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Arte/Cultura/Diversão/Agenda

Os dois retábulos da Matriz de Santo Amaro

28/09/2009
Limites de um processo de restauro - Os dois retábulos da Matriz de Santo Amaro
Aracy Amaral


A iconografia mais antiga que se tem da antiga matriz de Santo Amaro, erigida em 1686, é um desenho de Miguelzinho Dutra, provavelmente dos anos 1840 que retrata a matriz e seu entorno, antes de todas as reformas, ainda com a torre sineira desvinculada do corpo da igreja - fato nada incomum em outras igrejas de nosso primeiro período colonial.
Esses dois retábulos deram entrada no Museu de Arte Sacra quando de sua fundação em 1969 e sua ficha de tombo assim os descreve:“Colunas e arcadas de altar, madeira policromada, século XVIII, com as dimensões de 2880 mm de altura por 2230 mm de largura. Trabalho completo de talha barroca, com desenhos esculpidos de anjos, querubins, galos, pelicanos, conchóides, folhagens e flôres, além de capitéis esculpidos nas colunas e arcos emoldurados. As peças estão repintadas e o ouro recoberto com tintas de várias côres e purpurina, mas apresentam riquíssimo trabalho de escultura em madeira, com requintados detalhes. Acompanham essas talhas duas mesas de altar, da mesma época, com pintura marmorizada. Procedentes da Matriz de Santo Amaro” (Ribeiro Neto, 1971).
Todavia, os altares em questão, contrariamente ao registrado por Mário de Andrade, são possivelmente da primeira metade do século XVIII, em estilo “nacional”, segundo a terminologia de Robert C. Smith. O mais resgatável deles, e por certo o mais belo como talha e concepção parcialmente preservadas, de colorido vibrante após o restauro atual, é encimado por arco superior com volutas e folhas de acanto, de inspiração floral e vegetal, com cornija e friso ainda talhado com ornatos em estilo maneirista, sob o qual se destacam duas pilastras adornadas com anjos que sustentam como cariátides, mísulas de folha de acanto tendo à base uma contraditória ave pousada sobre uma voluta - e que porta no bico entreaberto uma esfera ou fruta (Catálogo MAS, 1983, pp.198-199)
Destes retábulos o mais rico e bem conservado é o acima descrito – e que possui ainda belo trabalho de talha em seu tabernáculo. Foram encontrados em depósito, com suas peças desmontadas, no depósito do Museu de Arte Sacra de São Paulo, e ficaram por cerca de um ano em processo de restauro e remontagem, pela equipe profissional, constituindo-se enigma a ser ainda decifrado. Como intrigante quebra-cabeças histórico-estilistico, esse processo demanda, além da paciência e conhecimento técnico, uma investigação a fim de tentar um discutível e possível (?) “retorno às origens”.
Há um registro explícito à existência dos “altares”, em 1732. Em 1955 o grande estudioso de barroco brasileiro, Germain Bazin, considerou com acerto que em São Paulo “conservaram-se mais espécimes de talha antiga que monumentos de arquitetura. A veneração que se tinha pelos altares, onde se celebra a missa, fê-los freqüentemente conservar e remontar em edifícios renovados; infelizmente estas desmontagens e remontagens não são sempre feitas sem remanejamentos e mutilações”.
Esse caráter de remoção e transferência de retábulos em São Paulo a partir de começos do século XX (Percival Tirapeli chamou-os de “retábulos peregrinos”), comprova o absoluto desrespeito por nosso patrimônio de parte das autoridades religiosas – e é bem sintomático de um espírito do tempo, desejo de destruição e renovação física dos “estilos” das igrejas bem como da cidade como um todo entre nós, fazendo surgir igrejas neo-românicas e neogóticas em profusão, assim como logo após os bairros em estilo “neocolonial”. Esse fenômeno deve ser visto igualmente sob a ótica de uma cidade em franco crescimento, que vivencia, em inícios do século XX, um desejo de “atualização” antes de tudo.
É o caso, sem dúvida, destes dois retábulos da antiga igreja de Santo Amaro, sobre as quais diria ainda Bazin , de maneira bem clara, em observações feitas a partir de fotografias do Iphan: “A matriz, reconstruída, de Santo Amaro, nos mostra hoje dois altares laterais do estilo João V, fitomorfo, sem uso de rocaille. Mas são apenas fragmentos, mal remontados; um deles foi dotado de um ornamento rococó enquadrando a tribuna, que deve proceder de outro altar; quanto ao outro, foi remontado ao contrário das volutas que coroam os piedroits.” (Bazin, 1956,p.304).

Remontagens
Ao visitarmos o ateliê de restauro de Julio Moraes com as peças em fase de remontagem, nossa observação foi de estranheza frente ao ornamento rococó em torno à tribuna, assim como o coroamento em arco linear. Afinal, eles seriam mais condizentes com a linguagem dos arcos das janelas, provavelmente de construção de fins do século XIX, e que, à época da foto do IPHAN, constituíam o entorno dos dois altares. O próprio artista restaurador reconhecia estar frente a uma justaposição de peças, dada a estranheza do coroamento do segundo retábulo em particular. Essa diferença entre a talha da parte inferior e aquela do arco superior, com peças entalhadas em estilo barroco, é mais visível também no primeiro – mas em ritmos verticais, de forma bem diferente do estilo “nacional” de ritmos concêntricos.
São fatos consumados, tendo em vista as remontagens já ocorridas e a perda de elementos originais. Pois nos dois altares santamarenses restaurados, aquele mais resgatável ( termo por nós utilizado), expõe um trabalho mais refinado e harmonioso na talha de sua parte inferior, que deveria apontar para uma continuidade – nas colunas ou pilastras e frisos no mesmo estilo - no arco superior, que seria o mais afim com o “estilo nacional”, e no qual arcos concêntricos se prolongam em meio círculo sobre a cornija. Mas isso não se dá no outro exemplar. Também a talha de desenho mais “fechado” da parte inferior do retábulo, contrasta fortemente com os vazios entre as folhagens e talha do semi-círculo do arco superior. A professora Áurea Pereira da Silva, a quem submetemos as fotos dos retábulos, observou, igualmente, com precisão, que também os elementos florais do friso superior desse arco são distintos daqueles motivos similares da parte inferior. Há também um semi-círculo de predominância linear que contém um elemento conchóide na parte superior da tribuna (que nos parece ter sido um acréscimo do século XIX).
Além do mais, analisando seu desenho, os altares, embora procedentes da mesma Matriz de Santo Amaro, apesar de similares, são distintos entre si, não se tratando aqui de altares “gêmeos” como era usual se encontrar na mesma igreja. Também Bazin em sua obra, ao analisar igreja por igreja, embora de maneira confusa, ratifica o dito anteriormente, porém na verdade sem saber que os retábulos não mais se achavam na igreja de Santo Amaro de hoje.

Dois documentos reveladores
Quanto ao processo de “destruição” e reconstrução por que passa a igreja, vemos que em agosto de 1903 é aprovada por unanimidade a proposta de reforma de Alfredo Formigoni, Encontramos, de 1911, um inventário pormenorizado elaborado pelo pároco da igreja, datado de julho, ocasião em que arrola imagens da Paróquia, colocando em primeiro lugar aquela da devoção da cidade, Santo Amaro, entre outras, como a de São Benedito e São Bento, a penúltima mencionada por Mário de Andrade e a última registrada na foto enviada ao IPHAN em 1937.
O curioso é que ao realizar este inventário da igreja há referência direta a “Três altares colados e dois no depósito, sendo os dois da Matriz Velha. Trinta de quatro palmas, sendo vinte e seis de diversas côres e oito pequenas”. Que significará a palavra “colados” ? De todos modos já poderíamos deduzir, através deste recenseamento, que provavelmente os “dois da Matriz Velha” são os que, ora restaurados, nos ocupam nestas reflexões, já se achando em depósito em 1911, e, portanto, não mais no recinto da igreja.
Fato é que o mistério dos dois altares de Santo Amaro talvez tenha sido desvendado ao encontrarmos, no Arquivo da Cúria o “Provimento de Visita” de D. Duarte Leopoldo e Silva, à Paróquia de Santo Amaro em 1909. Nele, depois de introdução à sua visitação, o arcebispo, de maneira contundente e crítica, se refere ao estado da igreja e seus altares e devoções, narrando em seu item 5 que “ O Altar-mór, todo de estuque ou de tijolos (...), sem estilo, sem arte e sem gosto, exige reforma completa. Será mais conveniente substitui-lo pelo primitivo, todo de talha, que ainda se encontra em todas as suas peças, bem que desarmado...” (Documento enviado ao Arcebispo, 22/04/1910.)

Os altares da matriz de Santo Amaro
Sabe-se que havia em Santo Amaro em inícios do século XX, três altares “velhos” ou antigos: o da Capela N.Sra. do Rosário, com tabernáculo, o altar de N.S. do Bom Conselho, e outro “de igual formato” e que “está desarmado”; além de haver um “grande e majestoso altar-mor de madeira” desarmado (e que já fora igualmente mencionado por D. Duarte no relatório de sua visita).
“Matriz, velho e espaçoso templo, reformado na frente com uma bela torre de solidíssima construção, alicerce de pedra de cantaria, e todo mais de tijolos. A igreja possui três altares como atesta o Pe. Luiz I.T. Bittencourt, sendo o altar-mór de recente construção, de tijolos e cimento com três degraus. ...No corpo da Igreja existe a velha capela de Nossa Senhora “do Rosário cuja imagem ocupa o nicho do centro; ao lado do Evangelho a imagem de S.Pedro e ao lado da Epístola a imagem de S. Miguel. O altar é de madeira e tem um tabernáculo antigo. No corpo da Igreja ainda e ao lado da Epístola acha-se o altar de N. Senhora do Bom Conselho. ...Este altar é antigo, mas todo pintado de novo; de igual formato existe na Matriz outro altar que está desarmado. Também desarmado existe um grande majestoso altar-mór de madeira” (Relatório enviado ao Arcebispo, 1909, pp. 56-57).
Logo, farto material para explicar a “remontagem”, ou reconstrução destes dois retábulos ocorrida nem se sabe quando, além dos elementos compositivos de todos estes altares, que foram dispersos ou extraviados. Foram exatamente estas montagens mutiladas que causaram espécie a Germain Bazin.
Assim, talvez peças destes altares e do altar-mór tenham servido para a montagem das composições extravagantes e pouco harmoniosas em especial da parte superior deste segundo retábulo, como dissemos, com a justaposição de fragmentos de talha em ritmos verticais, e não de forma concêntrica como seria de esperar. Reserva que também fazemos agora ao outro retábulo.
O trabalho solicitado pelo Museu de Arte Sacra a Júlio Moraes se configura mais como restauro e “reconstrução sensível” destes retábulos com as peças encontradas do que possibilidade de uma real reconstituição dos altares, já que a esta altura parecce impossível devolver a eles sua integridade original.
Desta forma, além da tentativa de análise estilística, com os dados da reforma de meados do século XIX, daquela “lastimável” de 1903 e anos seguintes, assim como com os relatórios da visita de D. Duarte em 1909, da descrição do vigário de 1909 igualmente, e com o inventário de imagens e noticias de retábulos, de 1911, podemos ter idéia dos bens patrimoniais em talha existentes na Paróquia de Santo Amaro (assim como de seu acervo em imaginária, e de telas, cujo paradeiro ignoramos) - nesta tentativa de contribuir para desvendar um pouco este intrincado quebra-cabeças.
 
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