Tóxicos/Intoxicações - Fósforo e seus compostos-doenças
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Tóxicos/Intoxicações

Fósforo e seus compostos-doenças

31/08/2003

DOENÇAS CAUSADAS POR FÓSFORO E SEUS COMPOSTOS


 

Satoshi Kitamura
 
 

1 . INTRODUÇÃO

O fósforo branco foi um dos primeiros elementos químicos reconhecidos como causadores de doenças profissionais. Na Alemanha, proibiu-se o uso de fósforo branco na fabricação de fósforos de segurança, em 1903, pois era considerado fonte principal de intoxicações crônicas pelo fósforo. Nos Estados Unidos, tal medida foi adotada em 1912.

Temos que distinguir dois tipos principais de fósforo: o branco (ou amarelo) e o vermelho, que é obtido pelo aquecimento do primeiro. O fósforo vermelho é considerado bem menos tóxico e por isso é utilizado na indústria. Dois outros tipos de fósforo não tem importância industrial.

2 . OCORRÊNCIA

O Fósforo não existe na natureza sob forma livre, mas é encontrado combinado em compostos animais ou vegetais. Além disso, é encontrado em formações rochosas (Flórida - EUA, Norte da África e algumas ilhas do Pacífico).

O Homem se expõe profissionalmente ao fósforo nas operações em que este é manipulado: indústria de produtos fosforescentes, de fogos de artificio de materiais bélicos, de pesticidas, de fósforos de segurança, etc. Os compostos que contém fósforos também podem produzir intoxicações: fosfina, pentassulfeto de fósforo, tricloreto e pentacloreto de fósforo, fosfato de tricresil, etc.

3 . ABSORÇÃO E EXCREÇÃO

O fósforo pode ser absorvido através da pele, via digestiva, ou respiratória, sendo que a última é a mais importante no ambiente de trabalho. A absorção através do tubo digestivo se faz por goticulas ou ingestão, juntamente com o alimento contaminado (mãos sujas).

É importante salientar a sua solubilidade em gordura, o que facilita a absorção através da pele e tubo digestivo. Pelo mesmo motivo, não se deve administrar leite ou óleo com intuito de "neutralizar" a ação do veneno (que contenha fósforo), ingerido acidentalmente ou não.

O fósforo é eliminado através da via respiratória (vapores com odor de alho, característico), digestiva (fezes e vômitos) ou urinária (eliminados sob forma de fosfatos). O fósforo elementar é encontrado em quantidades insignificantes no ar respirado, sangue e fezes, mas não na urina.

4 . PATOGENIA

O fósforo é um veneno protoplasmático, e como tal, se explica a sua ação sobre células ricas em protoplasma (célula hepática, dos túbulos renais, da córtex suprarenal, do endotélio dos vasos, do miocárdio) com aparecimento de reação de tecido conjuntivo muito pequena. Provoca uma degeneração gordurosa no fígado, à qual se segue a infiltração gordurosa. O fígado intoxicado pelo fósforo é incapaz de utilizar a gordura, ou esta função está muito reduzida, por causa da diminuição da atividade da lipase e diminuição da desidrogenação de ácidos graxos.

O fósforo é ávido pelo oxigênio e o acúmulo de gordura constitui, de certa forma, a defesa do organismo contra a degeneração celular. Como conseqüência da infiltração gordurosa, há diminuição do glicogênio hepático. Há também a diminuição das enzimas polimerizantes da glicose para o glicogênio e vice versa. A glicemia cai e aparece um comportamento anormal da curva glicémica após administração de glicose oral.

A ação tóxica do fósforo sobre as células do endotélio dos vasos se manifesta levando-os a trombose. Há então uma alteração na nutrição do osso, e como conseqüência surge a necrose óssea. A presença de dentes cariados ou em mau estado de conservação facilita a instalação do processo, e ainda a instalação de osteomielite.
 

5 . QUADRO CLÍNICO

Intoxicação aguda

A intoxicação aguda pelo fósforo raramente é profissional, sendo geralmente intencional (tentativa de suicídio, homicídio ou aborto).

Caracteriza-se principalmente pelo aparecimento de sintomas gastro-intestinais com fortes dores epigástrica, vômitos de material fosforescente com odor de alho, diarréias, às vezes acompanhadas de sangue. Após uma leve melhora, que pode persistir por alguns dias, pode aparecer icterícia como conseqüência das alterações hepáticas causadas pelo fósforo. Acompanham, em geral, adinamia, inapetência e mal estar generalizado. O fígado aumenta de tamanho, tornando-se palpável com bordos rombos e dolorosos. Fazem parte do quadro clínico hemorragias cutâneo mucosas, hematêmese por lesão do endotélio vascular, colapso circulatório, seguindo-se a morte.

intoxicação crônica

Em geral, a intoxicação profissional pelo fósforo é crônica. Geralmente se inicia com o aparecimento de falta de apetite, cansaço, palidez e queixas digestiva vagas.

Os distúrbios gastro-intestinais são caracterizados pela anorexia, entumecimento das gengivas, aumento do fígado (consistência amolecida, bordos rombos, doloroso à palpação e o aparecimento de icterícia ou subictericia.

Importantes, porém, são as alterações hemáticas, com aumento inicial do número de hemácias, seguido de queda progressiva, resultando numa anemia bipocromica ou leucopenia.

O aparecimento de leucócitos sudanófilos (que se coram pelo Sudan), segundo BIONDI, é indicio de intoxicação. São neutrófilos como granulação grossa (goticulas de gordura) que se coram pelo Sudan.

A fragilidade capilar com tendências a hemorragias, e a debilidade circulatória com tendência a hipotensão e choque são manifestações importantes do aparelho cardiovascular. Com o progredir da doença há alterações do miocárdio.

Nas mulheres, freqüentemente provoca metrorragias e abortamento. As dermatoses aparecem, em geral, em pessoas predispostas que possuem pele gordurosa ou que tenham tendência a dermatoses tipo alérgico (hipersensibilidade). O fósforo ainda pode causar queimaduras na pele.

Os ossos adquirem fragilidade apresentando fraturas espontâneas (raras), porém a alteração mais característica se localiza na mandíbula, onde ocorrem necroses ósseas pela trombose dos pequenos vasos (alterações endoteliais). Dentes cariados podem favorecer a instalação do processo infeccioso, que pode estender-se aos ossos vizinhos.

Caracteriza-se pelo aparecimento de forte dor de dente (tipo nevrálgico) que se irradia para toda a mandíbula. A necrose serve como sede da osteomielite ou periostite. Os últimos tendem à cicatrização, enquanto que os primeiros evoluem para a produção de uma supuração fétida com entumecimento da região. Pode haver eliminação de seqüestro ósseo através da pele. A dificuldade de mastigação leva o indivíduo ao emagrecimento progressivo até caquexia.

6 . DIAGNÓSTICO

Como em toda a patologia ocupacional, a anammese profissional detalhada é de suma importância. Os dados obtidos na anammese, somados aos dados clínicos, podem fazer o diagnóstico. Alguns exames laboratoriais podem auxiliar o diagnóstico: pesquisa do neutrófilos sudanófilos, hematológico (anemia), tempo de coagulação (baixa), reserva alcalina (baixa), glicemia (baixa caindo com a injeção de adrenalina); no exame de urina podemos encontrar albuminúria, leucina e tirosina, urobilina e pigmentos biliares, ralo X de ossos da face (necrose óssea, RX dos ossos (deposição de cálculo ou rareiação óssea).

7 . ANATOMIA PATOLÓGICA

Nos casos de morte por intoxicação aguda pelo fósforo, o odor característico se faz sentir. O achado de hemorragias cutáneo-mucosas, infra-musculares, sub-serosas, intra-parenquimatosas é freqüente. O fígado apresenta infiltração gordurosa com aspecto de fígado com atrofia amarela aguda. Todas as células do parénquima hepático estão lesadas. Em casos graves, há proliferação de células infomonocitárias. Pode haver, também, proliferação de tecido conjuntivo na área peri-portal, havendo destruição da estrutura normal do parénquima hepático, como na cirrose hepática. Os rins estão aumentados de volume, e podem apresentar focos de hemorragia e fenômenos degenerativos.

TRATAMENTO

A intoxicação aguda é tratada inicialmente com o esvaziamento gástrico, seja através de administração de eméticos, seja por lavagem gástrica com permanganato de potássio (1/5.000) e tratamento sintomático deve ser ministrado conforme o caso necessite.

A necrose mandibular é tratada cirurgicamente com ressecção sub-periostal. Quanto mais precocemente o tratamento for instituído, melhores serão os resultados.

A administração de preparados à base de ferro, metionina e colina são úteis principalmente quando há instalação de disfunção hepática.

As queimaduras de pele são tratadas por meio de banhos sucessivos de bicarbonato de sódio, deixando-se secar ao ar livre após cada banho, repetindo-se a manobra até que não se desprendam mais vapores de anidrido fosfórico do ferimento, e não se perceba o odor característico. As dores deverão estar bastante diminuídas. O ar favorece a oxidação e combustão do fósforo, enquanto que o bicarbonato neutraliza o ácido fosfórico que se forma. Depois institui-se o tratamento de queimadura comum.

Considerando-se a solubilidade do fósforo na gordura, tem-se obtido bons resultados experimentais na desintoxicação através da aceleração do metabolismo na gordura.

ASPECTOS PREVENTIVOS
 

  • Exames médicos pré-admissionais e periódicos.

Não se devem admitir trabalhadores com dentes mal conservados, anêmicos ou que já tenham tido moléstia do fígado, bem como os alcoólatras. Os anêmicos, bem como os que apresentem qualquer sintomatologia suspeita, devem ser afastados temporariamente do trabalho até que se descubra a causa.
 

  • Métodos industriais.

Os métodos industriais que expõem a riscos maiores devem ser abolidos, seja por melhoramentos no processo, seja por substituição dos prováveis tóxicos.
 

  • Educação sanitária.

Deve-se dar ênfase maior neste aspecto orientando os trabalhadores no sentido de utilizarem os equipamentos de proteção, de não se alimentarem no local de trabalho, noções de higiene pessoal e alimentar etc.

COMPOSTOS DE FÓSFORO
 

  • Fosfina (PH3)

A Fosfina é um gás incolor que, quando puro, é inodoro, e quando envelhece adquire um odor de peixe em decomposição. Forma-se quando o fósforo é dissolvido em álcalis quente e quando o fosfeto de cálcio entra em contato com a água para a obtenção de acetileno a partir de carbureto de cálcio que contém o fosfeto de cálcio como uma impureza. Também pode formar-se durante o rescaldo de ligas que contenham fosfetos.

Seu limite de tolerância está fixado cm 0,3 ppm.

Os efeitos fisiológicos no homem podem ser divididos em agudos e crônicos. O quadro clínico de intoxicação crônica é semelhante ao da intoxicação crônica pelo fósforo.

No quadro agudo, os sintomas precoces são caracterizados pela sensação de frio e dor intensa na região do diafragma.

Dispnéia, fraqueza, vertigem, bronquite, edema, convulsões e morte podem resultar da intoxicação pela fosfina.

O tratamento deve ser apenas sintomático.

Quadro 1 - Respostas do Homem à inalação de Fosfina em diferentes concentrações.

Respostas Concentração (ppm)

- rapidamente fatal .............................................................................2.000

- morte dentro de 1/2 a 1 hora ............................................................400 - 600

- perigo de vida após l hora ................................................................290 - 430

- quantidade máxima em 1/2 a l hora, sem sérios perigos .................100 - 200

- sérios efeitos após algumas horas .................................................................7

- limite de perceptividade .......................................................................1,5 - 3
 

  • Compostos clorados de fósforo

Os principais compostos clorados do fósforo são o pentacloreto de fósforo, o tricloreto de fósforo e o oxicloreto de fósforo.

O fósforo amarelo, quando reage com o cloro, forma o tricloreto e pentacloreto de fósforo, quando aquecido, e oxicloreto de fósforo quando decomposto em água.

A ocorrência destas substâncias se dá nas indústrias químicas.

De um modo geral, os compostos clorados de fósforo se caracterizam pela sua ação irritante sobre a pele e mucosa. Os sinais e sintomas são: sensação de queimação dos olhos, fotofobia, lacrimejamento, bronquite, tosse, dores de garganta etc. A dispnéia intensa e bronquite asmática podem. aparecer após exposição mais prolongada.

O limite de tolerância para o tricloreto está fixado em 0,5 ppm, enquanto o pentacloreto em aproximadamente 1 mg/m.
 

  • Sesquissulfeto de fósforo (Trissulfeto de tetrafósforo)

O sesquissulfeto de fósforo é utilizado na indústria de fósforo de segurança. É um cristal amarelo insolúvel em água fria. A poeira e o fumo deste composto são irritantes à pele e mucosas, causando dermatoses do tipo eczema.
 

  • Fosfato de tricresil

Dos três isomeros, o orto-fosfato de tricresil é o que apresenta importância sob o ponto de vista de toxicologia industrial.

Sua aplicação industrial é grande: na despolimerização de águas residuais das fábricas de gás, na indústria de explosivos (como meio de gelatinização) como aditivo de gasolina, como lubrificante etc. Dada a sua solubilidade em gorduras, estas podem extrai-lo de materiais que o contenham como o P.V.C.

A sintomatologia inicial é constituída de mal-estar, vômitos, cefaléia e vertigens, diarréias etc, que desaparecem logo. A esta fase aguda segue-se um período de latência que pode durar até várias semanas, dando lugar às alterações neuro-musculares, como fraqueza muscular, formigamento e dores musculares. A paralisia muscular flácida instala-se progressivamente a partir de grupos musculares das extremidades dos membros inferiores, podendo tomar os grupos musculares dos membros superiores.

Aparecem atrofias musculares e processos e degenerativos. Na maioria das vezes, após meses ou anos, inicia-se o processo de regressão, obedecendo sempre à ordem inversa da instalação do processo.

Ao mesmo tempo da regeneração, instala-se uma paralisia espástica-atáxica que inicialmente fica mascarada pelo quadro anterior, mas que se manifesta com contraturas musculares (pé eqüino, mão em garra etc.). As alterações psíquicas podem fazer parte do quadro clínico.

Não existe nenhuma terapêutica específica. O tratamento deve ser sintomático. O prognóstico quanto à vida é bom, mas quanto E cura é duvidoso.
 

  • Fosfatos orgânicos

Os fosfatos orgânicos tem seu emprego em larga escala na indústria de inseticidas. Os principais inseticidas organo-fosforados são: Parathion, Malathion, E.P.N., etc.

Estes inseticidas penetram no organismo através das vias respiratórias, digestiva e cutânea, sendo a última a mais importante, pois trata-se de tóxico solúvel em gordura.

A intoxicação geralmente é aguda, ao contrário do que ocorre com os inseticidas órgano clorados. Os órgano-fosforados agem impedindo a ação da colinesterase sobre a acetilcolina. Os sinais e sintomas decorrem do acumulo da acetilcolina nas terminações nervosas (gânglios, junção neuro-muscular): miose-dificuldade de visão, espasmos intestinais (vômitos, cólicas), excitação bronquica (tosse, broncorréia; etc.) fadiga, fraqueza muscular, tremores dos músculos, caimbras, convulsões, bradicardia, hipotensão, podendo levar até a morte.

Um exame laboratorial simples é que pode ser feito no nosso meio é a determinação da atividade da colinesterase sérica.

Para o tratamento utiliza-se atropina (nunca menos que 2 mg) na dose de 20 a 40 mg nas primeiras 24 horas, até a obtenção de midríase franca. No nosso meio, pode-se empregar a Contrathion, produto especifico que age reativando as colinesterases.

 

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