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Teen/Hebeatria/Adolescência/Jovem

Adolescente e o suicídio

02/11/2003
 Suicídio e Adolescência  

A adolescência é uma fase bastante turbulenta. Vários fenômenos ocorrem concomitantes e, freqüentemente de forma inconsciente. O jovem percebe que não mais pode contar com seus pais num modelo de relação protetora que tivera durante toda a infância. Toma consciência de que tem de haver-se consigo mesmo, com sua insegurança, impotência e inexperiência.

 

Ao mesmo tempo, seu corpo passa por transformações intensas; por vezes, ele mesmo não se reconhece. Esse corpo é também invadido por desejos sexuais e agressivos, quase incontroláveis. O adolescente se vê, dessa forma, à mercê de seus impulsos, inseguro quanto a figuras de proteção e desafiado a enfrentar as dificuldades de viver no mundo. Este, por outro lado, nem sempre se importa com ele: em vez de dar-lhe condições para desenvolver-se, freqüentemente cria obstáculos e frustrações, que podem superar seu vigor. Ainda mais em nosso meio, onde são endêmicos o desrespeito humano, a falta de oportunidades e o bloqueio da criatividade.

 

Frente a essas variações, o jovem reage de várias formas. Comumente ele fica confuso, joguete de seus aspectos infantis misturados aos desafios que a idade adulta lhe impõe. A sociedade, perversa, potencializa essa confusão. A tristeza, que muito intensa se transforma em depressão, deriva do sentimento de perda, fim das prerrogativas de ser criança e da desidealização dos pais, que têm outra vida e com quem é muito difícil comunicar-se. Medos, por vezes terrores, de não dar conta de seu futuro, de não ser "alguém", indivíduo, reconhecido e valorizado por si mesmo e pelos demais, também coexistem. A sexualidade emergente, por sua vez, também acarreta confusão e culpas.

 

Evidentemente, junto a tudo isso existe um prazer imenso, a alegria de perceber seu desenvolvimento, vigor e capacidade de amar e ser amado. No entanto, o prazer e a dor se misturam e, dependendo de características pessoais e fatores externos, podem predominar aspectos negativos ou positivos. Isso varia de momento a momento, fazendo com que o jovem oscile entre sentimentos opostos com grande facilidade.

 

A idéia suicida aparece quando a confusão e a depressão são muito intensas. Sabe-se que ¼ dos adolescentes já pensou seriamente em se matar ou efetuou algum ato autodestrutivo. O objetivo do ato suicida não é propriamente a morte (já que ninguém sabe o que ela é), mas sim a fuga de um sofrimento sentido como insuportável. A capacidade de pensar está prejudicada. Quando sobrevive, o jovem nos conta que queria livrar-se do sofrimento, mas não avaliara claramente as conseqüências. Pesquisando as fantasias inconscientes, encontramos imagens de uma vida pós-morte, sem sofrimento, numa espécie de paraíso, confundido com a vida intra-uterina. Geralmente, junto com a fuga, existe um pedido de ajuda, uma forma de comunicar a alguém o seu estado.

 

Em outras ocasiões, o ato autodestrutivo implica em atacar, vingativamente, alguém a quem se atribui o sofrimento (como os pais, os namorados, a sociedade, etc.). Atualmente, cada vez mais os suicídios (conscientes ou inconscientes) ocorrem de uma forma mascarada, tais como acidentes de trânsito e uso de drogas (com risco de overdoses). Em nossa sociedade violenta, tende a aumentar outra forma de autodestruição: o jovem se coloca em situações perigosas, desafiando bandidos ou a polícia, no que chamamos "homicídio precipitado pela vítima".

 

Alguns jovens são mais predispostos ao suicídio, se sua confusão é potencializada por problemas mentais, como ocorre na esquizofrenia e em quadros melancólicos, com componente familiar. Mas, na maioria das vezes, o ato e as idéias suicidas decorrem da exacerbação dos conflitos normais da adolescência, num meio ambiente onde não há oportunidade para que esses conflitos sejam aplacados e resolvidos.

 

Pais, professores, juízes, assistentes sociais e os próprios adolescentes devem ficar alertas para alguns sintomas da depressão intensa, como desesperança e desespero, a vida sendo vista como uma carga pesadíssima, sem possibilidade de "carregar", surgindo idéias de escapar desse sofrimento pela morte. Os sintomas confusionais, também normais no jovem, devem ser investigados caso eles se acentuem a tal ponto de o adolescente se sentir num beco sem saída, atrapalhado por mil pensamentos que não consegue organizar e cada vez mais desesperado.

 

Evidentemente, todos nós passamos por momentos ou fases similares, porém, se essas características persistem, há de se procurar ajuda profissional.

A sociedade e os próprios jovens devem lutar para que a dignidade, a cidadania, o respeito pelo ser humano façam parte indissolúvel do viver de todos. Assim, a turbulência da adolescência será acolhida, compreendida e aplacada, de forma que o jovem se sinta seguro de ter um espaço, seu de direito, para poder viver sua vida criativamente, numa sociedade que investe na vida e não na morte. Uma sociedade criativa e não uma sociedade homicida e suicida.

 

Texto publicado no site Adolec (www.adolec.br) e elaborado por:

 

Roosevelt M. Smeke Cassorla é psicanalista, Membro Titular da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, Professor Titular pela Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, autor de O Que é Suicídio (Brasiliense, 1984) e organizador de Do Suicídio: Estudos Brasileiros e Da Morte: Estudos Brasileiros (ambos pela Ed. Papirus, 1991)

www.saude.gov.br

 


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Publicado por: Dra. Shirley de Campos
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