-
Esta página já teve 133.107.101 acessos - desde 16 maio de 2003. Média de 24.663 acessos diários
home | entre em contato
 

Clínica médica/Intensiva/Enfermagem

Produto da seringueira ajuda a curar lesões no esôfago, tímpano e vasos sangüíneos

09/12/2003

Látex terapêutico


O curativo induz fortemente a formação de vasos sangüíneos
na membrana corioalantóica de ovos embrionados de galinha
(imagens: Laboratório de Neuroquímica/FMRP-USP)

Presente em vários aspectos da vida cotidiana, o látex -- extraído da seringueira (Hevea brasiliensis) e base da borracha utilizada em pneus, camisinhas etc. --, chega agora na área médica. Uma pesquisa pioneira realizada na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da Universidade de São Paulo (USP) desenvolveu um biomaterial à base do produto capaz de estimular o crescimento de vasos sangüíneos (angiogênese) e tecidos (neoformação), estimulando assim o processo de cicatrização de feridas.

O trabalho, coordenado pelo médico Joaquim Coutinho Netto, chefe do Laboratório de Neuroquímica, foi tão bem-sucedido que levou à formação de uma empresa. Nos próximos meses, o primeiro produto comercial feito a partir da nova tecnologia, o Biocure, deve chegar ao mercado.

A idéia de usar o látex começou quando a médica Fátima Mrué retornou do Japão em 1994. Seu interesse era desenvolver uma prótese que pudesse substituir o esôfago, e, naquela época, quem mais se dedicava a esses estudos eram pesquisadores japoneses.

Na década de 1990, Thoru Natsume e Nobuyuki Takimoto, da Universidade de Kyoto (Japão), haviam desenvolvido uma prótese esofágica composta de um tubo de silicone com um revestimento externo de colágeno. Mrué decidiu tentar reproduzir a prótese de Takimoto durante o seu mestrado no Brasil. Para isso, entrou em contato com o professor Netto, na FMRP.

As tentativas iniciais não deram certo. O silicone, substância hidrofóbica (repele a água), não se misturava ao colágeno, que é hidrofílico (atrai a água). Apesar de várias tentativas, os pesquisadores não conseguiram reproduzir a união dessas substâncias. Foi então que Netto teve a idéia de usar o produto da seringueira. "Sou da região de São José do Rio Preto, onde há grande cultivo dessas árvores. Como o látex é uma emulsão aquosa, achei que talvez ele pudesse substituir o silicone", explica.

A construção da prótese ficou a cargo de uma empresa local, a Globbor. Como o processo normal de fabricação alterava o colágeno, o químico Antônio César Zabrowski, dono da empresa, desenvolveu e patenteou um método a frio para criar a prótese.

De posse da prótese, Netto e Mrue a inseriram cirurgicamente no esôfago de um cachorro. Para surpresa de ambos, a prótese foi liberada nas fezes após 10 dias, quando o esperado era de 30 a 60. Ao examinarem o cachorro, eles notaram que havia um neoesôfago na área antes ocupada pela prótese. Ou seja, o tecido havia se regenerado, em vez de cicatrizado. A dupla passou então a estudar as propriedades do látex envolvidas nesse processo.

O trabalho durou mais cinco anos e fez uso de 30 cães, acompanhados por meio de técnicas de endoscopia, corte histológico e microscopia. Os pesquisadores concluíram que a capacidade de neoformação se devia à habilidade do látex em promover a angiogênese -- a formação de novos vasos sangüíneos. "Quando o crescimento de vasos é estimulado, há também a formação do tecido de granulação, composto por veias, artérias e fibroblastos, necessário para que haja revestimento da área por epitélio", conta Netto.

Testes adicionais, usando técnicas desenvolvidas pelo médico norte-americano Judah Folkman, do Hospital das Crianças da Universidade de Harvard (Estados Unidos), para estudar angiogênese, foram realizados em membranas corioalantóicas de ovos embrionados de galinha e córneas de coelho, confirmando essa propriedade.

A partir daí, os pesquisadores partiram para um trabalho de melhoramento e aplicação. Sabendo que a capacidade de estimular novos vasos sangüíneos tinha que ser protegida -- pois ela pode ser perdida no manuseio --, os cientistas desenvolveram um método de preparo que preserva as propriedades biológicas desejadas. Já com a substância melhorada, criaram um curativo em forma de lâmina, batizado de Biomembrana.

Em 1998, a dupla pediu autorização à Comissão de Ética Médica do Hospital das Clínicas da FMRP para iniciar o tratamento em humanos. Netto e Mrué, junto com o aluno de doutorado Paulo César Grisotto, se concentraram, com sucesso, na correção de úlceras crônicas de perna, que acometem 2,7% da população brasileira e podem ter origens diversas, como diabetes, varizes e doenças auto-imunes. Os métodos tradicionais de tratamento desse problema podem levar até cerca de seis meses para corrigi-lo, enquanto a Biomembrana já começa a dar resultados, em média, em 12 dias.

Netto é entusiástico sobre a membrana. "Ela forma um biopolímero perfeito, pois é constituída de poliisopreno, que existe no nosso corpo. Isso a torna muito biocompatível", afirma.

Veias e tímpanos


Úlceras localizadas em orelhas de coelho sete
dias após o tratamento com curativos existentes
no mercado (A) e com a Biomembrana (B e C)

O uso da Biomembrana não ficou limitado ao esôfago a às ulcerações de pele. No Setor de Otorrinolaringologia do Departamento de Oftalmologia, Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabeça e Pescoço da FMRP, ela foi usada também em cirurgias de reconstrução de tímpano (miringoplastias). A atividade neoformadora permitiu que o sucesso dessa intervenção pulasse de 75% para 98% a 99%, além de simplificar o método de tratamento e diminuir o tempo do procedimento, pois dispensa a utilização de enxertos. Até hoje já foram realizadas cerca de 200 operações.

Outra aplicação testada foi a do uso de próteses na substituição de veias e artérias. Ao contrário do esôfago, onde a prótese só estimula a formação de tecido na parte interna, nos vasos sangüíneos há neoformação tanto interna quanto externa. Essa nova aplicação vem sendo testada em animais. Alguns já vivem com a prótese há mais de um ano. A idéia é acompanhá-los por períodos mais longos para verificar a resistência e o grau de desgaste do material, já que essas próteses devem ficar implantadas permanentemente.

A pesquisa chamou a atenção da Academia Brasileira de Estudos Avançados, uma organização não-governamental fundada pela companhia Avamax Biotecnologia e Participações que seleciona produtos da área científica e tecnológica e estuda sua viabilidade comercial. A apresentação que Netto fez agradou à Academia. "O projeto da Biomembrana passou pelo crivo, pois tem importância social e preenche todas as características comerciais", explica Ozires Silva, vice-presidente da Academia.

Com o objetivo de criar produtos derivados da tecnologia básica, montou-se uma companhia, em setembro de 2002, denominada Pele Nova S.A. A nova empresa conta com financiamento da Avamax. A patente do processo, registrada em 1996, foi expandida para cobrir 75 países.

O primeiro produto a ser comercializado será o Biocure, um curativo para as úlceras crônicas em geral. Segundo Silva, atual presidente da Pele Nova, o Biocure estará pronto para comercialização em breve. O trabalho de preparar a fábrica e o produto para a certificação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária está avançado e é possível que até o final do ano o Biocure já possa estar no mercado. O produto chegará ao mercado hospitalar (não estará disponível no varejo) com um preço bem mais acessível do que o seu principal competidor, o curativo Apligraf, da empresa Novartis, que custa US$ 1200.

Novos produtos, como a membrana porosa, devem aparecer em breve. Para Netto, o produto é muito promissor. "Acredito que ele possa substituir o silicone com vantagens em quase todas as situações", conclui.

Fred Furtado
Ciência Hoje/RJ

Ciência Hoje


IMPORTANTE

  •  Procure o seu médico para diagnosticar doenças, indicar tratamentos e receitar remédios. 
  • As informações disponíveis no site da Dra. Shirley de Campos possuem apenas caráter educativo.
Publicado por: Dra. Shirley de Campos
versão para impressão

Desenvolvido por: Idelco Ltda.
© Copyright 2003 Dra. Shirley de Campos