguintes situações: ocorrência de acidentes, quando a identificação é primordial para a confirmação diagnóstica e solicitação da Vigilância Sanitária do Município ou da população em geral, para estabelecer diferenças entre peçonhentos e não peçonhentos.

            Esta primeira etapa do atendimento desencadeia ações de acompanhamento dos casos, nos seguintes serviços:

·        Ambulatório de Toxicologia: - iniciado em 1991, com o objetivo de realizar acompanhamento da evolução clínico-laboratorial das pessoas intoxicadas, é também um espaço para a realização de atividades de educação para a saúde e prevenção das futuras intoxicações. A clientela é composta por egressos de acidentes toxicológicos com idade acima de 14 anos, independente do agente causal e da circunstância do acidente.

·        Ambulatório de Saúde do Trabalhador: - em atividade desde 1993, tem como finalidade atender trabalhadores com suspeita de intoxicação ocupacional, principalmente por chumbo inorgânico, agrotóxicos, tintas e solventes. Funciona integrado à Vigilância Sanitária do Município de Maringá - área de Saúde do Trabalhador.

·        Ambulatório de Psicologia: - em atividade a partir de 1998, atende pessoas egressas de tentativas de suicídio por substâncias químicas, em abordagem de conteúdo preventivo e educativo, colaborando para que não ocorra reincidência do ato. Está previsto intervenção junto aos familiares que acompanham a pessoa intoxicada.

·        Ambulatório de Toxicologia Infantil: - em fase de implantação, possui a finalidade de acompanhamento do quadro clínico-laboratorial de crianças (0 a 14 anos incompletos) que se intoxicaram pelas diversas substâncias químicas e circunstâncias. Visa a educação para a saúde e a prevenção de futuras intoxicações.

 

            Estão previstos ainda acompanhamento de pessoas intoxicadas e seus familiares, através de atividades domiciliares e nos hospitais, no caso de internações:

·        Programa de Visita Domiciliar aos Egressos de Intoxicações: - este serviço funciona como um projeto de extensão universitária desde 1992, executado por discentes do curso de graduação de Enfermagem, contribuindo para a não incidência de novos casos de intoxicações e o desenvolvimento do auto-cuidado, a partir de atividades educativas que levem sempre em consideração o contexto sócio-econômico-cultural da pessoa e sua família. São priorizadas as intoxicações infantis e as tentativas de suicídio.

·        Programa de Investigação das Suspeitas de Reações Adversas a Medicamentos: - iniciado em 1996 como projeto de extensão proposto por discentes do curso de graduação de Farmácia, tem como objetivo, detectar, investigar e acompanhar as suspeitas de reações adversas registradas no Hospital Universitário Regional de Maringá. São realizadas visitas domiciliares às famílias das pessoas que manifestaram reação adversa ao medicamento, para acompanhamento e orientação quanto ao uso e armazenagem dos medicamentos.

·        Acompanhamento de Pessoas Internadas nos Municípios de Maringá e Sarandi: - esta atividade está sendo realizada a partir deste ano, voltada para a orientação da equipe que assiste o paciente, visando adequar a prescrição dos profissionais de saúde; corrigir as oportunidades perdidas de análises toxicológicas e atuar junto à pessoa internada e família, principalmente para encaminhamento aos ambulatórios do CCI - Maringá.

 

            As atividades acima descritas demostram que o trabalho interdisciplinar desenvolvido pela equipe do CCI-Maringá possibilita que a pessoa intoxicada e sua família sejam atendidos de forma integrada; demonstra também a existência de vínculo do Serviço com os seus usuários e a conseqüente responsabilidade dos profissionais de saúde para com esta clientela, buscando respeitar suas peculiaridades e a realidade na qual ela está inserida.


 

Referências Bibliográficas

 

Forget,G. (ed.). Analisis epidemiológico de la frequencia del envenenamiento agudo en países en desarollo. International Development Research Center, Canada, Apr., Informe 219s, 1989.

 

Oliveira, M. L. F. & Itinose, A. M. CCI-Maringá: oito anos de atendimento às urgências toxicológicas. In: UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MARINGÁ. Hospital Universitário de Maringá. Centro de Controle de Intoxicações. Relatório de atividades-1997, Maringá, p. 6-9, 1998.

 

Ribeiro, H. P. & Lacaz,F. A. C. De que adoecem e morrem os trabalhadores. São Paulo: DIESAT, 1984.

 

Sherer, E. A. & Campos, M. A. O trabalho em equipe interdisciplinar em saúde mental. Uma revisão da literatura. Estudos em saúde mental. Organização Marturano, Loureiro, Ed. Zoard, São Paulo, 1997.

 

Zambrone, F. A. D. Contribuição ao estudo das intoxicações na região de Campinas. Campinas, 1992. 288p. Dissertação (Departamento de Medicina Preventiva e Social). Universidade Estadual de Campinas.



[1] Técnico do Centro de Controle de Intoxicações de Maringá.

[2] Doutora, docente do Departamento de Análises Clínicas da Universidade Estadual de Maringá. Centro de Controle de Intoxicações de Maringá.

[3] Mestre, docente do Departamento de Enfermagem da Universidade Estadual de Maringá. Centro de Controle de Intoxicações de Maringá.

[4] Mestre, docente do Departamento de Análises Clínicas da Universidade Estadual de Maringá. Centro de Controle de Intoxicações de Maringá.

 

 

 

Fonte:

 

 

 

http://www.ccs.uel.br/espacoparasaude/v1n1/doc/artigos/Atencao_integral_a_pessoa_intoxicada.doc

 

 

 

 

 


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