AIDS / HIV -
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AIDS / HIV

Sobrevivência atual dos pacientes com aids no Brasil

27/11/2003

Evidência dos resultados de um esforço nacional

José Ricardo Pio Marins*@w, Leda de Fátima Jamalww, Sanny Chen§, Estie S. Hudes², Aristides Barbosa Junior**, Marilisa Berti de Azevedo Barros*, Pedro Chequer­, Paulo Roberto Teixeira** e Norman Hearst².


*Universidade Estadual de Campinas
@Programa Municipal de Aids de Sorocaba, São Paulo
wCoordenação Estadual de DST/Aids de São Paulo
§Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health, Baltimore, United States
²University of California, San Francisco, United States
**Coordenação Nacional de DST/Aids
­UNAIDS, Buenos Aires, Argentina
Correspondência: Dr. José Ricardo Pio Marins - Email: dst_aids@terra.com.br

Introdução

A sobrevida mediana no Brasil, dos pacientes com aids maiores de 12 anos, no período de 82 a 89, era de apenas 5,1 meses (Chequer, 1992)1, isto significa dizer que cerca de 50% dos pacientes morriam em menos de seis meses, após o diagnóstico da primeira infecção oportunista.

Esse foi o período crítico da epidemia, pois se conhecia muito pouco sobre a aids e ainda se aprendia como manejar as Infecções Oportunistas (IO), sem ter uma compreensão mais ampla sobre o agente etiológico e seus mecanismos patogênicos.

Nessa época, o mundo assistia perplexo o surgimento desse agravo letal e os serviços médicos deparavam-se de maneira impotente com a morte de um número cada vez maior de pessoas.

As diferenças na sobrevivência dos afetados até o início da década de 90, nos diferentes países, eram estimadas em meses, sendo que naqueles desenvolvidos, mesmo com todo aparato tecnológico disponível, conseguia-se atingir, no máximo, sobrevidas de 12 a 18 meses, nos estudos mais consistentes2.

A primeira perspectiva que surgiu, na mudança deste cenário, foi a descoberta de um Inibidor da Transcriptase Reversa - ITR, (a zidovudina - AZT) em 89, o qual se mostrou eficaz inicialmente, porém, estudos posteriores demonstraram que seu uso de fato melhorava a qualidade de vida, contudo não alterava o tempo de sobrevivência.

Alguns anos se passaram, até que surgiram outros inibidores da transcriptase reversa (DDI e DDC), os quais, após a indicação de uso associado com o AZT em 95, demonstraram, pela primeira vez, serem capazes de aumentar discretamente a sobrevivência das pessoas afetadas, inaugurando por isto, a chamada época da terapia dupla.

Certamente, durante todo este tempo de evolução, ocorreu intensa produção científica, o que possibilitou uma compreensão mais consistente dos mecanismos imunológicos e fisiopatológicos da infecção por HIV, os quais contribuíram para que fosse possível o desenvolvimento de uma nova classe terapêutica denominada de Inibidores de Protease - IP.

Em 1996, o Dr. David Ho anunciou na Conferência Mundial de Aids, em Vancouver3, o popularmente conhecido "coquetel", apresentando para o mundo um esquema terapêutico composto por 2 ITR e 1 IP cujo uso, em condições controladas, demonstrou um espantoso aumento da sobrevida, chegando a se conjeturar, à época, que tal tratamento, intitulado então de terapia anti-retroviral de alta potência (Hight Active Antiretroviral Terapy- HAART), pudesse, após 3 anos de uso contínuo, eliminar o vírus e, hipoteticamente, se conseguir a cura da aids.

Infelizmente, a perspectiva de cura não se confirmou, pois, rapidamente, constatou-se que além da grande capacidade do vírus desenvolver resistência a essas drogas, tal esquema terapêutico não era capaz de debelar por completo o HIV de todos os tecidos humanos.

Apesar da frustração, a terapia HAART trouxe avanços inestimáveis, esclarecendo aspectos fundamentais da história natural da doença4 (relação do CD4, CV e evolução clínica), bem como demonstrou que, na vigência desse novo tratamento, a aids passaria a ser uma enfermidade crônica, compatível com uma sobrevivência, até então inusitada e, sobretudo, com grande preservação da qualidade de vida.

De fato, estudos internacionais5-14 posteriores demonstraram que os pacientes em uso desse tratamento, apresentavam uma mudança impressionante no seu curso clínico, registrando-se, nessas populações, grande queda dos coeficientes de mortalidade, drástica redução da incidência de I.O., grande aumento da qualidade de vida e principalmente aumento significativo da sobrevivência.

Tal foi a transformação do comportamento da doença determinada pela HAART, que passou-se a denominar este período, o qual se estende até o momento, de "era pós-HAART".

No Brasil, desde o inicio da epidemia, ao lado de uma intensa atividade de prevenção, luta pelos direitos humanos, estudos do comportamento da infecção e seus determinantes biopsicosociais, conseguiu-se garantir, de maneira sui generis para países em desenvolvimento, o acesso universal aos anti-retrovirais desde 199215. Esta ampla resposta de enfrentamento só foi possível pela marcante participação das ONG/Aids e do comprometimento dos diferentes níveis de governo, então já contextualizados dentro da concepção do Sistema Único de Saúde.

Estas conquistas se consolidaram em 1996, quando, frente ao anúncio internacional dos ótimos resultados do "coquetel", os medicamentos que o compõem passaram a ser garantidos por lei federal, a despeito de seus altos custos, possibilitando, desta maneira, que os pacientes de aids do País tivessem acesso a todos os avanços terapêuticos disponíveis no mercado mundial.

A disponibilização dessa terapia anti-retroviral de alta potência na rede de serviços, à semelhança do que aconteceu em outros países, causou um impacto notável, de expressiva redução da morbi-mortalidade em São Paulo e Rio de Janeiro15,16 bem como, queda substancial do número de internações hospitalares no País, sem se considerar a avaliação extremamente satisfatória, dos profissionais de saúde e da própria comunidade afetada pela infecção.

No entanto, apesar dessas conquistas permanecem algumas indagações. Será que a terapia HAART que, em condições de estudos clínicos controlados, mostrou-se de grande impacto, ao ser utilizada em condições reais, alcançaria os mesmos resultados? Populações como a brasileira, afetadas ainda por doenças típicas da pobreza teriam condições de utilizar esquemas de tratamento tão complexos e com tantos efeitos colaterais? Será que um país que possui uma rede de serviço de saúde com tantas fragilidades, seria capaz de garantir o manejo de drogas que apresentam graves efeitos adversos, tóxicos e que demandam um monitoramento laboratorial de alta tecnologia?

Enfim, será que com todas essas dificuldades, agravadas pelos altos custos dos ARV, nossa população conseguiria se beneficiar na mesma intensidade de uma intervenção dita tão sofisticada, como aquelas que vivem em países de primeiro mundo?

Naturalmente em 1996, estas respostas não existiam. O que havia era o compromisso moral e ético, na nossa sociedade, de se fazer o máximo possível, a despeito de posições contrárias de organismos internacionais e das barreiras econômicas impostas pelas industrias farmacêuticas transnacionais. Esses princípios levaram o País, de uma maneira isolada, a buscar soluções para as suas inconsistências, apostando na sua capacidade de enfrentar as iniquidades, mantendo a universalidade e os direitos constitucionais de nossos cidadãos.

O trabalho, ora apresentado, foi concebido a partir da necessidade de avaliar se todo este esforço nacional, construído por sociedade civil e governos, de fato trouxe avanços tanto nos aspectos individuais, como nos coletivos.

Com esse objetivo, realizou-se um estudo para a Análise da Sobrevida Nacional dos Pacientes de Aids Maiores de 12 anos, diagnosticados em 95-96, buscando-se identificar qual o tempo mediano de sobrevida dos pacientes, após a definição da doença e seus determinantes, segundo aspectos socio-demográficos, categoria de exposição, doenças oportunistas, ano diagnóstico e sobretudo tipo de terapêutica anti-retroviral.

Método

Desenho do estudo

Estudo de coorte não concorrente. Tomando como base o estudo realizado por Chequer,1 do período de 82-89, definiu-se que para manter a possibilidade de comparabilidade com o estudo anterior, o atual deveria ser de caráter nacional e com, no mínimo, as mesmas variáveis anteriores.

Fonte de informações

Após uma pré-análise do Banco Nacional de Notificação, que mostrou deficiências de informações importantes para um estudo de sobrevida, optou-se por utilizar o Banco somente como índice localizador dos casos, devendo as informações ser recoletadas dos prontuários médicos de cada paciente. Em caso de desacordo entre os dados, utilizar-se-ia os dados existentes no prontuário.

Variáveis de estudo

Como variáveis sociodemográficas: sexo, idade, nível de escolaridade (como indicador de nível socioeconômico) e local de moradia. Para a evolução clínica, praticamente incluiu-se todas informações existentes na Ficha de Notificação/Investigação de Aids (pacientes com 13 anos ou mais) ampliando-se informações como, uso de ARV e sua seqüência no tempo até o momento final da pesquisa: utilização de profilaxia primárias para pneumonia por Pneumocistis carinii e tuberculose; situação sorológica para Hepatites B e C e contagem de CD4 no momento de diagnóstico, além de dados sobre tipologia dos serviços notificantes.

Amostra

A amostra em nível nacional, foi desenhada buscando garantir a executabilidade do estudo, sendo para isto definido que somente cidade com mais de 40 casos notificados por ano seriam amostradas. Tentou-se garantir a proporcionalidade dos casos existentes nas cinco macrorregiões do País, e cidades de áreas metropolitanas e de porte médio. Como a região Norte tinha um reduzido número de cidades com o quantitativo mínimo de casos, a distribuição foi feita entre: Região Sul, Região Sudeste, Região Nordeste, sendo as regiões Norte e Centro-Oeste agregadas em um só estrato. A partir dos critérios acima, foram sorteadas, de maneira aleatória, as cidades seguintes: Curitiba, Londrina. São Paulo, Sorocaba, São José dos Campos, São José do Rio Preto, Bauru, Jacareí, São Bernardo do Campo, Rio de Janeiro, Niterói, Belo Horizonte, Uberlândia, Juiz de Fora, Recife, Olinda, Belém e Rondonópolis.

Critério de caso de aids

Utilizou-se, como definição de casos, os critérios CDC modificado 1992, Critério Rio de Janeiro- Caracas e critério de CD4 menor ou igual a 350 céls/mm3 17.

Critérios de exclusão

Casos com data de diagnóstico fora do período de 1995-96, casos sem informação de data de nascimento, sem nome de mãe, sem número da unidade notificante e aqueles que tivessem a data de óbito menor/igual a 7 dias em relação ao diagnóstico, pois esses não são informativos para estudos desta natureza.

Operacionalização

Para o trabalho de campo, em cada cidade selecionada, foram capacitados, por meio de manual específico, um supervisor (com ampla experiência em vigilância epidemiológica de aids) e pesquisadores que já atuassem na rotina de notificação de casos, no intuito de garantir uniformidade das informações.

Todos os casos, além da revisão realizada pelo supervisor de cada cidade foram também revisados pelo autor principal e as incongruências foram reinvestigadas. Os dados de mortalidade foram coletados do prontuário ou de outras fontes existentes no município e as fichas de investigação originais atualizadas.

Utilizou-se, como data de censura para os casos sem data de óbito registrada, a data do último contato com o serviço notificante.

Período de coleta de dados

De abril de 2000 a janeiro de 2002.

Aspectos éticos

O projeto foi submetido à Comissão de Ética do Centro de Referência de DST/Aids do Estado de São Paulo, de acordo com a orientação técnica da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP) e por várias Comissões de Ética dos Hospitais e Secretarias de Saúde participantes.

Manejo dos dados

Após a dupla revisão de todos os casos, os dados foram digitados por técnico devidamente treinado, utilizando-se o software EPIINFO 6.018.

Aspectos da amostra

Dos 3930 casos inicialmente selecionados aleatoriamente, 1109 foram excluídos segundo as seguintes condições:

Após a revisão dos prontuários médicos, 252 casos tinham diagnóstico de aids, fora do período 95-96; para 295 casos não se conseguiu localizar o prontuário médico no serviço notificante; 165 casos, apesar de terem prontuários, esses não continham as informações mínimas requeridas; 160 casos foram excluídos porque a coleta de informação não tinha finalizado até o fim do período do estudo; 65 casos não tinham nenhum dado referente a diagnóstico de aids; 20 casos foram excluídos por duplicidade e 45 casos foram excluídos por diferentes circunstâncias distintas das acima.

Análise dos dados

Foram analisados 2821 casos, utilizando-se o software STATA 7.019. Pelo método de Kaplan-Meier, foram calculadas as curvas de sobrevida, em diferentes intervalos e a mediana de sobrevida. Os preditores encontrados foram analisados por meio da análise de riscos proporcionais de Cox20.

Todos os preditores encontrados como significativos na análise univariada, ou seja com likelihood ratio test <.05, foram considerados no modelo para a análise multivariada, exceto dados referentes aos níveis de CD4, pois somente um grupo muito pequeno de casos contavam com essa informação, tendo em vista que esse marcador imunológico somente tornou-se disponível em toda a rede de a tenção em 1997.

Ainda se refez a análise do estudo realizado no período 82-89 (Chequer P.-1992)1, agora excluindo-se os óbitos com tempo <= a 7 dias do diagnóstico, no sentido de homogeneizar os critérios para haver comparabilidade das curvas (a metodo-logia desse estudo encontra-se publicada).

Financiamento do Estudo

O estudo foi financiado exclusivamente pela Coordenação Nacional de DST e Aids do Ministério da Saúde.

Resultados

Características sociodemográficas

Dos 2821 casos, 45 % foram diagnosticados no ano de 95 e os demais no ano de 96. No primeiro ano encontrou-se uma relação de 3/1 na relação H/M, a qual se reduziu no segundo ano para 2.4/1 (tabela 1).

A grande maioria dos casos apresentava nível de escolaridade de primeiro grau ou menos, (ao redor de 75%) em ambos os anos e os demais tinham segundo grau, sendo que um número muito reduzido tinha nível superior completo ou incompleto e por isso foram agregados aos com segundo grau (tabela 1).

A subcategoria de transmissão mais freqüente, em ambos os anos, foi a heterossexual, mostrando inclusive um crescimento proporcional em 96. A categoria de transmissão sangüínea é a segunda mais prevalente, sendo constituída praticamente por usuários de drogas injetáveis. Chama a atenção que 16% dos casos não tenham registro da categoria de transmissão, dado que se mantém estável nos dois anos do estudo (tabela 1).

Praticamente o ponto mediano na idade dos casos estudados foi de 33 anos, sendo essa idade constante no período de estudo (tabela 1).

Características clínicas

A maior parte dos casos foi notificada pelo Critério de Rio de Janeiro/Caracas, nas mesmas proporções em 95/96, sendo que o critério CDC modificado foi o segundo mais utilizado sem que houvesse diferenças nos dois anos.

Tabela 1. Características dos pacientes adultos com aids no Brasil, diagnosticados em 1995 e 1996.

Variável
Ano de Diagnóstico
Total
1995
(N =1278)* n (%)
1996
(N =1543)* n (%)
(N=2821)*
n (%)
Sexo
Masculino
966 (76)
1092 (71)
2,058 (73)
Feminino
312 (24)
451 (29)
763(27)
Idade ao diagnóstico
£ 33
623 (49)
766(50)
1,389 (49)
> 33
650 (51)
773(50)
1,423 (51)
Educação
1º grau ou menos
955 (75)
1,172 (76)
2,127 (75)
2º grau ou mais
323 (25)
371(24)
694 (25)
Exposição
Heterossexual
424 (33)
569 (37)
993 (35)
Homo/Bissexual
306 (24)
331 (21)
637 (23)
Sangue
344 (27)
404 (26)
748 (26)
Ignorada
204 (16)
239 (16)
443 (16)
Critério
CD4
26 (2)
96 (06)
122 (04)
R.J/Caracas
554 (43)
644 (42)
1,198 (43)
CDC modificado
372 (29)
412 (27)
784 (28)
Múltipla
313 (25)
372 (24)
685 (24)
Ignorado
13 (1)
19 (01)
32 (01)
Diagnóstico
Tuberculose
327 (25)
404 (26)
731 (26)
Pneumocistose
196 (15)
201 (13)
397 (14)
Neurotoxoplasmose
150 (13)
195 (13)
345 (12)
Outros
503 (39)
576 (37)
1,079 (38)
Nenhum/Ignorado
102 (08)
167 (11)
269 (10)
CD4 no diagnóstico
£ 350
257 (92)
516 (92)
773 (92)
> 350
22 (08)
45 (08)
67 (08)
Tratamento Inicial
Sem tratamento
445 (35)
326 (21)
771 (27)
Monoterapia
647 (50)
460 (30)
1,107 (39)
Terapia dupla
163 (13)
622 (40)
785 (28)
Terapia tripla
26 (2)
136 (09)
162 (06)
Tratamento na vida
Sem tratamento
443 (35)
326 (21)
769 (27)
Mono ou duplo
496 (39)
472 (31)
968 (35)
Triplo ou mais
339 (26)
745 (48)
1,084 (38)
Profilaxia para
Pneumocystis Carinii
554 (43)
686 (45)
1,240 (44)

* O n para cada variável pode ser menor que o n total devido a dados ignorados.

O critério mais freqüente como definidor de caso é o do aglomerado de múltiplas causas, indicando provavelmente os diferentes preditores de doença elencados na definição- Rio de Janeiro/Caracas. A tuberculose, quando se trata de uma infecção oportunista única isolada, apresentou-se como causa de diagnóstico principal, sendo que a segunda e terceira causa, representadas pela pneumocistose e neuro-toxoplasmose, praticamente têm a mesma freqüência (tabela 1).

Em relação ao uso de profilaxias primárias, pode-se observar que quase metade da população estudada fez seu uso para prevenção de pneumocistose, porém o mesmo não ocorreu com a tuberculose, que apresenta níveis bastante baixos da indicação da isoniazida de maneira profilática.

Quando se analisa o uso de anti-retrovirais como tratamento inicial, pode-se notar uma cifra ainda muito elevada de pacientes que não fizeram uso de nenhum ARV, fato mais acentuado (35%) em 95 (tabela 1).

O uso inicial de monoterapia, como primeiro tratamento mostra-se como esquema terapêutico mais freqüente em 1995 (50%), porém se reduz a 30% dos casos em 1996, provavelmente pela migração dos casos para uso de terapia dupla, que já estava amplamente disponível nesse ano (40%).

A quantidade de tratamentos iniciais de terapia tripla em 95 e 96 mostra-se bastante reduzida, girando em torno de apenas 6% dos caso no período. No entanto, verifica-se um crescimento de praticamente 5 vezes dessa terapia entre os dois anos de análise (de 2 para 9%).

Essa distribuição de uso de ARV, no entanto, sofre uma transformação bastante expressiva ao se considerar o uso de esquemas terapêuticos na vida. Nesse caso, pode-se verificar que a proporção de casos em que se utilizou terapia dupla em 95 e 96 passa a representar um terço praticamente dos casos e a terapia tripla torna-se o esquema mais freqüente, em cerca de 50% dos casos em 96 (Tabela 1).

Curvas de Sobrevida

Na figura 1, pode-se verificar que há diferenças importantes na sobrevida mediana, segundo os anos de diagnósticos. As diferenças mostram-se bastantes evidentes, sendo que a mediana do período de 82-89 foi de 6,1 meses após a reanálise do banco original, subindo para 16 meses no ano de 1995 e atingindo ao valor de 58 meses para o ano de 1996.

Figura 1 - Sobrevida por ano de diagnóstico.

Na tabela 2, observando-se os preditores de risco, verifica-se que permaneceram como diferenças significantes na análise univariada: sexo, categoria de transmissão, nível educacional, que é um indicador de nível socioeconômico dentro das variáveis sociodemográficas.

Ao se analisar as variáveis clínicas, permaneceram significativas: o ano de diagnóstico, tratamento ARV, critério de definição de caso, nível de CD4 e a profilaxia para Pneumocistis carinii.

Após a análise multivariada, permaneceram no modelo, como significantes, somente o critério de definição de caso e tipo de tratamento ARV.

Tabela 2. Análise Univariada e Multivariada - Modelo de Cox.

Preditor
Univariada
Multivariada
Hazard ratio
p-value
Hazard ratio
p-value
Tratamento   <.001   <.001
Sem tratamento 1.00   1.00  
Mono ou duplo .36   .39  
Triplo ou mais .06   .06  
Critério   <.001   <.001
CD4 1.00   1.00  
R.Janeiro/Caracas ou CDC modificado 9.62   6.77  
Múltiplo 12.76   9.90  
Desconhecido 7.77   6.70  
Exposição   <.001   .005
Sangue 1.00   1.00  
Homo/Bi .64   .92  
Heterossexual .74   1.05  
Desconhecida 1.08   1.27  
Ano de Diagnóstico   <.001   .467
1995 1.00   1.00  
1996 .63   .96  
Educação   <.001   .063
1º grau ou menos 1.00   1.00  
> 1º grau .55   .87  
Sexo   .022   .053
Feminino 1.00   1.00  
Masculino   1.15   1.15
CD4 no diagnóstico (x 106/l)* .047      
> 350 cel/mm3 1.00      
£ 350 cel/mm3 1.61      
Profilaxia para P. carinii   <.001   .247
Não 1.00   1.00  
Sim .61   .93  

* Disponível apenas para 840 pacientes; por isso foi excluído da análise multivariada.

Discussão

A sobrevida mediana dos pacientes maiores de 12 anos no Brasil sofreu grande mudança entre o período 82-89 para 95-96. No primeiro período, 50% dos pacientes sobreviviam cerca de 6 meses após o diagnóstico, enquanto no ano de 1995 passaram a viver 16 meses e os diagnosticados em 1996 tiveram um grande acréscimo, sobrevivendo 58 meses.

Sabe-se que houve mudanças nos critérios de definição de caso entre os dois períodos, fato que poderia nos levar a pensar que essa fosse a causa das diferenças encontradas entre o estudo de Chequer P.-19921 e o atual. No entanto, estudou-se os anos de 95 e 96 com os mesmos critérios e a mudança é notória.

Além disso, mesmo que a mediana de sobrevida se elevasse um pouco ao se aplicar os mesmos critérios de diagnóstico do estudo atual ao primeiro, certamente esse fato não explicaria o aumento de 3 vezes na sobrevivência observado entre 95 e 96, e tampouco explicaria a magnitude desse dado observado no ano de 96 em que se verificou um crescimento cerca de 10 vezes em relação ao primeiro estudo.

É de se destacar que esse grande ganho de sobrevivência dos pacientes de aids no País ocorre simultaneamente à introdução da terapia anti-retroviral de alta potência (HAART) na rede pública nacional. Na análise multivariada, a variável tratamento na vida foi a única que poderia explicar essas mudanças, pois, dentre as duas outras que se mantiveram significantes, o critério de definição já era esperado, devido às grandes diferenças de sensibilidade existentes entre o critério CD4 e os demais e a categoria de transmissão somente manteve-se em .005 (limiar de significância) graças à grande quantidade de casos de exposição desconhecida. Dessa maneira, a introdução da terapia anti-retroviral parece ser o maior responsável por essa feliz constatação, destacando-se que ela somente passa a proporcionar grandes efeitos, quando utilizada, no mínimo, em terapia dupla e atinge o máximo resultado com o uso da terapia tripla.

Outro aspecto muito instigante observado foi o fato de que as variáveis sociodemográficas não permaneceram no modelo multivariado. Isso significa dizer que as possíveis diferenças existentes na sobrevivência causadas por diferença de sexo, situação socioeconômica, idade e categorias de exposição são anuladas quando se garante o mesmo acesso ao tratamento. Esse fato é de grande importância, pois demonstra que, independente dos fatores socioeconômicos e culturais, o uso da terapêutica muda a história natural da doença e proporciona maior eqüidade na sobrevivência dos afetados.

Também é de se salientar que esse fato traz uma outra evidência de grande relevância para o nosso País e para outros países do mundo em desenvolvimento, pois a maior parte dos nossos pacientes tem baixo nível de escolaridade e baixo nível socioeconômico. Os resultados ora apresentados demonstram que essas condições inadequadas vividas por pessoas afetadas pelo vírus não são impedimentos para que se beneficiem do tratamento em iguais condições àqueles que vivem de maneira mais favorecida.

Tal consideração se consolida ainda mais, quando se comparam os resultados de sobrevida obtidos em nosso País, com aqueles dos países de primeiro mundo. Estudo de sobrevida realizado em San Francisco, no mesmo período (95-96)21, registrou praticamente a mesma mediana de sobrevida aqui apresentada (31 meses no período). Na Austrália, no ano de 96 a mediana encontrada foi até mais baixa (28 meses)22 e nos Estados Unidos, o estudo de sobrevida que utilizou o banco nacional de notificação do país, identificou que, aos 36 meses, 67% dos casos notificados em 96 ainda estavam vivos23, enquanto que os dados aqui apresentados referentes ao Brasil, no mesmo período, mostram que 58% dos nossos pacientes permaneciam vivos.

É importante fazer uma reflexão sobre alguns argumentos que têm desestimulado o uso de ARV em países em desenvolvimento, como o que se fundamenta na necessidade de um sistema de saúde complexo, para que se viabilize o uso dos ARV em nível populacional. É preciso destacar que o sistema de saúde nacional, apesar de seus grandes avanços no últimos anos, ainda tem muitas deficiências, quando comparado aos sistemas de saúde dos países desenvolvidos. No entanto, essas debilidades, como vimos aqui, não impediram que as pessoas vivendo com HIV/AIDS no País pudessem ter a mesma intensidade de resposta ao uso dos ARV que as populações afetadas de países que contam com sistemas de saúde melhor aparelhados. Essas considerações reforçam que toda a luta brasileira pelo direito de produzir os ARV em custos compatíveis e garantir o acesso universal é justificável, tendo em vista que os resultados do uso desses medicamentos, em condições reais no País, traduzem-se nos benefícios pressupostos; que mesmos em condições desfavoráveis de desenvolvimento os pacientes brasileiros tiveram intensidade de resposta ao tratamento similar aos pacientes de países desenvolvidos e que há ganhos expressivos tanto em nível individual como coletivo.

Esclarecimento

Esta publicação tem caráter preliminar e foi realizada por causa da importância dos seus achados. A síntese desses mesmos resultados já estão publicados na última edição do MAP - publicação da ONUSIDA, realizada na Conferência de Barcelona, e fizeram parte de dois posteres apresentados no mesmo evento internacional.

O estudo completo já está sendo finalizado e será encaminhado para publicação em revista científica internacional de grande circulação.

Agradecimentos

Agradecemos ao seguinte grupo de experts brasileiros, pela colaboração na definição do desenho inicial do projeto: José Eluf Neto - FMUSP, Célia Landman - Fiocruz, Angela Jordan Gadelha - Secretaria de Saúde - RJ, Ana Costa - UFPE, Fernando Proietti - UFMG, e Maria Inês Dourado - UFBa.

À Yone Guibu pelo suporte na Administração, Ana Lúcia C. Monteiro pela revisão de dados, Sérgio Giannelli pela digitação dos dados e a todos os supervisores e investigadores de estados ou municípios participantes da pesquisa.

Referências Bibliográficas


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