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Sono/Distúrbio do sono

Experiências conscientes enquanto dormimos

18/01/2004
Artigo apresenta últimas aquisições da ciência no estudo do sono e de suas funções


À minha esposa, tela de 1933-4 de Marc Chagall

Os sonhos são há milhares de anos objeto de reflexão e fonte de fantasias absurdas que se mantêm até nossos tempos, apesar do muito que já conhecemos a seu respeito. Para entender e tratar de tema tão complexo -- o que é um sonho, como ele se manifesta, como é gerado e qual a sua função - são necessárias diversas abordagens científicas.

Um sonho é uma experiência consciente enquanto dormimos. Pode-se sonhar em qualquer fase do sono porém os sonhos predominam os que ocorrem durante uma fase especial, denominada 'sono-REM', 'sono paradoxal' ou, melhor, 'sono dessincronizado', sobretudo na segunda metade da madrugada. Todas as noites sonhamos em quatro ou cinco episódios de 20 a 30 minutos. Cada um desses episódios (ciclos de sono) dura em média uma hora e meia (exceto o primeiro, que geralmente dura duas horas).

Isso significa que, durante as sete a oito horas em que a maioria das pessoas dorme por noite, sonha-se durante aproximadamente 100 minutos e não apenas durante os poucos minutos de que nos lembramos de vez em quando. Os gatos, animais que dormem prolongadamente, exibem sinais de atividade onírica durante cerca de 200 minutos por dia, isto é, o dobro da nossa.

Quem primeiro estudou sistematicamente os sonhos foi o grande filósofo grego Aristóteles (384-322 a.C.), que, entre muitas outras descobertas, verificou que eles se caracterizam pela ocorrência de movimentos dos olhos, dos lábios e da face, assim como dos membros superiores e inferiores. Segundo Aristóteles, os movimentos refletiam o conteúdo dos sonhos, opinião hoje inteiramente confirmada. Suas pesquisas sobre o sono e os sonhos são minuciosamente relatadas em seu livro, a que mais tarde se deu o nome latino De somno (embora em sua época o latim fosse uma língua ainda desconhecida). Há várias traduções desse importante livro, das quais a última publicada em 1991, na Inglaterra, como On sleep and dreams.

Em fins do século 19, a psicóloga norte-americana Ann W. Calkins criou a técnica de despertar as pessoas quando se iniciavam os movimentos e assim descobriu que o conteúdo dos sonhos se vinculava estreitamente (em 89% dos casos) aos acontecimentos do dia anterior. Com isso, Calkins confirmou a opinião de Aristóteles, da qual vários especialistas atuais discordam, em parte devido à interpretação psicanalítica dos sonhos mas também por raciocínio simplista e ilógico.

O estudo do sono de diversas espécies animais, sobretudo de mamíferos, levou Aristóteles a concluir que esses animais também sonham. O naturalista inglês Charles Darwin (1809-1892) afirmava, em meados do século 19, que "pelo menos as aves e os mamíferos sonham", opinião ainda irrefutável em nossos dias. Quanto a animais abaixo das aves na escala filogenética (répteis, anfíbios, peixes e invertebrados), só há relatos com relação a crocodilos, que aparentemente emitem sinais de atividade onírica, mas essa observação ainda requer confirmação de pesquisas diferentes.

Há quem busque nos sonhos a reprodução de acontecimentos inteiros do período vígil. Mas como isso não ocorre nunca, acreditam que os sonhos não se baseiam em acontecimentos do dia anterior ou de dias pregressos próximos. Na verdade, às vezes uma pessoa que vemos de relance ou da qual nos lembramos durante alguns segundos pode constituir o cerne de todo um sonho na noite seguinte.

Uma simples palavra que lemos ou ouvimos, uma fotografia, um som, uma cena breve a que assistimos na rua, na televisão, em sala de aula ou em qualquer outro ambiente também podem ser tema principal de todo um sonho. Interessante é que um breve sinal desses pode mesclar-se com muitos outros e somente uma análise de alguém experiente pode revelar qual foi o sinal inicial.

Muitos pesquisadores não acreditam que crianças sonhem simplesmente porque, entre três e cinco anos, elas não contam seqüências oníricas, apenas algumas cenas curtas. Já a partir dos seis ou sete anos, as crianças começam a contar detalhadamente o conteúdo de seus sonhos. É evidente que as primeiras não têm capacidade de narrar com lógica nenhum evento que não dure apenas alguns segundos. Daí a impressão que se pode ter de que não sonham, ao passo que depois dos seis ou sete anos elas já adquirem essa capacidade.

De fato, enquanto dormem, as crianças costumam mover-se muito, o que deve estar vinculado a uma atividade onírica intensa. Nesse sentido, é muito significativo que as crianças sonhem freqüentemente com cães e gatos antes dos sete anos, mas depois passem a sonhar com temas relacionados à escola e a seus colegas. É óbvio que a presença quase ubíqua de animais nas casas deve constituir tema importante para as criancinhas, mas quando começam a freqüentar a escola os temas e as pessoas do novo e interessante ambiente tornam-se objetos mais relevantes em suas vidas e, portanto, devem aparecer mais nos sonhos, o que de fato acontece.

São bem conhecidas e acatadas as interpretações psicanalíticas dos sonhos, mas elas podem ser desviadas da realidade por várias razões. Uma delas é que a interpretação baseia-se no relato dos raros sonhos de que nos lembramos ao acordarmos, embora sonhemos em cinco ou seis episódios cada noite. Outro erro é uma doutrinação fantasiosa sobre o significado de temas sexuais na estrutura dos sonhos, que representam pequena proporção dos episódios oníricos.

O filósofo grego Platão (c.428-c.348 a.C.) já defendia, há quase 2.500 anos, que alguns sonhos de caráter incestuoso, ou agressivo -- quando se mata alguém, por exemplo --, representam desejos inconfessáveis. Tais desejos, portanto, só podem ocorrer sem punição durante os sonhos. Embora aconteçam algumas vezes, esses sonhos são raros. A maioria guarda, de fato, relação com cenas e fatos do dia anterior ou de dias anteriores próximos.

O estudo observacional dos sonhos produziu informações do mais alto valor científico, porém foi a invenção de técnicas de registro de potenciais elétricos do sistema nervoso central e de movimentos que possibilitou, no século 20, amplo conhecimento sobre as manifestações e razoável conhecimento dos mecanismos e as origens dos sonhos. Essas técnicas possibilitam estudar em seres humanos, assim como em outras espécies animais, as manifestações oníricas. Entretanto, os estudos sobre sua origem e seus mecanismos só podem ser feitos com experiências em animais, mas não em humanos. Os gatos e os ratos têm sido os animais preferidos para realizar tais estudos.

Ciência Hoje
Cesar Timo-Iaria
Laboratório de Neurocirurgia Funcional,
Faculdade de Medicina,
Universidade de São Paulo


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Publicado por: Dra. Shirley de Campos
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