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Geriatria/Gerontologia/Idoso

Convívio de gerações: ampliando possibilidades

01/08/2008
Textos sobre Envelhecimento
ISSN 1517-5928 versão impressa

 


Textos Envelhecimento v.4 n.8 Rio de Janeiro  2002

 

Convívio de gerações: ampliando possibilidades

The acquaintanceship of generations: amplifying possibilities

Teresinha Mello da Silveira*

 

Resumo

Esse trabalho tem como meta refletir sobre a inserção do idoso na sociedade através de encontros intergeracionais que resultem em atividades que beneficiem tanto os participantes dos encontros quanto à comunidade em geral. Com essa finalidade apresento inicialmente um pouco da cara da velhice no Brasil, tal como se apresenta no momento atual, com seus alcances e seus limites. Em seguida, chamo a atenção para os encontros intergeracionais como um caminho possível para melhor integração do idoso. A esse respeito descrevo, neste tópico, as peculiaridades dos grupos com pessoas de gerações diferentes, imaginando que esses grupos podem conduzir a projetos de ação social conjunta, propiciados pelos intercâmbios entre os jovens e os idosos. Sem descartar a responsabilidade do Estado e das autoridades, pretendo por fim descobrir formas de despertar nas pessoas mais velhas uma participação mais ativa e consciente como cidadãos. A exposição baseia-se no que observei em idosos que freqüentam a Universidade Aberta da Terceira Idade da Universidade do Estado do Rio de janeiro.
Palavras-chave: idoso; relação entre gerações; universidades; Rio de Janeiro

 

Introdução

Recentemente fui chamada a substituir uma colega que, em virtude de um imprevisto, não poderia dar uma aula de gerontologia para um grupo de universitários de diferentes áreas da saúde, os quais, movidos pelo espírito empreendedor dos jovens, estavam desenvolvendo um projeto de trabalho com a comunidade. Fiquei agradavelmente surpresa com tudo que presenciei. Eram estudantes de medicina, enfermagem, serviço social, odontologia e psicologia, entre outros, discutindo sobre a possibilidade de prestarem serviços de prevenção e promoção de saúde às pessoas da rua, sem nenhuma discriminação. Tratava-se de uma iniciativa dos próprios alunos que, achando que era muito pouco o que podiam oferecer como estagiários, dispunham-se a colaborar como cidadãos conscientes para uma melhor qualidade de vida aos cariocas. De maneira bastante informal eles pensavam formas de participação, metodologias, apoio, recursos financeiros, enquanto procuravam embasar as futuras práticas com informações sobre a população que eles pretendiam atingir e foi aí que eu entrei nessa história. Várias reuniões já tinham sido feitas abordando temas sobre infância, adolescência, mulher, mãe, adulto jovem e agora era a vez dos idosos. Também foram convidados alunos da Universidade Aberta da Terceira Idade (UnATI-UERJ) e alguns, ou melhor, algumas, estiveram presentes.

 

Feitas as apresentações iniciais e explicitado o objetivo pelo qual estávamos juntos, propuseram-me que eu falasse sobre características da pessoa idosa. Após um preâmbulo, aproveitando a disposição das cadeiras (em círculo), abri para uma dinâmica com a pergunta: a que palavra cada participante associava à palavra idoso? Os resultados não tardaram a vir: preconceitos, estereótipos, negações, simulações – exemplos variados de casos disso e daquilo facilitaram o meu trabalho e produziram uma intensa troca de experiência entre aqueles membros mais jovens, alguns quase adolescentes, e os mais maduros. Percebi neste processo a mudança que ia ocorrendo, na forma dos estagiários verem os mais velhos, das pessoas mais velhas verem os jovens, dos mais jovens se verem, e dos mais velhos verem eles mesmos. Ao final tentei dar um fechamento teórico aproveitando as colocações dos diversos participantes. Seguiu-se então uma discussão sobre como o projeto poderia ser viabilizado com a participação de todos. Cada membro deu sua opinião e pude contemplar, satisfeita, que o intercâmbio inicial já dera frutos, possibilitando uma comunicação mais fluida entre gerações diferentes.

 

O relato desse acontecimento faz-se importante na medida em que me levou a refletir sobre a riqueza que podem ter, não só os encontros intergeracionais, como as atividades desenvolvidas por pessoas de diferentes gerações A partir do que foi exposto neste trabalho pretendo discutir os encontros intergeracionais, suas particularidades, importância e implicações no contexto cultural, socioeconômico e político do país, dado às construções e desconstruções que permeiam o envelhecimento. Pretendo ainda oferecer pistas de saída para a problemática atual do idoso, através de projetos de ações sociais conjuntas, que envolvam pelo menos duas gerações, considerando a ênfase na pluralidade, na multiplicidade e na diversidade e as práticas multidisciplinares apontadas pelas circunstâncias pós-modernas.

 

Para fins desta exposição tomei por referência pessoas das camadas média e média baixa da população urbana, que têm possibilidade de acesso aos serviços gerontológicos e com as quais desenvolvo parte de minhas atividades como psicóloga.

Envelhecimento e velhice: preocupações contemporâneas

Falar em envelhecimento e velhice implica em entrar num mundo de ambigüidades, paradoxos e contradições. Logo de início, existem múltiplas definições para velhice, cada uma enfatizando um aspecto da vida humana, seja ele físico, psicológico, existencial ou social. Um outro aspecto a se considerar é sobre com que idade a pessoa está velha: 50, 60, 70 anos?

 

Secco (1999, p.12) explica que:

 

O envelhecimento embora marcado por mutações biológicas visíveis, é também cercado por determinantes sociais que tornam as concepções sobre velhice variáveis de indivíduo para indivíduo, de cultura para cultura, de época para época. Deste modo, fica evidente a impossibilidade de pensarmos sobre o que significa ser velho, fora de um contexto histórico determinado.

 

A colocação de Secco faz pensar que na velhice de pessoas saudáveis, as adaptações às perdas são feitas com sucesso, de acordo com o contexto socioeconômico e cultural em que elas se encontram inseridas.

 

A respeito da pessoa velha, Debert (1999, p.65) diz que:

 

Uma das marcas da cultura contemporânea é, sem dúvida, a criação de uma série de etapas no interior da vida adulta ou no interior deste espaço que separa a juventude da velhice como "meia-idade", "idade da loba", a "terceira idade", a "aposentadoria ativa".

 

Seja como for, todas essas expressões tem pelo menos dois senhores: um deles é o mercado de consumo para cada uma das etapas, o outro é a tentativa de quebrar preconceitos.

 

Para fins deste trabalho, em acordo com a Organização das Nações Unidas, situarei a partir dos 60 anos o marco inicial do envelhecimento, o que coincide com a idade mínima para os alunos ingressarem na UnATI-UERJ.

 

Novaes (1999, p.39), lembra que:

 

O século XX será lembrado por três grandes inovações: meios sem precedentes de salvar, prolongar e intensificar a vida; meios poderosos de destruir a vida pondo em risco o mundo; percepções amplas da natureza, de nós mesmos e do universo.

 

Embora o assunto em pauta diga respeito à primeira inovação as outras, de uma forma ou de outra, estarão permeando esta exposição.

A situação atual do idoso no Brasil e no mundo é tal que merece uma melhor compreensão.

Autores diversos já alertaram para o aumento desta população (Veras, 1994; Novaes, 1995; Monteiro e Alves, 1995; entre outros) e essa é uma das razões para os olhares dos estudiosos estarem mais voltados para esse fenômeno. No entanto, este é apenas um dos aspectos a se considerar. Em verdade, por razões diferentes, sempre houve preocupação com o envelhecimento (Groisman, 1999). Não tendo este trabalho uma perspectiva histórica, deter-me-ei em algumas considerações sobre como e porque o envelhecimento hoje tomou tanta visibilidade, levando em conta as particularidades brasileiras.

 

A propósito da realidade brasileira, constata-se que algumas dificuldades que envolvem o poder público não se restringem aos idosos, mas afetam todos os cidadãos. A minha ótica aqui incidirá sobre os idosos. Autores como Groisman (1999) e Debert (1999), acrescentam diversos fatores à justificativa mais comum, ou seja, o aumento do número de pessoas mais velhas e da expectativa de vida.

 

Embora o termo gerontologia tenha sido cunhado em 1903 por Metchinicoff para identificar o estudo sobre a população idosa (Neri, 1995), durante muitos anos somente alguns poucos estudos foram realizados nesta área. Depois da metade do século XX é que grande parte dos trabalhos científicos sobre esse segmento da população foi apresentado. A maioria era de cunho social, envolvendo pesquisas sobre aposentadoria e lazer entre outros. Na psicologia um grande avanço foi alcançado nesta área quando em 1950, Erik Erikson (apud Neri, 1995), propõe a ampliação das etapas do desenvolvimento para além da vida adulta, até a idade madura.

 

A partir da década de setenta esses estudos foram cada vez mais intensificados, por diversas razões. As famílias cada vez mais reduzidas deixam visíveis os idosos, ao mesmo tempo em que eles crescem em número. O sistema capitalista voltado para a produção discrimina o velho como alguém incapacitado para a força de trabalho, ao passo que as aposentadorias, que seriam a justa recompensa pelos muitos anos de labuta, também prenunciam o abandono e a falta de opções sociais dos idosos. À medida que mais pessoas terminam o seu tempo de trabalho, proliferam as aposentadorias trazendo um ônus para as empresas e para o Estado. Contudo, no capitalismo tardio com o elevado índice de desemprego e subempregos, ainda são essas aposentadorias que ajudam ou sustentam filhos e até netos aptos para as frentes de trabalho.

 

Os ideais individualistas e as revoluções sociais dos anos sessenta tornam mais frouxos os laços parentais, diminuindo a lealdade e o sentimento de reciprocidade para com os mais velhos na família; embora algumas famílias se mantenham como as mais tradicionais, cuidando e acolhendo seus parentes mais velhos, outras se afastam e surge a questão de quem é responsável por cuidar. Dado a diversidade de características individuais começa um movimento para distinguir o idoso sadio do doente (antes uma coisa era sinônimo da outra). Na década de setenta proliferam também as pesquisas sobre substâncias psicoativas, tornando-se necessários diagnósticos mais precisos sobre síndromes que acometem a população em geral. No caso das pessoas mais velhas, as depressões, as demências e as psicoses tardias passam a ser melhor investigadas, confirmando que uma percentagem mínima de idosos portava doenças mentais. A preocupação com a qualidade de vida conduz a uma visão multidisciplinar do idoso, ou seja, os cuidados não são feitos apenas pelo médico mas por diversos profissionais. O envelhecimento também é evidenciado de uma forma antagônica pelo mito da juventude eterna, apelo constante da mídia e dos veículos de comunicação, como se envelhecer fosse um pequeno defeito que precisasse ser disfarçado pelos múltiplos produtos de beleza. Multiplicam-se os remédios contra ou a favor de um bom envelhecimento, as vitaminas geriátricas tomam conta do mercado, exatamente como manda o padrão mundial de consumo: o velho já é consumo e consumidor. Em meio a todo esse quadro, ressurge com vestes novas esse segmento da população. Agora eles podem ser chamados de diversas maneiras: terceira idade, nova idade, idade avançada, nova onda...(Novaes, 1995), cada termo trazendo implicações sociais as mais variadas. As associações, centros de convivência, Unatis são os lugares para o pleno exercício do envelhecimento sadio. Numa tentativa de dar conta e de estabelecer as fronteiras dessa velhice construída, a gerontologia começa a ocupar seu lugar na história. Vê-se que, como afirma Groisman (1999, p.44), a velhice atual "não é um problema social é, antes de mais nada uma construção social".

 

A gerontologia estando estabelecida, o passo seguinte é mostrar a cara desse novo contingente. As idéias negativas a respeito dos velhos começam a ser questionadas: doente, deprimido, frágil, caduco, coitadinho, incapaz, não aprende mais, apático, desinvestido do presente... A então chamada terceira idade começa a lutar para quebrar preconceitos e estereótipos. Também as idéias positivas demais são objeto de discriminação. Nem todos os velhos são sábios, solidários, carinhosos como alguns possam pensar e mesmo que sejam, isso não é privilégio de uma faixa da população.

 

Em outro trabalho meu (Silveira, 2000), a propósito das atividades que desenvolvo no ambulatório da UnATI-UERJ, falo do que observo nas dependências desta instituição. As pessoas que passam por lá, guardadas as diferenças individuais e as condições socioeconômicas, sofrem com suas perdas, preocupam-se com doenças, choram a morte de entes queridos, deprimem-se, estudam, fazem amigos, namoram, dançam, participam de passeios, gostam de festas, fazem ginástica, desenvolvem atividades domésticas, filantrópicas, de voluntariado, culturais e religiosas. Chegamos ao ano 2001 com uma outra concepção de velhice, com a dissolução de alguns preconceitos, com a percepção de que não existem só idosos abandonados, miseráveis, doentes (embora eles ainda existam em grande número, apelando para os nossos cuidados e atenção). No entanto ,esses idosos tão vivos ainda precisam estar inseridos socialmente junto a pessoas de outras gerações, numa troca mais igualitária em favor da sociedade em geral. Como questionam França e Soares (1997), mesmo considerando os resultados positivos advindos dos grupos e centros só para idosos, estes também podem resultar em uma forma de segregação. Tratando-se de Brasil, ainda são poucas as ações intergeracionais e acredito que, na luta pelo direito dos e com os idosos, esta é a etapa seguinte.

Atividades intergeracionais

As leituras que tenho feito recentemente sobre o relacionamento dos avós com os netos, (Barros, 1991,1999a, 1999b e Brun, 1999) têm me ajudado a pensar nos benefícios que podem advir das trocas entre pessoas de idades diferentes. Os conflitos, os cuidados mútuos ou não, a diferença dos avós de agora para os de meados do século XX, a vontade dos mais velhos de serem aceitos e tornarem-se úteis, os pontos de encontro e desencontro que passam adolescentes e adultos jovens nesta fase de visível transição familiar, levam a refletir sobre as possibilidades de encontros intergeracionais.

 

França e Soares (1997, p.151) defendem as relações intergeracionais para quebrar preconceitos e afirmam que "As trocas geracionais não devem se limitar à família e aos programas e políticas governamentais, mas serem expandidas às instituições privadas e a outras representações da sociedade".

 

Com o auxílio delas gostaria de tecer algumas considerações sobre a viabilidade dos encontros de diferentes gerações, dentro de uma metodologia própria que facilitasse esses encontros e que resultassem em ações conjuntas, em atividades sociais escolhidas por eles.

 

Num grupo é possível discutir temas referentes às características, necessidades, preocupações, semelhanças e diferenças intra e intergerações, conflitos e possibilidades de intercâmbio entre pessoas de faixas etárias bastante diferentes. O grupo é um espaço ímpar para assimilação de novas atitudes, promovendo mudanças rápidas e eficientes. O grupo permite que se veja uma mesma situação de maneiras diferentes, favorecendo o respeito às diferenças. O grupo informa, esclarece, reorganiza. Além do mais, ele apóia e melhora o relacionamento interpessoal e neste sentido, o compartilhar faz descobrir identificações. Embora o grupo seja um lugar de interação e comunicação, não são apenas as características sociais que se desenvolvem. Nele as pessoas podem tomar consciência dos seus traços mais individuais, dos seus medos, do que acha que deve ser guardado como segredo, dos sentimentos mais ocultos, que podem ou não ser partilhados, de suas preferências, de seus gostos, de sua função e do seu papel dentro e fora dele.

 

Novaes (1999, p.124-125) citando Habermas, diz que:

 

O agir comunicativo é o pano de fundo, sendo compreendido num processo circular no qual somos, ao mesmo tempo, desencadeadores de ações e produtos de ações dos grupos, bem como das influências e tradições das sociedades e culturas às quais pertencemos.

 

Assim também a interação entre os membros poderá ser o pano de fundo para os novos rumos a serem tomados. Os temas discutidos entre os participantes podem seguir para o planejamento de práticas sociais, educativas, promotoras de saúde, atividades culturais, abrindo um espaço às possibilidades de atuação. Por fim viriam as ações em si, as quais seriam sempre avaliadas, tornando-se gratificantes para o próprio grupo. Pensar em grupos intergeracionais é pensar também no que seus membros têm para oferecer uns para os outros, sem paternalismo ou protecionismo.

 

Longe de pretender rotular cada grupo etário, apontarei agora para algumas características que são mais comuns às faixas de idade sobre as quais me dispus a refletir: o final da adolescência, os adultos jovens e os idosos.

 

O final da adolescência é o momento de investir na vida, no futuro, na carreira: os jovens têm pressa. A impetuosidade, a intempestividade, os temas apaixonantes, as causas justas, a rapidez de raciocínio, o movimento para se expandir, a onipotência, fazem o jovem pensar em muitas coisas ao mesmo tempo e a colocar em ação muitas delas. Eles não temem os obstáculos e em geral têm saídas maravilhosas para os impasses. As idéias surgem como turbilhão. Se mais novos, de vez em quando tentam infringir os limites. Com o passar dos anos há uma tendência a uma vida mais contemplativa sem contudo significar depressão. Há uma expansão da espiritualidade e da religiosidade; os valores morais são mais internalizados; aumenta a solidariedade, talvez porque as pessoas mais velhas achem que elas, em breve, precisarão de ajuda. Há a melhor utilização da experiência de vida acumulada para benefícios pessoais, familiares e sociais; há maior seletividade nos relacionamentos afetivos e sociais; há uma tendência a revisitar o passado. Ao contrário do que se pensa, os idosos sadios sentem-se felizes e embora muitas vezes estejam voltados para o passado, gostam de trabalhar para mudanças futuras, de fazerem um balanço de suas vidas e de seus familiares, além de desejarem cuidar ou serem cuidados.

 

Pode-se imaginar quão rica esta troca pode ser! A articulação de características tão relevantes para um trabalho conjunto trará sem dúvidas resultados excelentes, se me permitem sonhar. Mas os componentes dos grupos também podem ter retornos bastante positivos. Os jovens podem retificar a imagem distorcida que têm dos idosos, modificar relacionamento com avós e avôs, agir de forma mais realista e menos sonhadora, desenvolver a solidariedade e a cooperatividade, lidar melhor com regras e limites, compreender a importância dos idosos se voltarem para o passado, pois esta é a sustentação para mudanças futuras. Por outro lado os idosos se sentirão úteis, menos solitários, aumentarão a auto-estima que pode estar diminuída pelas constantes perdas e pelo descrédito que ainda paira sobre eles, poderão lidar com um outro tipo de autoridade, descobrirão muito do seu potencial e estabelecerão uma relação de mais confiança com os mais jovens. Ambos, jovens e idosos, poderão descobrir que é possível ter um vínculo de afeto com um membro de outra geração que não seja seu parente ou muito próximo.

 

A idéia de formar grupos intergeracionais não é a de fomentar relações de amizade por semelhanças ou identificações, de tal forma que os amigos participem de programas sociais e de lazer juntos, mas a de utilizar as diferenças em favor dos membros do grupo e de toda a sociedade. Lembro que é mais comum o estabelecimento de laços de amizade com pessoas de idades próximas e isso é preferência pelo fato de haver interesses comuns e não discriminação. Por exemplo, um jovem de 20 anos não irá correr todos os dias dez quilômetros com uma amiga de 75. Não se trata de ensinar nem aprender e sim de incorporar novas realidades que, com um efeito cumulativo, transbordará do grupo para fora. Viver uma nova realidade, onde a diferença pode levar a transformações num âmbito maior, é contribuir para que muitas outras pessoas se sintam mais felizes.

 

A dinâmica grupal também poderá trazer barreiras e impasses. As pessoas que gostam de dar conselhos, as reações mais agressivas, os sinais de impaciência, as competições, as tentativas de fazer alianças excluindo outros membros, são resistências que deverão ser ultrapassadas por um ou dois coordenadores com experiência favorecendo a que o grupo atinja seus objetivos. Há de se pensar em temas, técnicas, recursos e uma boa forma de manejar o grupo, dentro de uma metodologia passível de atingir as metas desejadas.

 

Contradições e incertezas estarão sempre presentes, cabe aos homens encontrarem caminhos e alternativas que viabilizam a expansão do conhecimento e do saber com vista à promoção e ao bem estar social de todos, além da construção de um mundo mais justo, humano e criativo (Novaes, 1999, p.37).

 

As palavras de Novaes me incitam a rever os benefícios das práticas intergeracionais.

 

Uma das coisas que caracteriza os países do primeiro mundo é o quanto as pessoas da população em geral sentem-se comprometidas com tudo que acontece em seu país. Recentemente, em viagem a Alemanha para um curso sobre trabalhos em instituições hospitalares, tive a oportunidade de ver em Dusseldorff, no Hospital Universitário, toda uma ala de atividades para os pais de crianças com câncer construída por pais da comunidade local. Essas pessoas tinham ciência das dificuldades financeiras por que passava a prefeitura local e decidiram colaborar, não só com donativos mas executando a obra em acordo com o hospital. O local ficou lindo, cheio de opções e era visível a alegria das crianças e dos que as acompanhavam; dava a idéia mais um clube do que um hospital.

 

O que eu quis destacar com o exemplo acima não é o investimento econômico das pessoas e sim o comprometimento social. Talvez as práticas intergeracionais possam abrir um caminho para isso. Dos asilos, prisões, hospitais, todos os tipos de excluídos poderiam mais facilmente ser reinseridos no contexto social. Não se trata aqui de obras de caridade mas de cada um ocupar o seu lugar na história. Os participantes do grupo agirão como qualquer cidadão que se preocupa com seus compatriotas e com o que acontece no lugar onde moram: acolher, ouvir, sugerir, orientar na busca de recursos em geral, indicar trabalhos, funcionar preventivamente, exercer trabalhos voluntários, tudo de acordo com a demanda de cada situação. É claro que essas atividades teriam uma programação anterior. Por outro lado os membros dos grupos também poderiam desenvolver atividades festivas, culturais e religiosas de acordo com os interesses dos seus componentes.

 

Não tenho desenvolvido ainda um projeto na linha destas reflexões. Trata-se apenas de uma oportunidade de compartilhar os meus anseios mais atuais.

Considerações finais

Chegando ao final desta exposição quero reforçar os deveres do Estado, do poder público no manejo dos recursos dentro do que é prioritário e que me remete às problemáticas da educação, da saúde e da segurança em nosso país. Um provável descuido das autoridades, no entanto, não deve ser razão para os cidadãos brasileiros deixarem de participar responsavelmente nas transformações estruturais que possam resultar da contribuição de cada um. As grandes revoluções sociais foram feitas pelo povo e não pelas autoridades. As ações participativas retroalimentam quem as conduz. No caso das trocas intergeracionais, elas já existem há muito entre professores e alunos, entre pais e filhos, entre avós e netos, entre profissionais de creches, escolas e instituições de saúde e sua clientela de crianças, adolescentes e jovens, só confirmando a artificialidade e a discriminação com as pessoas mais velhas.

 

Dumazidier, citado por França e Soares (1997, p.153), nos ensina que:

 

Doravante, as pessoas idosas já não são apenas as guardiãs da memória coletiva das instituições. São também criadoras de uma nova economia, de uma nova sociedade e de uma nova cultura, que interessam a todas as gerações e às relações entre elas.

 

As palavras de Dumazidier deixam uma mensagem de esperança, e reforçam as minhas impressões sobre os caminhos que podem tomar os grupos intergeracionais. Um tanto de sonho, um tanto de desejo que poderá passar da utopia para a realidade, não somente para os idosos, mas para que se possa vislumbrar melhores dias para todos.

 

NOTAS

* Doutoranda em psicologia clínica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), mestre em psicologia clínica pela mesma universidade, psicóloga supervisora na área de psicologia clínica do Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), coordenadora do Grupo de Apoio aos Familiares Cuidadores de Pacientes Demenciados do Núcleo de Atenção ao Idoso, da Universidade Aberta da Terceira Idade- Universidade do Estado do Rio de Janeiro (NAI-UnATI-UERJ

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Abstract

This article has the aim to reflect about the insertion of the old people in society through intergeneration meetings that result in activities that benefit either the participants of the meetings and the community in general as well. So, I initially present a bit of the face of the oldness in Brazil as it is nowadays, with its possibilities and limits. Then I call the attention to the intergeneration meetings as a possible route to a better integration of the old person. In this topic I describe the peculiarity of groups with people from different generations, believing that these groups can lead to projects of united social action, provided by the interchange between young and old people. Not rejecting the responsibility of the State and the authorities, I finally intend to discover forms of awakening in the old people a more active and conscious participation as citizens. This exposition is based on what I have observed in the old people that frequent the "Open University of the Third Age of the University of the State of Rio de Janeiro".
Keywords: aged; intergeneration relations; universities, Rio de Janeiro

Recebido publicação em 06/08/2002

Aprovado em 16/09/2002

Correpondência em 16/09/2002

Rua Conde de Bonfim, 549/801

20520-052- Rio de Janeiro, RJ

E-mail: tsilveira@olimpo.com.br

 

Centro de Referência e Documentação sobre Envelhecimento, da Universidade Aberta da Terceira Idade - UnATI, Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ

 

http://www.unati.uerj.br/tse/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1517-59282002000200002&lng=pt&nrm=iso

 

 



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